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Funcionários pressionam ONU a tratar guerra em Gaza como genocídio

Centenas de funcionários do Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) pediram ao chefe da agência, Volker Turk, que descreva explicitamente a guerra em Gaza como um genocídio.

A carta, enviada nesta quarta-feira (28) e vista pela agência Reuters, foi assinada por um comitê que representa mais de 500 empregados em todo o mundo — cerca de um quarto da força de trabalho global da entidade. No texto, os signatários afirmam que os critérios legais para caracterizar genocídio já foram cumpridos, citando a escala, o alcance e a natureza das violações documentadas em quase dois anos de conflito entre Israel e o Hamas.

“O ACNUDH tem uma forte responsabilidade legal e moral de denunciar atos de genocídio”, diz a carta. Para os funcionários, deixar de usar o termo minaria a credibilidade não apenas do Alto Comissariado, mas de todo o sistema internacional de direitos humanos. O documento menciona ainda o fracasso moral da ONU diante do genocídio de Ruanda em 1994, quando mais de 1 milhão de pessoas foram mortas.

Reações e tensões

O Ministério das Relações Exteriores de Israel rejeitou o conteúdo da carta, afirmando que não responde a “cartas internas de funcionários da ONU, mesmo que sejam falsas, infundadas e cegas de ódio obsessivo contra Israel”. O governo israelense já havia negado anteriormente acusações de genocídio, sustentando que sua atuação em Gaza se insere no direito à autodefesa após os ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023, que deixaram 1.200 mortos e resultaram em 251 reféns.

Desde então, a ofensiva militar israelense já causou quase 63 mil mortes, segundo o Ministério da Saúde de Gaza. Além disso, monitoramentos da ONU alertam para a fome e a desnutrição severa em partes do território.

Debate jurídico e político

Embora organizações como a Anistia Internacional e especialistas independentes da ONU, como a relatora especial Francesca Albanese, já utilizem o termo genocídio para descrever a guerra, a própria ONU ainda não o faz. Autoridades do sistema multilateral defendem que a classificação formal cabe a tribunais internacionais.

Em 2023, a África do Sul apresentou um processo contra Israel na Corte Internacional de Justiça, acusando o país de genocídio em Gaza. O caso ainda não foi julgado em seu mérito, e a tramitação pode levar anos.

Divisão interna

O episódio expõe também as tensões dentro da própria ONU. Em resposta à carta, Turk reconheceu o sentimento de “indignação moral” de seus funcionários e a frustração com a incapacidade da comunidade internacional de pôr fim ao conflito. Ele pediu, porém, que a equipe mantenha a unidade do Escritório “diante de tamanha adversidade”.

A porta-voz do ACNUDH, Ravina Shamdasani, confirmou que o tema vem sendo discutido internamente e admitiu que a situação em Gaza “abalou profundamente” a organização, que tenta documentar fatos e soar o alarme diante da escalada da violência.

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