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Greves crescem 16% no Brasil no primeiro semestre de 2025

Pela primeira vez em dois anos, as greves na esfera privada ultrapassaram as do funcionalismo público no Brasil. Segundo o Balanço das Greves do primeiro semestre de 2025, elaborado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), foram registradas 282 paralisações no setor privado, ante 219 no serviço público — uma inversão em relação ao mesmo período de 2024, quando predominavam as mobilizações estatais.

O número de greves realizadas no Brasil no primeiro semestre de 2025 aumentou 16% em relação ao mesmo período do ano anterior, passando de 462 para 536 mobilizações. Apesar disso, o Dieese observa que os conflitos só chegam à paralisação em casos de condições extremas de precarização, ao contrário das ofensivas maiores e mais estruturais ocorridas em períodos anteriores. O Sistema de Acompanhamento de Greves (SAG) do Dieese monitora conflitos trabalhistas desde 1978.

Nas considerações finais, o Dieese destaca que o padrão observado em 2025 mantém uma tendência presente desde 2016: a greve tornou-se o recurso extremo de trabalhadores submetidos a condições mais precárias. A predominância de pautas defensivas — como pagamento de salários, manutenção de condições de trabalho e cumprimento de direitos — indica que as mobilizações seguem menos associadas à conquista de novos direitos e mais à resistência diante da deterioração das relações de trabalho no país.

Predomínio da esfera privada

Diferentemente de 2024, quando o funcionalismo público liderava as paralisações, em 2025 as greves na esfera privada passaram a predominar. Foram 282 greves em empresas privadas, o equivalente a 53% do total, enquanto o funcionalismo público respondeu por 219 paralisações (41%). Nas empresas estatais, o crescimento foi o mais acentuado: de 19 para 34 greves, alta de 79%.

Na iniciativa privada, as reivindicações mais frequentes refletem a precarização do trabalho. 41% das greves exigiram o pagamento de salários em atraso, seguidas de perto por demandas por melhorias na alimentação (39%). O reajuste salarial apareceu em terceiro lugar, com 26% das mobilizações.

Transportes urbanos e serviços de hospitalidade (como limpeza, portaria e refeições coletivas) concentraram quase metade das paralisações do setor privado. A maioria das greves (89,7%) ocorreu em nível de empresa ou unidade, e 71% foram por tempo indeterminado, sinalizando alto grau de tensão nas relações trabalhistas.

As 536 greves registradas no semestre resultaram em 17.877 horas paradas. Embora o setor privado tenha concentrado a maioria das paralisações, o funcionalismo público respondeu pela maior parte do tempo de trabalho interrompido, com 56% das horas paradas, reflexo de mobilizações mais prolongadas em serviços essenciais, como educação e saúde.

Educação e municípios no centro das mobilizações

No setor público, mais de dois terços das greves ocorreram no âmbito municipal, e quase metade foi protagonizada por profissionais da educação. As principais reivindicações envolveram reajuste salarial, melhores condições de trabalho, maior investimento nos serviços públicos e protestos contra governos. Segundo o Dieese, esse perfil reflete a pressão acumulada pela perda do poder de compra dos salários e pela precarização das condições de trabalho.

Os profissionais da educação foram responsáveis por 49% das greves (108 mobilizações). A demanda por reajuste salarial esteve presente em 63% das pautas. Além disso, 49% das paralisações exigiram mais investimento e melhor gestão dos serviços públicos, e 42% incluíram protestos diretos contra governantes.

A maior parte das greves (70%) ocorreu especialmente em cidades menores, onde a crise fiscal se aprofunda. Diferentemente do setor privado, 62% das mobilizações públicas foram de advertência — com duração previamente definida — e 90% tiveram abrangência por categoria, como professores estaduais ou servidores municipais.

Caráter defensivo domina o cenário grevista nacional

O levantamento revela que 82% das greves em todo o país tiveram caráter defensivo, ou seja, visavam proteger direitos já existentes ou denunciar seu descumprimento. Dessas, 48% tratavam de violações legais ou contratuais, enquanto 50% buscavam manter condições de trabalho vigentes.

Apesar do tom majoritariamente defensivo, quase metade das mobilizações (49%) também incluiu reivindicações propositivas — como novos benefícios ou ampliação de direitos — indicando que os trabalhadores seguem buscando avanços, mesmo em contexto de restrição orçamentária e inflação persistente.

O Dieese destaca que a natureza das greves reflete um cenário de crescente precarização do trabalho. No setor privado, destacam-se irregularidades em empresas terceirizadas, especialmente em serviços essenciais como saúde e transporte. Já nas estatais, sindicatos denunciam deterioração das condições laborais associada a projetos de privatização e cortes de pessoal.

“Estamos longe do ciclo de greves de 2012–2013, marcado por ofensivas coletivas”, observa o relatório. “Hoje, a greve é o último recurso de quem enfrenta salários atrasados, jornadas extenuantes e falta de insumos básicos.”

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