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Formação de bancos de areia agrava as cheias do Guaíba? Especialistas desmentem teoria

As chuvas do mês de junho, que trouxeram de volta a ameaça de alagamentos em Porto Alegre, reacenderam também a teoria de que as cheias seriam influenciadas pela falta de dragagem do rio Guaíba. Vereadores do PL têm publicado vídeos com explicações pseudocientíficas sobre o tema. O governo do Rio Grande do Sul precisou intervir na onda de desinformação: a formação de bancos de areia no Guaíba é normal e não agrava enchentes, afirma a imprensa oficial do estado, com base na explicação de especialistas.

Em frente a uma bacia cheia de areia, a vereadora Comandante Nádia fala diretamente para a câmera em um vídeo que publicou no Instagram: “Este é o Guaíba que temos. Um Guaíba assoreado, que por muitos anos não foi dragado. Infelizmente, o governo federal, que tem esta responsabilidade, deixou o Guaíba dessa forma. Quando nós temos uma intensidade grande de chuva, só tem uma saída: ele transborda”, diz, enquanto derrama uma garrafa d’água na bacia.

Também no Instagram, o vereador Jessé Sangali escolheu culpar o governo estadual de décadas atrás: “O Guaíba está há trinta anos sem dragagem por culpa do Olívio [Dutra] e da esquerda ultra radical de Porto Alegre”, declara. Já a vereadora Fernanda Barth pontua que “o Guaíba está repleto de areia acumulada por décadas de negligência, aumentando o risco de novas enchentes e travando o desenvolvimento econômico. É hora de deixar de ouvir radicais ambientalistas que ignoram a realidade”, conclui.

 

Vereadora Comandante Nádia (PL) demonstra teoria de que o Guaíba transborda porque está “cheio de areia”. Foto: Reprodução/Instagram

A realidade, no entanto, tem sido ignorada justamente pelos vereadores da extrema-direita em suas publicações. Os bancos de areia são um tipo de formação geológica que ocorre devido a um processo natural de sedimentação e, apesar de o banco de areia que pode ser visto no Guaíba ter aumentado de tamanho após a enchente de 2024, isso não representa risco maior de inundações na Capital, nem interfere na capacidade de navegação.

Ao governo do estado, o professor do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da UFRGS Fernando Mainardi explica que os bancos de areia têm influência desprezível para as cheias do Guaíba. “é a mesma influência no engarrafamento da rodovia provocado por um veículo parado naquelas áreas para descanso. Praticamente nenhum”, enfatiza.

O secretário-executivo do Comitê Científico de Adaptação e Resiliência Climática do Rio Grande do Sul, professor Joel Goldenfum, explica que a formação de bancos de areia é um fenômeno natural em ambientes que se comportam de maneira semelhante a lagos – como é o caso do Guaíba. Nesses cursos d’água, o material em suspensão transportado pelas águas tende a se depositar quando a velocidade da corrente diminui.

“A formação de bancos de areia nesse tipo de ambiente é um processo absolutamente normal, comum em áreas onde a água perde velocidade, o que favorece a deposição de material em suspensão. Primeiro, formam-se bancos de areia e, à medida que eles vão crescendo, podem ou não se tornar ilhas”, detalha Goldenfum. “As Ilhas dos Marinheiros e da Pintada, por exemplo, se formaram por meio de processos semelhantes, mas num intervalo de tempo bem maior”.

O professor também aponta que, nesse caso, a dragagem é desnecessária. “Não há nenhum motivo técnico para isso. O volume do banco de areia é muito pequeno se comparado ao volume total do Guaíba. Além de ser um processo que demanda altos investimentos, não há indicativos de que sua retirada possa ter um impacto significativo no controle de enchentes”, ressalta.

Banco de areia tem pelo menos 60 anos

O banco de areia que pode ser visto junto à Ilha das Balseiras, no Guaíba, em Porto Alegre, é uma formação antiga. De acordo com o governo do estado, Mapas do Exército e da Marinha Brasileira elaborados com base em levantamentos realizados entre 1961 e 1964 já indicavam sua presença.

 

Mapa antigo mostra área de deposição de sedimentos (verde) e Coroa da Balseiras (desenho pontilhado). Foto: Cartografia de Marinha – levantamentos de 1961 a 1964

Os documentos cartográficos antigos das Forças Armadas apontavam uma área de deposição de sedimentos ao redor da Ilha das Balseiras, incluindo a chamada “coroa da Balseiras”, representada com pontilhado para sinalizar o banco de areia envoltório. Imagens de satélite também comprovam que a formação já existia muito antes de 2024. Um exemplo é uma imagem registrada em 2020, na qual o banco de areia aparece de forma nítida. A visibilidade varia conforme o nível das águas.

Em imagem de 2020, banco de areia aparece de forma nítida. Foto: Google Earth

“Esse banco de areia foi identificado na década de 1960. Houve um crescimento em razão do evento adverso de 2024, porque processos dessa magnitude sempre deixam marcas na paisagem. Porém trata-se de uma área muito pequena em relação à dimensão do Guaíba”, afirma o analista-chefe do departamento de qualidade ambiental da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), Glaucus Ribeiro. “Tecnicamente, essa porção de areia não trará efeitos no que tange a inundações em Porto Alegre, e sua remoção seria ineficaz no que diz respeito ao controle de enchentes”.

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