
A Estrela Solitária — Um brasileiro chamado Garrincha, obra de Ruy Castro, é considerada a mais completa biografia de Manuel Francisco dos Santos, o Mané Garrincha. Para escrevê-la, o autor entrevistou cerca de 170 pessoas e pesquisou os 50 anos de história do craque ao longo de dois anos e meio.
Publicado em 1995 pela Editora Schwarcz (Companhia das Letras), o livro é um documento valioso, vivo e rico em detalhes sobre as transformações no mundo do futebol e as condições precárias em que viviam os jogadores nas décadas de 1950 e 1960. Essas mudanças ocorriam em um contexto no qual o Brasil deixava de ser predominantemente rural, impulsionado pelo crescimento do setor industrial, com a consolidação da CSN, da Petrobras e das indústrias metalúrgicas e siderúrgicas.
A trajetória do gênio começa no distrito de Pau Grande, em Magé (Rio de Janeiro), no dia 28 de outubro de 1933, data de nascimento daquele que se tornaria um dos maiores jogadores e o maior driblador da história do futebol mundial.
Pernas tortas
Sua parteira, Dona Leonor, foi a primeira a notar que o recém-nascido tinha as pernas tortas. Nas palavras do biógrafo, a perna esquerda era arqueada para fora e a direita para dentro — paralelas, como se uma rajada de vento de desenho animado as tivesse vergado para o mesmo lado. Se tivesse usado um aparelho ortopédico de correção na infância, as pernas de Manuel teriam se alinhado em pouco tempo.
Mas essa não era a realidade na rua do Chiqueiro, em Pau Grande, no ano de 1933. E, quem sabe, se suas pernas tivessem sido corrigidas, o mundo não teria conhecido o craque das pernas tortas e do espírito livre.
Botafogo e o drible no preconceito
Aos 14 anos, o garoto despertou a atenção de Arati, jogador do Botafogo. Antes de chegar ao Rio, teve uma breve passagem pelo Serrano Foot Ball Club, time de Petrópolis, onde começou a receber seus primeiros trocados para jogar. No entanto, aquele menino pobre, do interior e de físico peculiar foi repetidamente rejeitado pelos grandes clubes no início dos anos 1950.
Até que, levado pelo olheiro Eurico Salgado para fazer um teste no Botafogo, Garrincha assombrou a todos ao aplicar sucessivos “nós” e entortadas no lendário lateral-esquerdo Nilton Santos. Driblando o preconceito, o jovem logo eternizou a estrela solitária na camisa alvinegra.
Massa muscular de cavalo
A estrutura do futebol brasileiro era frágil naquele período, e o principal sintoma dessa debilidade era a saúde dos atletas. Nem sempre as mazelas que traziam no organismo eram percebidas pelos departamentos médicos dos clubes. Segundo Ruy Castro, Garrincha chegou ao Botafogo no limite de seu desenvolvimento físico. Conseguiu encorpar com os exercícios, mas não passou dos seus 1,69 m de altura.
O Dr. Nova Monteiro chegou a afirmar que o atleta possuía uma massa muscular comparável à de um cavalo. Esse era um dos segredos do equilíbrio do craque: os “troncos” que tinha como pernas permitiam que ele resistisse aos piores trancos dos adversários sem cair. Para derrubá-lo, só com faltas duras e rasteiras. Mesmo assim, ele se levantava rapidamente e seguia com a bola dominada.
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Entre os colegas de equipe, Garrincha aproveitava para desfiar seu repertório de molecagens. Os companheiros não viam maldade nas brincadeiras, mesmo nas mais grosseiras. Mas ele não era tolo: sabia muito bem com quem podia brincar e demonstrava grande sagacidade para ler as pessoas.
Em 1954, muitos já clamavam por sua convocação para a Copa do Mundo da Suíça, mas o chamado só veio em 1958. O jogador, entretanto, parecia não se importar com a pressão. O biógrafo não encontrou nenhum registro de que Garrincha cogitasse ou sofresse pela convocação, mesmo quando o Mundial da Suécia já batia à porta.
1958: quando o futebol brasileiro cresceu e apareceu
Se Garrincha era a personificação do desapego, o mesmo não se pode dizer de Flávio Costa, técnico da Seleção em 1954. Sua certeza de que comandaria o time em 1958 era tamanha que ele chegou a convidar a imprensa para um coquetel em seu luxuoso apartamento, discursando antecipada e extraoficialmente como treinador do Brasil. Para sua surpresa, dias depois, a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) anunciou Vicente Feola, com seus 48 anos e 105 quilos, para o cargo.
Feola, campeão pelo São Paulo e pela seleção paulista, era respeitado, mas estava quase aposentado devido a problemas cardíacos. Como ele daria conta do recado?
Naquele novo contexto, isso foi possível porque Feola não trabalharia sozinho. A CBD, sob o comando do recém-eleito presidente João Havelange e de seu vice, Paulo Machado de Carvalho, traçou planos ambiciosos. Pela primeira vez, o Brasil ia para uma Copa com um planejamento milimétrico, cobrindo o período de 7 de abril (apresentação dos atletas) a 29 de junho de 1958 (a grande final). Pela primeira vez, a Seleção Brasileira adotava uma comissão técnica multidisciplinar. Junto a Feola, atuavam o supervisor Carlos Nascimento, o preparador físico Paulo Amaral, o médico Hilton Gosling, o administrador José de Almeida e o tesoureiro Adolpho Marques.
O “festival de vermes” e a revolução médica
Desde a escolha do hotel na Suécia até o mapeamento das passagens aéreas para qualquer cenário de eliminação ou avanço, tudo foi friamente calculado. Os 33 jogadores pré-convocados foram submetidos a um check-up inédito na história do esporte nacional.
Ruy Castro relata que, durante uma semana, os atletas foram virados do avesso por clínicos, traumatologistas, neurologistas, radiologistas, cardiologistas, oftalmologistas, otorrinolaringologistas e até calistas. Os resultados laboratoriais foram assustadores.
Mesmo tratando-se da elite do futebol do país — homens que recebiam os maiores salários da profissão —, o estado físico geral era alarmante. Pareciam recém-chegados do interior profundo, carregando uma trouxa nas costas e um talo de capim entre os dentes. Os exames diagnosticaram um verdadeiro festival de vermes, lombrigas, anemias, infecções, problemas digestivos e circulatórios.
O cenário mais grave, contudo, estava na boca dos jogadores. Entre os 33 atletas, foram encontrados 470 dentes com problemas — uma média de quase 15 por jogador. O total de extrações chegou a 32 dentes, o equivalente a uma dentadura completa.
Outra inovação ousada da CBD foi incluir na delegação uma figura inusitada para a época: um psicólogo. Até então, vigorava a tese de que o jogador brasileiro “tremia nas bases” em momentos decisivos de Copas do Mundo. Como prevenção, o profissional passou a acompanhar o grupo.
O rigor da preparação estendia-se à conduta. O regulamento disciplinar, rigidamente fiscalizado por Carlos Nascimento, continha 40 itens, incluindo proibições como descer para o café da manhã sem fazer a barba ou dar declarações à imprensa sobre assuntos internos. Apesar de um certo exagero folclórico, aquela rigidez era necessária para profissionalizar o ambiente. Todo esse aparato surtiu efeito, e o título mundial, antes um sonho distante, tornou-se real.
O fim do complexo e o grito de campeão
Com o excelente desempenho do Brasil na Suécia, a comissão técnica temia que o clima de “já ganhou” da imprensa e dos torcedores contagiasse o elenco. Mas o Brasil manteve o foco, superou a temida França e garantiu a vaga na final contra os donos da casa.
Em 29 de junho de 1958, o país vibrou. O biógrafo narra que os momentos finais pareceram durar segundos. O placar apontava Brasil 4 a 2 quando o jogo se encaminhava para o fim. O massagista Mário Américo já estava posicionado na linha de fundo, pronto para invadir o campo e garantir a bola do jogo assim que o árbitro Maurice Guigue apitasse. O estádio inteiro estava de pé. No último instante, Nilton Santos cruzou, Pelé subiu e cabeceou para o fundo das redes. Fez o quinto gol e desabou desmaiado na área. Eram 45 minutos cravados quando Guigue apitou o fim do jogo.
O Brasil era, finalmente, campeão do mundo. Aquela seleção entrou para a história projetando, além de Garrincha, mitos como Pelé, Djalma Santos e Zagallo.
“A Taça do Mundo é Nossa”
O Brasil vivia o auge do desenvolvimentismo sob o governo de Juscelino Kubitschek. O jingle “A Taça do Mundo é Nossa” (de Wagner Maugeri, Lauro Müller, Maugeri Sobrinho e Victor Dagô) embalou as comemorações da primeira estrela e o país passava a se reconhecer, de fato, como a “pátria de chuteiras”.
No Mundial seguinte, em 1962, no Chile, a consagração se repetiu. Com a contusão precoce de Pelé, Garrincha chamou a responsabilidade e brilhou com ainda mais intensidade na conquista do bicampeonato.
Ao longo de sua trajetória, o craque vestiu a camisa da Seleção Brasileira em 60 partidas, entre 1955 e 1966. Foram 52 vitórias, 7 empates e apenas uma única derrota (o 3 a 1 para a Hungria, na Copa de 1966, quando já jogava no sacrifício). O dado mais impressionante: atuando juntos, Pelé e Garrincha nunca perderam uma partida sequer pelo Brasil.

A estrela se apaga
A Copa de 1962 marcou o ápice de sua carreira. Depois dali o ponta-direita iniciou um doloroso processo de decadência física e profissional, severamente agravado pelo alcoolismo. Ele continuou jogando profissionalmente até 1972. Além do Botafogo, defendeu as cores do Corinthians, Flamengo e Olaria no Brasil, além de uma rápida passagem pelo Atlético Junior, da Colômbia.
Contudo, sua luz empalidecia a cada dia. A vida pessoal do ídolo desmoronou no mesmo ritmo em que suas arrancadas geniais ficavam presas no passado. Mané Garrincha faleceu no dia 20 de janeiro de 1983, aos 49 anos, vítima de cirrose hepática. Em seu epitáfio, no cemitério de Raiz da Serra, lê-se: “Aqui jaz em paz aquele que foi a Alegria do Povo – Mané Garrincha”.
Apesar do fim trágico, ele será para sempre lembrado pelas conquistas, pelo gingado desconcertante, pela inocência de suas tabelas com a bola e por sua alegria contagiante. Garrincha permanece como um símbolo eterno da alma e da resiliência do povo brasileiro.
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