
A Grécia viveu nesta quarta-feira (1º) uma greve geral de 24 horas que paralisou transportes, serviços públicos e escolas em protesto contra a reforma trabalhista apresentada pelo governo conservador de Kyriakos Mitsotakis.
O projeto, que deve ser votado ainda em outubro, autoriza jornadas de até 13 horas diárias em um país que já figura entre os que mais trabalham na Europa.
Em Atenas e em Thessaloniki, a segunda maior cidade, trens e táxis ficaram suspensos, enquanto ônibus, metrô, bonde e trólebus funcionaram de forma reduzida. Os ferries permaneceram atracados nos portos, deixando o mar em torno da capital sem embarcações.
Hospitais, escolas, tribunais e repartições públicas também interromperam as atividades, em uma mobilização que reuniu milhares de trabalhadores do setor público e privado nas ruas.
Muitos manifestantes levaram bandeiras palestinas e entoaram gritos em solidariedade a Gaza, em uma demonstração de internacionalismo da luta operária.
A proposta defendida por Mitsotakis prevê que, em determinados dias, os trabalhadores possam estender o expediente em até cinco horas, alcançando 13 horas diárias. A carga horária semanal, incluindo horas extras, seria limitada a 48 horas, com um teto de 150 horas extras anuais.
O governo justifica a medida como forma de “flexibilizar” o mercado de trabalho e permitir que jovens concentrem horas em um único emprego, prometendo adicional de 40% para quem exceder a jornada.
A ministra do Trabalho, Niki Kerameus, afirmou que a regra só seria aplicada em “circunstâncias excepcionais”.
Para os sindicatos, a reforma representa um retrocesso histórico. “Dizemos não ao turno de 13 horas. Exaustão não é desenvolvimento, a tolerância humana tem limites”, declarou a Confederação Geral dos Trabalhadores da Grécia (GSEE).
A entidade acrescentou que a mudança “coloca em risco a saúde e a segurança dos trabalhadores e destrói o equilíbrio entre vida profissional e pessoal”. O Pame, central ligada ao Partido Comunista, comparou a medida a uma forma de “escravidão moderna”.
Trabalhadores reforçaram nas ruas as críticas ao projeto. “Os gregos já são obrigados a sobreviver com alguns dos salários mais baixos da Europa e agora estão nos pedindo para, na prática, trabalhar a maior parte do dia. As pessoas não podem ser empurradas assim; em algum momento haverá uma explosão”, disse Makis Kontogiorgos, sindicalista de uma empresa de tecnologia.
Para Katerina Andritsopoulou, funcionária de 55 anos de uma fábrica privada, a mudança agrava a desigualdade. “Enquanto o resto da Europa fala sobre uma semana de trabalho mais curta, na Grécia, no século 21, tudo gira em torno de jornadas mais longas e salários que não refletem o custo de vida”, disse a trabalhadora.
Embora a economia grega tenha registrado crescimento de 2,3% em 2024 e o desemprego esteja em queda, os salários permanecem entre os mais baixos da União Europeia.
O mínimo, atualmente em €880 (R$ 5.100), não cobre o aumento do custo de vida. O país, que perdeu mais de 25% do PIB durante a crise da dívida, segue marcado por políticas de austeridade impostas em troca de resgates internacionais.
Desde que assumiu o cargo em 2019, Mitsotakis tem reduzido o poder sindical e atacado acordos coletivos em nome da “modernização” da economia.
No ano passado, seu governo já havia introduzido a semana de seis dias de trabalho, medida qualificada como “bárbara” pelas centrais. A greve geral desta quarta reafirma, contudo, a disposição de resistência dos trabalhadores gregos, que enfrentam nas ruas uma ofensiva que ameaça direitos conquistados há décadas.
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