
O que começou como uma disputa entre generais transformou-se em uma guerra civil que já dura mais de 900 dias. De um lado está o Exército do Sudão, comandado por Abdel Fattah al-Burhan. Do outro, as Forças de Apoio Rápido (RSF), milícia liderada por Mohamed Hamdan Dagalo, conhecido como Hemetti.
Antigos aliados na derrubada do ditador Omar al-Bashir, em 2019, os dois romperam em meio à tentativa de integrar as RSF ao Exército regular. O resultado é um conflito desde abril de 2023 que já matou mais de 150 mil pessoas e provocou 12,6 milhões de deslocamentos forçados, segundo agências humanitárias. O conflito destruiu cidades inteiras, sobretudo na região de Darfur, e gerou uma crise humanitária sem precedentes na África.
O país, que há cinco anos sonhava com a democracia, tornou-se palco do maior desastre humanitário do mundo, segundo a ONU.
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Ouro: o metal que sustenta a guerra
No centro da disputa está o controle das minas de ouro de Darfur, região oeste do país.
Desde a separação do Sudão do Sul, em 2011, e a perda das reservas de petróleo, o ouro tornou-se o principal recurso econômico do país — e também a base financeira da guerra. Desde então, redes de corrupção e contrabando se consolidaram, envolvendo elites militares, empresários e até mercenários estrangeiros.
Hemetti e sua família controlam parte das jazidas e mantêm negócios ilegais de exportação para os Emirados Árabes Unidos, que, apesar de oficialmente integrarem as negociações de paz, são acusados pela ONU de fornecer armas e mercenários às milícias paramilitares.
Esses recursos alimentam as Forças de Apoio Rápido e consolidam o poder de Hemetti, que age como chefe de um império militar e econômico paralelo ao Estado.
Darfur, o epicentro da tragédia humanitária
O conflito assumiu contornos de limpeza étnica. Em Al-Fasher, capital de Darfur do Norte, ocorreu um massacre no fim de outubro, após mais de um ano de cerco das RSF.
Milhares de civis foram assassinados, muitos deles mulheres e crianças. Relatos de violência sexual sistemática e recrutamento de meninos-soldados se multiplicam.
A ONU estima que 30 milhões de pessoas necessitam de ajuda urgente, mas a resposta humanitária está gravemente subfinanciada: apenas um quarto dos recursos necessários foi liberado. “É uma crise de violência e também de indiferença”, alerta um relatório das Nações Unidas.
Com hospitais destruídos, escolas fechadas e 13 milhões de crianças fora das salas de aula, o país enfrenta uma combinação de fome, cólera e deslocamento forçado em massa.
O novo tabuleiro geopolítico africano
A guerra sudanesa também é uma disputa por influência internacional.
A Rússia busca consolidar uma base naval no Mar Vermelho e, por meio do Grupo Wagner, mantém laços com as minas de ouro e com as milícias de Hemetti.
Os Emirados Árabes e o Egito apoiam lados opostos do conflito, enquanto Estados Unidos e Arábia Saudita tentam costurar um cessar-fogo no âmbito do grupo diplomático conhecido como Quad.
Nas últimas semanas, as RSF sinalizaram disposição para uma trégua de três meses, mas o Exército impôs como condição a retirada total das milícias das áreas civis e a entrega das armas.
Mesmo com as negociações em curso, bombardeios continuam em Cartum, Omdurman e na região petrolífera de Kordofan.
Mulheres na linha de frente da resistência
Enquanto o país colapsa, organizações de mulheres sudanesas têm se tornado o pilar da sobrevivência civil.
Elas criam escolas improvisadas, abrigos para vítimas de violência sexual e redes de distribuição de alimentos e água em áreas sitiadas.
“O silêncio do mundo é mortal”, afirmam ativistas locais. Elas pedem que a comunidade internacional financie a resposta humanitária e apoie investigações sobre crimes de guerra.
A ONU reforça: o Sudão é hoje o exemplo extremo de como a indiferença global pode alimentar a barbárie.
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