
Durante as décadas de 1980 e 1990, o Fundo Monetário Internacional (FMI) esteve entre os principais defensores das reformas liberalizantes conhecidas como Consenso de Washington. Em programas de ajuste estrutural firmados com dezenas de países, especialmente da América Latina, África e Leste Europeu, o Fundo recomendava a privatização de empresas estatais, a abertura comercial, a desregulamentação e a redução do papel do Estado na economia. A mídia corporativa defendeu ferrenhamente, com seus “especialistas”, esse receituário sem espaço para análise crítica.
Apresentadas como solução para aumentar a eficiência, reduzir gastos públicos e melhorar a qualidade dos serviços, as privatizações tornaram-se condição frequente para empréstimos internacionais e programas de ajuste estrutural, sobretudo em países da América Latina, África e Leste Europeu.
Agora, um estudo publicado pelo próprio FMI reconhece que o movimento global caminha em direção oposta. O organismo identifica o surgimento de uma “quarta grande onda de nacionalizações”, impulsionada pela necessidade de os Estados retomarem o controle de áreas consideradas essenciais ao desenvolvimento econômico e à segurança nacional.
Embora o Fundo trate o fenômeno como uma adaptação às novas circunstâncias globais, a constatação representa um reconhecimento indireto das limitações do modelo que ajudou a promover por décadas.
O protagonismo do Estado cresce nas principais economias
A mudança não ocorre apenas em países em desenvolvimento.
Nos Estados Unidos, o governo aprovou o CHIPS and Science Act, destinando cerca de US$ 52 bilhões para fortalecer a produção doméstica de semicondutores. Em seguida, o Inflation Reduction Act mobilizou aproximadamente US$ 369 bilhões em incentivos públicos para energia limpa e indústria de alta tecnologia.
Na União Europeia, o programa NextGenerationEU reúne cerca de € 800 bilhões para investimentos públicos em infraestrutura, transição energética e inovação.
Na China, as empresas estatais continuam responsáveis por parcela significativa dos investimentos em energia, infraestrutura, transporte ferroviário e setores considerados estratégicos para a política industrial.
Esses exemplos mostram que, diante das disputas tecnológicas, da reorganização das cadeias globais e das tensões geopolíticas, mesmo economias tradicionalmente favoráveis ao mercado passaram a recorrer com maior intensidade à ação do Estado.
O retorno do Estado ganha força
Segundo a análise, governos vêm ampliando sua participação em setores estratégicos como energia, infraestrutura, transportes, semicondutores, minerais críticos, telecomunicações e sistema financeiro.
Essa tendência foi acelerada por sucessivas crises internacionais. A pandemia de covid-19 revelou a importância da capacidade estatal para coordenar políticas públicas e garantir serviços essenciais. Em seguida, conflitos geopolíticos, disputas tecnológicas e problemas nas cadeias globais de suprimentos reforçaram a percepção de que determinadas atividades não podem depender exclusivamente da lógica de mercado.
O estudo observa que diversos países passaram a utilizar empresas estatais, fundos soberanos e investimentos públicos como instrumentos de política industrial e segurança econômica.
Na prática, o Estado volta a ocupar um espaço que o neoliberalismo procurou reduzir desde os anos 1980. Até então, a guerra fria com o bloco soviético obrigava as potências ocidentais ao controle estrito sobre os setores estratégicos, sempre mais capaz de tomadas de decisões econômicas rápidas e desburocratizadas. A capitulação do regime soviético possibilitou a abertura de porteira para o neoliberalismo.
Promessas que nem sempre se concretizaram
A experiência internacional acumulada nas últimas décadas mostra que muitas privatizações produziram resultados bastante diferentes daqueles anunciados por seus defensores.
Em vários países, a transferência de serviços públicos para empresas privadas foi acompanhada por aumento de tarifas, redução de investimentos, concentração de mercado e deterioração da qualidade do atendimento.
Em setores caracterizados como monopólios naturais — como saneamento, distribuição de energia, ferrovias e abastecimento de água — a substituição do monopólio público pelo privado frequentemente manteve a ausência de concorrência, sem garantir ganhos proporcionais de eficiência.
Ao mesmo tempo, Estados continuaram responsáveis por socorrer empresas concessionárias em momentos de crise, absorvendo prejuízos enquanto os lucros permaneciam privatizados.
No Reino Unido, pioneiro das privatizações nos anos 1980, durante o governo Thatcher, a empresa Thames Water, maior companhia privada de saneamento do país, acumulou dívida superior a £ 19 bilhões, enfrentou sucessivas multas por despejo de esgoto em rios e entrou em grave crise financeira, reacendendo o debate sobre reestatização.
Também no Reino Unido, a privatização das ferrovias iniciada na década de 1990 resultou em sucessivos problemas operacionais, aumento da fragmentação do sistema e forte dependência de subsídios públicos. Entre 2020 e 2024, diversas concessões foram encerradas e passaram ao controle do governo britânico por meio da operadora pública Operator of Last Resort.
Na França, o governo decidiu renacionalizar integralmente a companhia de energia EDF, desembolsando cerca de € 9,7 bilhões para adquirir as ações que permaneciam em mãos privadas. A medida foi justificada pela necessidade de garantir segurança energética e coordenar os investimentos na expansão da matriz elétrica.
América Latina conhece bem esse roteiro
Poucas regiões experimentaram de forma tão intensa as políticas de privatização quanto a América Latina.
A partir dos anos 1990, diversos governos implementaram programas de venda de empresas estatais como parte das recomendações do chamado Consenso de Washington, frequentemente apoiadas pelo FMI e pelo Banco Mundial.
Empresas de telecomunicações, energia, mineração, bancos, ferrovias, portos e sistemas de abastecimento passaram para o controle privado.
Embora alguns setores tenham registrado ganhos tecnológicos e expansão de investimentos, muitos países enfrentaram aumento da dependência externa, perda de instrumentos de planejamento econômico e dificuldades para garantir serviços universais.
No Brasil, passaram ao controle privado empresas como a Companhia Vale do Rio Doce, o sistema Telebrás, distribuidoras estaduais de energia e diversas concessões de infraestrutura.
Em outros países, como Argentina e Bolívia, serviços de abastecimento de água também foram privatizados.
Um dos casos mais emblemáticos ocorreu em Cochabamba, na Bolívia, em 1999. Após a concessão do sistema de água a um consórcio privado, tarifas chegaram a subir significativamente para parte da população, provocando grandes manifestações populares conhecidas como a Guerra da Água. O contrato acabou sendo cancelado pelo governo boliviano.
Na Argentina, a concessão da empresa Aguas Argentinas foi encerrada em 2006, após anos de disputas envolvendo metas de investimento, expansão dos serviços e qualidade do atendimento. Apesar de todas essas experiências escandalosas, a ascensão da extrema direita em governos brasileiros mantém em alta as privatizações, como a problemática venda do setor elétrico para a Enel ou ainda a recente venda da Sabesp, que já está mergulhada em catástrofes nunca antes vistas no estado de São Paulo.
Nacionalizações voltam ao centro da política econômica
A nova tendência identificada pelo FMI não representa um retorno automático aos modelos estatais do século XX.
Em muitos casos, trata-se da construção de modelos híbridos, nos quais o Estado amplia sua presença para coordenar investimentos estratégicos, estimular inovação tecnológica e assegurar infraestrutura considerada essencial para o desenvolvimento nacional.
Também cresce o entendimento de que desafios contemporâneos — como transição energética, mudanças climáticas, digitalização da economia e soberania tecnológica — exigem planejamento público de longo prazo, algo difícil de compatibilizar com estratégias voltadas exclusivamente para a maximização do lucro de curto prazo.
O debate sobre o papel do Estado permanece aberto
O reconhecimento, pelo próprio FMI, do avanço de uma nova onda de nacionalizações revela uma mudança importante no debate internacional sobre desenvolvimento.
Mais do que uma simples revisão conceitual, o fenômeno reflete as transformações provocadas pelas sucessivas crises econômicas, sanitárias e geopolíticas das últimas décadas.
Para críticos do neoliberalismo, a constatação reforça uma avaliação sustentada há muitos anos: a privatização indiscriminada de setores estratégicos enfraqueceu a capacidade dos Estados de formular políticas públicas, ampliou a dependência de grandes grupos econômicos e nem sempre entregou os ganhos de eficiência prometidos.
O debate atual deixa de opor, de forma simplista, Estado e mercado. A questão passa a ser qual papel cada um deve desempenhar na promoção do desenvolvimento, da soberania econômica e da garantia de direitos sociais. Nesse cenário, o fortalecimento da capacidade estatal volta a ocupar lugar central nas estratégias adotadas por um número crescente de países, inclusive entre aqueles que, durante décadas, seguiram as recomendações liberalizantes hoje colocadas em xeque.
O post FMI reconhece fracasso das privatizações e aponta nova onda estatal apareceu primeiro em Vermelho.