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Gaza tem mais de 60 milhões de toneladas de escombros e milhares de corpos soterrados

A Faixa de Gaza acumula mais de 60 milhões de toneladas de escombros produzidos pelos bombardeios e demolições durante a ofensiva militar israelense iniciada em outubro de 2023. Entre os destroços de residências, hospitais e outros edifícios destruídos, milhares de palestinos continuam desaparecidos, e equipes de resgate ainda recuperam restos mortais de famílias soterradas durante os ataques.

Estimativas divulgadas pelas Nações Unidas indicam que a remoção dos escombros poderá levar aproximadamente sete anos. O trabalho é dificultado pela falta de máquinas pesadas, combustível e equipamentos especializados, além das restrições israelenses à entrada de materiais e ao acesso a áreas do enclave palestino.

Neste mês de setembro, a dimensão da destruição ganhou destaque nas preocupações internacionais após autoridades palestinas anunciarem a recuperação de dezenas de corpos em casas destruídas no início do genocídio perpetrado por Israel. A ONU também alertou para os riscos de que operações de remoção dos escombros destruam vestígios importantes para a identificação das vítimas e a investigação de possíveis crimes de guerra.

Em 6 de setembro, famílias palestinas realizaram o sepultamento dos restos mortais de aproximadamente 100 pessoas recuperadas de edifícios destruídos no bairro de Zeitoun, na Cidade de Gaza. Segundo a agência palestina WAFA e a emissora catari Al Jazeera, as vítimas pertenciam a diferentes famílias, entre elas Malka, Irheim, al-Balaawi e Salmi. A maioria era composta por mulheres e crianças.

A recuperação foi realizada por equipes locais, com apoio do Comitê Internacional da Cruz Vermelha e utilização de escavadeiras, caminhões e outros equipamentos pesados. Os restos mortais foram levados ao cemitério dos Mártires, na região de al-Zeitoun, e ao cemitério próximo ao Hospital Árabe al-Ahli, onde foram preparados sepultamentos coletivos.

No dia anterior, equipes de resgate haviam recuperado os restos mortais de 55 palestinos da residência da família Malka, destruída em 19 de novembro de 2023. Mais de 60 pessoas estavam abrigadas no imóvel quando ele foi atingido, segundo a WAFA.

Os trabalhos de busca também são limitados pela dificuldade de movimentar grandes blocos de concreto e pela falta de equipamentos para localizar, retirar e identificar os restos mortais. Em muitos locais, familiares continuam sem saber se seus parentes estão vivos ou onde foram enterrados.

O Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) publicou na segunda-feira (21/09) que, segundo a Defesa Civil palestina, mais de 630 corpos e outros restos humanos foram recuperados de edifícios destruídos entre novembro de 2025 e setembro de 2026. O número de desaparecidos que ainda estariam sob os escombros é estimado em mais de 8 mil.

Os dados foram mencionados pelo alto-comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, em declaração de 15 de setembro. Ele afirmou que os restos encontrados incluem famílias inteiras, em sua maioria mulheres e crianças, e manifestou preocupação com a possibilidade de que novas operações de demolição destruam restos humanos e vestígios relevantes para investigações.

Destruição em Gaza com ataques de Israel
Área da Faixa de Gaza destruída após ataques israelenses
Palestinian News & Information Agency (Wafa) in contract with APAimages

Mais de 64% do território sob controle militar israelense

Apesar do acordo de cessar-fogo anunciado em outubro de 2025, Israel mantém tropas em áreas da Faixa de Gaza e continua realizando ataques. As restrições de acesso limitam a circulação dos palestinos, a atuação de equipes humanitárias e a entrada de materiais necessários à recuperação do território.

Segundo o OCHA, em relatório de junho de 2026, a chamada Linha Laranja colocava 64,9% da Faixa de Gaza sob controle israelense mais direto e restrições mais rigorosas. A Linha Amarela, estabelecida após o cessar-fogo, delimitava áreas nas quais as forças israelenses permaneceriam posicionadas.

O órgão informou que as restrições também atingem instalações humanitárias, escolas, unidades de saúde e estruturas de abastecimento de água e saneamento. Dezenas de milhares de palestinos vivem em áreas situadas entre as duas linhas, submetidos a pressões para deixar esses locais.

Em 1º de julho, a equipe humanitária da ONU e organizações não governamentais alertaram que a ampliação das áreas sob controle israelense estava aumentando os riscos para a população civil e dificultando as operações de assistência. Entre 10 de outubro de 2025 e o início de abril de 2026, o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos verificou 196 mortes de palestinos em ataques israelenses registrados nas proximidades da Linha Amarela, incluindo 43 crianças e 18 mulheres.

A situação é agravada pelas restrições à entrada de equipamentos para remoção de escombros e reconstrução. No relatório de 18 de setembro, o OCHA afirmou que a falta de máquinas, combustível, peças de reposição e outros materiais limita as operações de resgate e a recuperação de edifícios danificados.

ONU alerta para risco de destruição de provas

No começo de setembro, Francesca Albanese, relatora especial das Nações Unidas para a situação dos direitos humanos no território palestino ocupado, afirmou que a retirada e o transporte de escombros em áreas sob controle militar israelense não podem impedir a recuperação e a identificação de restos mortais nem destruir provas de possíveis crimes internacionais.

Albanese afirmou que os destroços contêm vestígios materiais que podem ser relevantes para investigações e que os trabalhos de remoção precisam preservar essas evidências. A relatora também defendeu que os palestinos tenham participação central nas decisões sobre a retirada dos resíduos e a reconstrução.

Segundo a declaração da especialista, autoridades palestinas estimam que mais de 10 mil pessoas permanecem soterradas. O número é superior à estimativa de mais de 8 mil desaparecidos citada pelo alto-comissário Volker Türk, com base em informações da Defesa Civil palestina. As estimativas têm origens e metodologias distintas e não devem ser tratadas como uma contagem confirmada de corpos.

A preocupação com a preservação de provas ocorre em meio a acusações de violações do direito internacional humanitário. A Corte Internacional de Justiça determinou, em decisões relacionadas ao caso apresentado pela África do Sul, medidas provisórias para prevenir atos abrangidos pela Convenção do Genocídio e preservar provas. A existência de acusações e medidas provisórias não equivale, por si só, a uma decisão final de que o crime de genocídio foi cometido.

De acordo com dados divulgados na terça-feira (22/09) pela agência palestina WAFA, com base em informações de fontes médicas de Gaza, o número de palestinos mortos desde 7 de outubro de 2023 chegou a 73.919. O total de feridos alcançou 174.977.

Segundo as mesmas fontes, desde a entrada em vigor do cessar-fogo, em 11 de outubro de 2025, foram registradas 1.399 mortes e 4.863 pessoas feridas. O balanço também contabilizou 834 corpos recuperados dos escombros nesse período. As autoridades palestinas ressaltam que há vítimas que continuam inacessíveis às equipes de resgate, tanto sob edifícios destruídos quanto em áreas onde ambulâncias e socorristas não conseguem entrar.

Os números são divulgados pelas autoridades de saúde de Gaza e reproduzidos pela agência oficial palestina. A dimensão da destruição, a dificuldade de acesso a determinadas áreas e a recuperação tardia de restos mortais tornam os registros sujeitos a atualizações.

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