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General Motors e ditadura perseguiram e assassinaram operários

GM financiou e reprimiu trabalhadores na ditadura militar fascista no Brasil (Foto: Reprodução)

Durante  21 anos de ditadura os militares fascistas usaram a vigilância e o medo para perseguir, torturar e assassinar aqueles que lutavam. As grandes empresas nacionais e multinacionais cumpriram um papel fundamental na contribuição com a ditadura militar, é o caso da General Motors, localizada em São Caetano do Sul

Isabella Leal | São Paulo


História – Mais de 80 empresas foram identificadas em investigações por colaborarem com o regime, fornecendo inclusive informações para o DOPS (Departamento de Ordem Policial e Social) e o financiamento de órgãos de repressão.  

A multinacional estadunidense General Motors (GM) também esteve envolvida em práticas de colaboração com o regime ditatorial brasileiro. A empresa teria estruturado um aparato interno de vigilância, uma espécie de “polícia política” com o objetivo de monitorar, intimidar e perseguir trabalhadores com atuação sindical e posicionamentos críticos ao regime.

Segundo denúncias e investigações, esse sistema incluía a espionagem de funcionários, a apreensão de materiais considerados “revolucionários” e o repasse de dados pessoais, como endereços residenciais, aos órgãos de repressão. 

Em diversos casos, agentes do Estado teriam se dirigido às casas dos trabalhadores para pressionar suas famílias, ameaçando-os com demissões caso não abandonassem greves e mobilizações.

Os trabalhadores que eram espionados passavam a ser demitidos e colocado seus nomes no chamado “lista suja” uma lista de pessoas consideradas inimigas do regime, lista essa compartilhada com inúmeras empresas de São Paulo que reuniam setores de “segurança” e trocavam informações sobre operários e ativistas sindicais, impossibilitando a recolocação profissional. 

Perseguição a operários 

A empresa também atuou como colaboradora direta na repressão a movimentos grevistas, nas demissões em massa e em prisões realizadas dentro das dependências da fábrica, como foi o caso do operário Martinho Leal Campos. 

Martinho Leal Campos, paraibano, esteve ligado à luta por melhores condições de trabalho e ao enfrentamento do regime. Atuante no movimento operário, redigia e distribuía boletins, jornais e manifestos, organizava comitês dentro das fábricas e participava da articulação de greves nas empresas em que trabalhou.

No dia 14 de abril de 1972, foi preso dentro da fábrica da General Motors, em São Caetano do Sul, por policiais à paisana que circulavam pelo setor à sua procura. Ao encontrá-lo, agrediram-no violentamente, acusando-o de “terrorista”, e o conduziram ao DOI-CODI. 

Lá foi submetido a espancamentos e choques na orelha pelo criminoso Facista major Carlos Alberto Brilhante Ustra, comandante do DOI-CODI SP. Permanecendo preso por cerca de 30 dias onde sofreu as mais bárbaras torturas, sendo em Agosto de 1973 condenado a dois anos e meio de prisão pela Auditoria Militar de São Paulo.

“A memória do país precisa ser preservada e colocar todas as organizações dentro da estrutura civil militar que deu golpe no estado, aquelas empresas que contribuíram e colaboraram com a ditadura, acredito que esse é um dever da nossa parte, de quem passou por isso, eu quero inclusive saudar os companheiros que estão desenvolvendo esse trabalho de resgate da memória e da verdade com relação a participação dessas empresas, saudação forte da minha parte á todos os camaradas.” Diz Martinho em uma entrevista ao IIEP – Memória Operária.

A prisão deste e de outros operários revela a colaboração clandestina da General Motors com os órgãos de repressão para reprimir trabalhadores e movimentos de oposição ao regime militar, protegendo principalmente os interesses lucrativos da empresa.

GM financiou a ditadura no Brasil

Há ainda evidências de que a GM contribuiu materialmente com os órgãos de repressão, fornecendo por exemplo equipamento de proteção auricular ao estande de tiro existente dentro do DOPS em São Paulo, conforme atestou o relatório da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo

Apesar das diversas evidências documentais e dos relatos de vítimas, como o de Martinho Leal Campos, a General Motors limitou-se a divulgar uma nota oficial negando qualquer participação em práticas repressivas ou colaboração com a ditadura militar durante a ditadura no Brasil. 

A repressão às greves, a perseguição a lideranças operárias e das organizações sindicais criaram condições favoráveis à intensificação do trabalho. Assim, o “desempenho produtivo” celebrado pela direção da empresa na verdade demonstra o lucro colocado acima da vida dos trabalhadores. 

A classe operária não se curva

Mesmo em um período de intensa repressão à classe trabalhadora, os operários brasileiros não recuaram. Pelo contrário, protagonizaram centenas de greves em defesa de melhores condições de trabalho e contra o regime autoritário da ditadura militar. Um exemplo marcante foi a greve de 1985 na General Motors, em São José dos Campos e São Caetano do Sul, que durou 28 dias.

Naquele momento, a principal reivindicação parecia distante: a redução da jornada semanal de 48 para 40 horas. Ainda assim, os trabalhadores se mantiveram firmes. Diante das arbitrariedades da empresa, que chegou a demitir diversos operários por justa causa, os operários responderam com organização e coragem, ocupando as fábricas e resistindo mesmo sob ameaça de repressão das forças armadas.

A greve resultou em grandes conquistas, como a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais, além de representar um importante enfrentamento facista regime vigente. Mais do que ganhos imediatos, essa mobilização evidenciou a força da organização operária. 

Essa greve não apenas garantiu direitos, mas também mostrou que conquistas concretas são fruto de luta coletiva, organização e resistência. Que a experiência dos trabalhadores da GM sirva como referência e inspiração para as lutas atuais e futuras da classe trabalhadora.