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Gernika e Gaza: o terror de guerra e o avanço da extrema direita

À medida que se aproxima o 26 de abril, data do bombardeio de Gernika, no País Basco, em 1937, a cidade reafirma seu triste lugar como um dos maiores símbolos da violência política do século 20. Em 2026, o ataque completa 89 anos e, em 2027, marcará nove décadas de um episódio que não pertence apenas ao passado. Sua memória permanece atual como advertência diante do avanço de projetos da extrema direita no mundo contemporâneo.

Antes da guerra civil espanhola, Gernika era uma cidade viva, com forte atividade econômica, mercado semanal ativo e intensa vida comunitária. Inserida nas tensões políticas da Espanha dos anos 1930, ainda mantinha uma rotina organizada em torno do trabalho, da convivência social e de uma identidade basca profundamente enraizada. Essa normalidade foi brutalmente interrompida na tarde de segunda-feira, 26 de abril de 1937, quando a cidade foi alvo de um ataque aéreo sistemático conduzido pela Legião Condor alemã e pela aviação italiana, sob comando das forças franquistas.

Não por acaso, tratava-se de um dia de feira. Gernika recebia moradores de toda a região, que se deslocavam até a cidade para realizar suas compras e atividades comerciais. As ruas estavam mais cheias do que o habitual, com presença ampliada de civis vindos de localidades vizinhas. A escolha da data revela o grau de cálculo envolvido na operação e reforça o caráter deliberado do ataque contra a população.

O bombardeio durou mais de três horas e seguiu uma lógica que marcaria a história contemporânea. Não se tratava apenas de destruir estruturas físicas, mas de atingir deliberadamente a população civil. Foram lançadas mais de 31 toneladas de bombas explosivas e incendiárias em uma operação planejada em etapas. Primeiro vieram as bombas explosivas, responsáveis por romper edifícios e abrir caminho para a destruição. Em seguida, bombas incendiárias ampliaram o alcance do fogo, criando um cenário de devastação contínua. Por fim, aviões voaram baixo sobre a cidade, metralhando civis que tentavam fugir, o que evidencia a intenção direta de transformar a população em alvo.

A dimensão do ataque se revela também naquilo que foi preservado. Estruturas estratégicas, como a fábrica de armas Astra, a Casa de Juntas e a ferrovia, não foram atingidas. Essa seletividade demonstra que não se tratava de uma operação militar convencional, mas de uma ação voltada à destruição do tecido urbano e ao terror psicológico da população. Cerca de 85 por cento da cidade foi destruída e o centro urbano foi praticamente arrasado em uma escala que chocou o mundo à época.

A violência não terminou com as explosões. Ela foi acompanhada por uma estratégia de desinformação. No dia seguinte ao ataque, o regime de Franco negou o bombardeio e atribuiu a destruição aos próprios republicanos. A mentira não foi um elemento secundário, mas parte estruturante da operação. Destruir fisicamente a cidade e, ao mesmo tempo, tentar apagar a verdade sobre o ocorrido fazia parte de uma mesma lógica de poder.

O que ocorreu em Gernika representou um marco na transformação da guerra moderna, consolidando o uso do terror como instrumento deliberado contra populações civis. Aquilo que se configurou como experimento ao longo da guerra civil espanhola se transformaria, nas décadas seguintes, em método recorrente em diferentes conflitos ao redor do mundo.

Essa continuidade histórica se manifesta de forma evidente no presente. A devastação observada em Gaza, marcada por bombardeios sobre áreas densamente povoadas, destruição de infraestrutura e morte massiva de civis, revela a permanência dessa lógica. Assim como em Gernika, a violência não se limita ao campo militar, mas se dirige diretamente à população, produzindo medo, deslocamento forçado e colapso das condições de vida.

Entre os elementos mais dramáticos dessa repetição histórica está a condição das crianças. Em Gernika, muitas morreram durante os bombardeios, outras ficaram soterradas, feridas ou separadas de suas famílias. Eram crianças que estavam nas ruas, no mercado, jogando bola, em casas ou abrigos improvisados quando a cidade foi atacada. Em Gaza, décadas depois, a imagem se repete de forma brutal. Crianças atingidas por bombardeios, soterradas sob escombros, privadas de acesso à água, alimento, saúde e segurança básica. A comparação revela de forma concreta o que significa transformar o terror em método de guerra.

Essa lógica também se amplia no cenário regional, atingindo outros territórios e escalando conflitos. No Líbano, bombardeios sobre bairros densamente povoados e áreas civis evidenciam a mesma dinâmica de uso da força contra populações, ampliando o impacto humanitário e aprofundando a instabilidade regional. A guerra envolvendo o Irã, com ataques a infraestruturas estratégicas e ações militares de grande escala, demonstra como o conflito se expande e se intensifica. Ao mesmo tempo, políticas de cerco econômico e pressão internacional contra países como Cuba revelam outras formas de agressão, baseadas na asfixia econômica e na tentativa de desestabilização política.

A semelhança não se restringe às práticas de guerra. Ela também se expressa na forma como esses episódios são narrados e negados. Se o regime franquista tentou apagar o bombardeio de Gernika, o governo de Benjamin Netanyahu tem buscado relativizar ou justificar a dimensão da destruição em Gaza, enquanto ações militares e sanções são apresentadas como inevitáveis ou necessárias, mesmo diante de seus impactos humanitários.

No cenário internacional, essa lógica ganha força política com a reorganização de projetos da extrema direita em escala global. A figura de Donald Trump sintetiza esse movimento em sua forma mais agressiva, estruturando sua ação na desinformação, no ataque às instituições democráticas e na construção de inimigos permanentes. Trata-se de um projeto que naturaliza o autoritarismo, legitima a violência e contribui para um ambiente internacional de instabilidade e regressão democrática.

A Gernika de hoje não guarda fisicamente a cidade de 1937. Foi quase totalmente destruída e posteriormente reconstruída, restando poucos edifícios originais. Ainda assim, a memória foi preservada com rigor. O percurso pelos pontos do bombardeio e o Museu da Paz organizam não apenas os fatos, mas o significado político daquele episódio. A cidade se reconstruiu sem apagar sua história, transformando a memória em instrumento de reflexão e advertência.

Na própria cidade, uma reprodução do painel Guernica, de Pablo Picasso, ocupa lugar central nessa construção da memória. Mais do que uma obra de arte, trata-se de um ato político. Ali, a representação da dor, da destruição e do sofrimento civil se afirma como denúncia permanente da barbárie e como recusa ao esquecimento.

Essa dimensão torna Gernika um espelho do presente. Ela evidencia que o fascismo não deve ser entendido apenas como fenômeno histórico, mas como uma lógica política que pode reaparecer sob novas formas, mantendo elementos centrais como a violência contra civis, a manipulação da verdade e o uso do medo como instrumento de poder.

Essa lógica está presente no cenário internacional contemporâneo e também no Brasil. O bolsonarismo expressa uma forma atualizada dessa matriz autoritária, combinando desinformação, ataque às instituições democráticas e naturalização da violência política. A derrota eleitoral de Jair Bolsonaro não encerrou esse processo. Ao contrário, o movimento segue ativo, organizado e com capacidade de mobilização.

A história de Gernika demonstra que esse tipo de força não pode ser subestimado. Processos autoritários se consolidam gradualmente, avançando quando encontram espaço e se fortalecendo na ausência de enfrentamento. A banalização da violência e a normalização da mentira são etapas desse processo.

Diante disso, a defesa da democracia exige mais do que vigilância. Exige ação concreta. O enfrentamento à extrema direita precisa ocorrer em múltiplas dimensões, articulando disputa política institucional, mobilização social, produção cultural e afirmação de valores democráticos.

Às vésperas de mais um 26 de abril, a memória de Gernika se impõe não apenas como lembrança, mas como advertência histórica. O que ocorreu em 1937 demonstra até onde podem chegar projetos políticos quando o terror se transforma em instrumento de poder.

No Brasil, essa advertência ganha contornos imediatos. Em outubro próximo, o país passará por um novo processo eleitoral que será decisivo para o futuro da democracia. Será fundamental derrotar o bolsonarismo nas urnas, garantindo a reeleição do governo Lula e a formação de uma ampla bancada de deputados federais comprometida com a defesa das instituições democráticas e garantindo a governabilidade.

Derrotar a extrema direita no Brasil e no mundo não é apenas uma posição política. É uma necessidade histórica que se impõe para que não sejamos condenados a viver novas Gernikas.

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