O governo brasileiro reagiu à decisão unilateral dos Estados Unidos de impor tarifas de 25% sobre produtos exportados pelo Brasil, resultado de uma investigação da Seção 301 conduzida pelo Escritório de Representação Comercial americano (USTR) em um processo iniciado em julho de 2025. Em pronunciamento, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, classificou o procedimento como unilateral e sem qualquer justificativa, lembrando que a decisão vem após uma longa negociação: “desde março de 2025, o Itamaraty manteve diálogo com Washington em mais de 30 reuniões”, ressaltou o chanceler, incluindo contatos entre os presidentes Lula e Donald Trump e autoridades como Jamieson Greer e Marco Rubio. Segundo Vieira, os Estados Unidos buscavam uma “capitulação” brasileira, exigindo a abertura irrestrita de setores da economia nacional sem qualquer contrapartida.
O ministro apontou que as medidas têm motivação política, com o objetivo de interferir no Poder Judiciário brasileiro — citando carta do presidente Donald Trump, de julho de 2025, que ameaçava o país com tarifas de 50% caso um processo judicial contra Jair Bolsonaro, ex-presidente e admirador confesso de Trump, não fosse interrompido. Ele também refutou as alegações econômicas estadunidenses, destacando que os EUA acumularam superávit de US$ 424 bilhões com o Brasil nos últimos 15 anos e que, em 2025, 76% das importações americanas entraram no país sem impostos. Rechaçou ainda as críticas ao Pix — infraestrutura pública acessível a todas as instituições financeiras — e as acusações sobre desmatamento, apontando a queda significativa na Amazônia e no Cerrado desde 2022. Vieira classificou como “ofensivas”, “inaceitáveis” e “arrogantes” as declarações do secretário de Estado Marco Rubio contra o chefe de Estado brasileiro, Luis Inácio Lula da Silva.
Ele afirmou ainda que “o que incomoda o governo dos Estados Unidos é o fato de o Brasil não ter se curvado às pretensões desmedidas e às demandas irrazoáveis apresentadas durante o curso das negociações”. E conclui dizendo que “todas as alegações dos norte-americanos para justificar a aplicação de tarifas não têm lastro na realidade”.
‘Recomendação totalmente descabida’
Em coletiva de imprensa, o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Geraldo Alckmin, detalhou por que o governo considera a recomendação do USTR injusta, ponto a ponto. Sobre o Pix, ele afirmou tratar-se de um “patrimônio nacional”, tecnologia oferecida sem custo à população e às empresas, e garantiu que empresas nacionais e estrangeiras recebem tratamento equitativo no país. Alckmin destacou que os acordos do Mercosul com a Índia e México, não impõem qualquer restrição a produtos ou empresas estadunidenses e lembrou que o Brasil aprovou 30 dispositivos de combate à corrupção nos últimos 20 anos sendo que os maiores beneficiários do trabalho do INPI são os próprios Estados Unidos, com 30% das patentes reconhecidas.
O vice-presidente enfatizou o desequilíbrio tarifário em setores como etanol e açúcar, além de sublinhar que a balança comercial é amplamente favorável aos EUA — com superávit de US$ 40 bilhões em produtos e serviços no ano passado. Segundo ele, dos dez produtos que os Estados Unidos mais exportam ao Brasil, oito entram com tarifa zero, e a tarifa média é de apenas 3,1%. “Por tudo isso é que entendemos que é totalmente descabida a recomendação, e o governo do presidente Lula vai trabalhar para que ela não se converta”, afirmou, defendendo o caminho do diálogo.
Alckmin criticou ainda os “falsos patriotas sabotadores” que, segundo ele, colocam interesses pessoais e eleitorais acima do interesse do país sempre que a negociação avança, e reforçou que o governo pretende unir o setor privado — incluindo as quase 4 mil empresas estadunidenses que operam no Brasil — em defesa da soberania nacional.