
A abertura do Fórum de Autoridades Antifascistas, realizada na tarde desta quinta-feira (26), deu início à primeira Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, reunindo lideranças políticas, parlamentares e representantes de movimentos sociais de cerca de 40 países. Porto Alegre reune 4.300 inscritos de aproximadamente 40 países, 120 painelistas e 150 atividades autogestionadas.
O evento, realizado na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, marcou um esforço inédito de articulação global contra o avanço de forças autoritárias que, segundo os organizadores, se alimentam do ódio, da mentira e da desigualdade em escala planetária.
Ao abrir os trabalhos, a deputada Luciana Genro (PSOL) destacou a amplitude do evento, em que a diversidade de participantes reflete a urgência de uma articulação global diante do avanço de forças autoritárias.
A programação do fórum prosseguiu com mesas sobre os limites da ação institucional e experiências de governos populares. As mesas contam com mediação de nomes como das deputadas federais Maria do Rosário (PT-RS) e Daiana Santos (PCdoB-RS), além da participação de lideranças internacionais e representantes do legislativo local.
Fascismo contemporâneo: mutações e desafios
Em seu discurso de abertura, a deputada Luciana Genro alertou que o fascismo atual “está em constante mutação” e se manifesta em “novas roupagens, sejam elas digitais, políticas e econômicas”. Diferentemente das ditaduras explícitas do século XX, o autoritarismo contemporâneo opera de forma mais sutil, explorando brechas da democracia formal e utilizando algoritmos das redes sociais para amplificar discursos de ódio e desinformação.
“Não basta condenar o fascismo, é preciso atacar seus alicerces: o machismo, o racismo, o colonialismo, a exploração e o neoliberalismo”, afirmou Genro. Para ela, combater o fenômeno exige reconhecer que ele prospera quando há desesperança e abandono social, transformando cidadãos em “alvos fáceis para manipuladores do medo”.
Antifascismo como prática, não como rótulo
O deputado Pepe Vargas (PP), co-coordenador da mesa de abertura, destacou que a luta antifascista não pode se limitar à defesa da democracia formal. “Precisamos discutir qual a democracia econômica necessária para combater o fascismo”, argumentou, apontando para a “ditadura do capital financeiro” que limita a ação de governos populares mesmo quando eleitos democraticamente.
Vargas citou como exemplos as autonomias de bancos centrais e a captura orçamentária por maiorias parlamentares conservadoras, que dificultam a implementação de programas transformadores. “Quando governos democráticos não conseguem mudar substantivamente a vida da população, abrem-se brechas para que o discurso fascista, que se vale de ressentimentos, se estabeleça no imaginário social”, analisou.
Instituições, limites e desafios estruturais
A fala também resgatou episódios recentes da política brasileira, como os ataques às urnas eletrônicas e os atos de 8 de janeiro de 2023 no Brasil, apontados como sinais de fragilidade democrática e da força da desinformação organizada.
Para Genro, a defesa da democracia exige ação concreta: “Não se trata de um rótulo, mas de uma prática”, disse, ao defender o combate às desigualdades como parte central da luta antifascista.
Segundo Vargas, o fascismo contemporâneo se infiltra nas brechas da democracia formal e se fortalece em contextos de frustração social e desigualdade econômica. “Não basta defender direitos humanos; é preciso avançar na democracia econômica”, afirmou, ao criticar a influência do sistema financeiro sobre governos eleitos.
Programação discute estratégias globais
A conferência enfatizou que as forças do ódio se articulam globalmente — citando Trump nos EUA, Erdoğan na Turquia, Orbán na Hungria, Netanyahu em Israel e Bolsonaro no Brasil como expressões de um mesmo fenômeno — e que a resposta também deve ser internacional. “A máquina de mentiras opera em escala planetária. Precisamos exigir transparência de algoritmos e construir políticas conjuntas entre países para combater o extremismo e as big techs”, defendeu Luciana Genro.
O evento contou com a presença de parlamentares e lideranças de diversos continentes, incluindo o senador Oscar Andrade (PCUruguai), a ex-deputada Ana Miranda (Espanha), o deputado Erkan Bas (Turquia), a ex-deputada Vilma Ripoll (Argentina) e representantes de governos locais da Itália, Portugal, Chile, Cuba, Estados Unidos e Venezuela. A diversidade de participantes reforçou o caráter transnacional da iniciativa.
Democracia formal e democracia econômica
Um dos eixos centrais dos debates foi a tensão entre a defesa das instituições democráticas e a necessidade de aprofundá-las no plano econômico. Pepe Vargas alertou que “não basta defender só os direitos humanos” ou a democracia formal, pois o fascismo contemporâneo “aproveita as brechas da democracia formal para se inserir nos discursos”.
A proposta que emergiu dos discursos foi a de construir uma “democracia econômica” que supere a hegemonia do sistema financeiro, garantindo distribuição de riqueza e capacidade real de governos populares implementarem suas propostas. “É preciso garantir orçamentos que não sejam capturados pelo sistema financeiro ou por maiorias parlamentares conservadoras”, sustentou.
Palestina: símbolo da luta antifascista
A presença do embaixador da Palestina, Marwan Jebril Burini, conferiu dimensão simbólica ao evento. Em breve fala em espanhol, destacou que o povo palestino luta pelo mesmo que todos ali: “viver em paz, em soberania e em justiça”. Para os organizadores, a resistência palestina contra o sionismo e o genocídio representa “a principal luta antifascista que ocorre hoje no mundo”.
A deputada estadual Gabi Tolotti (PSOL), que integrou a Flotilha da Liberdade e foi presa por Israel, também marcou presença, reforçando a conexão entre as lutas anticoloniais e o antifascismo. Confirme dito pelos coordenadores, a luta do povo palestino simboliza todas essas lutas de forma ainda mais dura, mais radical: uma luta de vida ou morte.
Perspectivas estratégicas
A conferência prossegue com painéis sobre o papel da ação institucional na luta democrática e experiências de aprofundamento da democracia a partir de governos populares. Para os organizadores, o desafio é traduzir a articulação internacional em ações concretas que combinem pressão institucional, mobilização nas ruas, disputas culturais e enfrentamento às estruturas econômicas que sustentam o autoritarismo.
Encerrando a abertura, os organizadores enfatizaram que a luta antifascista não se limita aos espaços institucionais. A conferência será acompanhada por mobilizações nas ruas de Porto Alegre, reforçando a ideia de que o enfrentamento ao autoritarismo exige participação popular ativa.
Mobilização para além das instituições
Como sintetizou Luciana Genro ao encerrar sua fala: “Jamais aceitaremos que o medo governe o futuro. Jamais aceitaremos que o autoritarismo vista a máscara da ordem. O antifascismo é, antes de tudo, uma defesa da vida, da liberdade, da dignidade humana”. Em tempos de ascensão global da extrema direita, Porto Alegre reafirma que a resistência também se internacionaliza.
O fascismo é uma rede — e a nossa resposta também deve ser, foi como se resumiu na abertura a defesa da unidade internacional para enfrentar o avanço da extrema direita no mundo contemporâneo.
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