
A história da Força Sindical revela a traição à classe trabalhadora e sua submissão ao projeto neoliberal e ao financiamento da burguesia. A trajetória de Luiz de Medeiros e Paulinho da Força demonstra como a central atuou para desmobilizar a luta e apoiar a privatização criminosa. O uso de recurso patronal para corromper o sindicato reforça a necessidade da formação marxista e da organização classista para a conquista do poder popular e do socialismo no Brasil.
Marcelo Pereira – Belo Horizonte (MG)
OPINIÃO – Diante da tarefa de fortalecer a construção dos sindicatos no Brasil, é fundamental conhecer a história do sindicalismo. Vito Giannotti foi um sindicalista que deu ótimas contribuições para o registro dessa história, como, por exemplo, através do livro “Força Sindical – A central neoliberal – De Medeiros a Paulinho”, de 2002.
A Força Sindical foi fundada em 1991 e teve como principal liderança Luiz Antônio de Medeiros. No livro é relatada a vida de Medeiros desde 1979, no início da sua atuação. O fato de ter sido preso político durante a ditadura militar e ter feito curso de formação política na União Soviética poderia nos levar a pensar que se tratava de um aliado dos trabalhadores. Porém, a prática demonstrou o contrário.
Após Medeiros, Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força, foi a principal liderança que deu continuidade à atuação da central. Paulinho da Força é hoje presidente do partido Solidariedade, deputado federal, será candidato a senador em 2026 e foi relator do PL da Anistia. Votou a favor do impeachment da Dilma e da PEC do Teto de Gastos do Temer.
Mas como dois metalúrgicos e sindicalistas chegaram nessa posição e defendem os interesses dos patrões? O que é a Força Sindical? Como foi sua atuação no passado e como é hoje? Para responder a essas perguntas, o livro do Vito Giannotti apresenta diversos registros históricos e poderá servir de base para nossa atuação nos sindicatos no próximo período.
Financiamento
A fundação da Força Sindical foi possibilitada por grandes investimentos da burguesia e dos seus governos. O livro descreve com detalhes esses financiamentos. Sete empresas declararam ao Globo terem doado US$ 934 mil entre 1991 e 1992, época de fundação da central. Fernando Collor e seu Ministro da Economia, PC Farias, envolvidos em escândalos de corrupção, também participaram da articulação para o financiamento.
Para além de doações, as empresas garantiam a organização de grandes festas no 1º de maio. Em 2002, a central reuniu mais de 1,5 milhão de pessoas no Dia Internacional da Classe Trabalhadora. A festa contou com sorteio de 10 carros doados por montadoras e 5 apartamentos, entre outros itens.
Além do dinheiro das empresas, tanto sob a direção de Medeiros quanto de Paulinho, a central também buscou recursos com os governos de direita.
Em 1991, por meio dos Ministérios da Saúde e da Educação, o governo Collor direcionou milhões de cruzeiros para a central. Foram Cr$ 457 milhões para a ampliação da rede de 4 ambulatório médicos mantidos pelo Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo. Além disso, foi assinado um acordo para repasses de até Cr$ 500 milhões destinados para o programa de alfabetização de adultos. Para fins de comparação, por meio desse mesmo programa, apenas 10% do valor foi direcionado para atender todos os municípios de São Paulo.
O Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) do governo FHC forneceu grandes recursos às quatro principais centrais (Central Geral dos Trabalhadores, Central Única dos Trabalhadores, Força Sindical e Social Democracia Sindical), sendo a maior fatia destinada à “Farsa Sindical”. Tudo isso possibilitou que essa central chegasse a mais de 1.500 sindicatos filiados em 2002.
Defesa do neoliberalismo
Há um ditado que diz: quem paga a banda escolhe a música. Diante dos grandes financiamentos, a Força Sindical dançou conforme a música escolhida pela burguesia. Um desses serviços prestados pela central é a defesa do neoliberalismo.
O neoliberalismo é marcado pela redução do Estado, privatizações, corte de direitos da classe trabalhadora, aumento dos lucros da burguesia, entre outros. Ainda hoje essas ideias persistem e são propagandeadas pela burguesia e seus meios de comunicação quando, por exemplo, defendem o Teto de Gastos.
Diversas reportagens e entrevistas mostram a posição de Medeiros ao longo dos anos: defendia abertamente o projeto neoliberal de privatizações, cortes de direitos e continuidade do capitalismo, sistema de exploração dos trabalhadores. Mas não foi só em palavras. No final do século XX, a Força Sindical mobilizou os trabalhadores na aprovação das leis que permitiram o contrato temporário, que instituíram as comissões de conciliação e que pretendiam retirar ainda mais os direitos estabelecidos pela CLT. Essa última foi retirada de pauta graças às grandes lutas travadas pela classe trabalhadora, com uma greve geral puxada para 21 de março de 2002. Só em 2017, com a reforma trabalhista de Temer, foi dada continuidade a esse projeto que atacou novamente os direitos dos trabalhadores.
O projeto neoliberal de acabar com o serviço público já fazia parte da pauta da direita na época e ainda continua. Collor foi eleito com o discurso de “caçador de marajás”, argumentando que os servidores públicos recebem altos privilégios. Na atualidade, temos visto o Centrão, com Paulinho da Força como um dos articuladores, pautar a Reforma Administrativa.
Até mesmo a privatização da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) contou com a influência da Força. Medeiros cuidou de neutralizar os trabalhadores das empresas enquanto os diretores organizavam a venda da empresa. No dia 3 de abril de 1993, na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, o sindicalista estava presente para bater o martelo e comemorar com os vencedores do leilão. Tudo foi televisionado pela Rede Globo e o seu rosto estava escancarado nas telas. Não foi a primeira vez que Medeiros aparecia nos jornais burgueses. O livro de Vito Giannotti apresenta inúmeros registros do dirigente da Força Sindical se pronunciando a favor das pautas neoliberais e atacando a esquerda.
Hoje a Força Sindical ainda é uma das maiores centrais sindicais do Brasil e continua prestando seus serviços à burguesia. É claro que uma matéria é insuficiente para esgotar todos os elementos apresentados no livro; portanto, é fundamental que reforcemos o planejamento e o acompanhamento dos nossos estudos individuais. Eles devem ser organizados para que seja possível avançar nossa formação política mês a mês, ano a ano, desde as obras clássicas do marxismo até os textos importantes do sindicalismo brasileiro. Unindo a teoria com a prática, não há “força” capaz de impedir a classe trabalhadora de construir o poder popular e o socialismo no nosso país.