
Durante anos, Andrew Tate construiu uma audiência global vendendo uma promessa de sucesso baseada na riqueza, na hipermasculinidade e na submissão das mulheres. Neste fim de semana, o influenciador britânico-americano e seu irmão, Tristan Tate, foram presos em Miami, nos Estados Unidos, após autoridades britânicas apresentarem um novo pedido de extradição acompanhado de 38 novas acusações, entre elas estupro, lesão corporal, tráfico de pessoas para exploração sexual e crimes relacionados à posse de imagens indecentes envolvendo uma criança. Ambos negam todas as acusações.
As novas denúncias ampliam uma investigação que acompanha os irmãos há anos. Segundo o Ministério Público britânico, os supostos crimes teriam ocorrido entre 2010 e 2017 e envolvem novas vítimas identificadas ao longo da apuração. Antes da prisão nos Estados Unidos, Andrew e Tristan já haviam sido detidos na Romênia, em 2022, sob suspeita de integrar uma organização criminosa voltada ao tráfico de pessoas e à exploração sexual de mulheres. Após passarem pela prisão preventiva e pela prisão domiciliar, responderam ao processo em liberdade.
A nova prisão representa mais do que um desdobramento judicial. Ela atinge justamente os maiores expoentes do chamado movimento red pill, um universo digital que transformou discursos misóginos em produto, audiência e influência política, alcançando milhões de jovens em diferentes países.
Muito além de influenciadores
Andrew Tate não se tornou conhecido apenas pelas investigações criminais. Ex-campeão de kickboxing, ele ganhou projeção internacional ao participar da versão britânica do Big Brother em 2016, da qual foi expulso após a divulgação de um vídeo em que aparecia agredindo uma mulher com um cinto (episódio que ele e a mulher afirmaram, posteriormente, ter sido consensual). A partir dali, passou a construir uma carreira como influenciador digital baseada em ataques ao feminismo, defesa de papéis tradicionais de gênero e ostentação de riqueza.
Por meio de cursos, podcasts e redes sociais, Andrew vendia a ideia de que homens deveriam recuperar uma suposta posição de domínio sobre mulheres e sociedade. A fortuna, os carros de luxo, os jatos particulares e o estilo de vida exibido nas redes funcionavam como prova de que sua visão de mundo deveria ser seguida.
O irmão Tristan acompanhou a mesma trajetória, reproduzindo discursos semelhantes e consolidando a dupla como uma das principais referências internacionais da chamada machosfera.
Mesmo após serem banidos de diversas plataformas por violações de políticas contra discurso de ódio, seus conteúdos continuaram circulando por meio de perfis de fãs, cortes de vídeos e republicações. Pesquisadores apontam que essa circulação paralela contribuiu para manter a influência dos Tate mesmo diante das restrições impostas pelas redes sociais.
Quando a machosfera deixa de ser nicho
A prisão dos irmãos ocorre em um momento em que discursos antes restritos a comunidades digitais passaram a disputar espaço no debate público.
Nos últimos meses, o Portal Vermelho mostrou como setores da extrema direita norte-americana voltaram a defender publicamente a revogação do voto feminino e como o governo Donald Trump transformou a testosterona em símbolo de uma política de masculinidade ao lançar o chamado High-T Department (“Departamento de Alta Testosterona”) no Pentágono.
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Embora esses movimentos não componham uma organização única, compartilham elementos recorrentes: a defesa de papéis tradicionais de gênero, a valorização da autoridade masculina e a reação aos avanços das mulheres.
Andrew Tate tornou-se um dos principais difusores desse imaginário. Não por ter criado a machosfera, mas por ajudar a transformá-la em um fenômeno de massa.
O fenômeno também cresce no Brasil
O alcance desse universo aparece também em pesquisas recentes. Levantamento atualizado do NetLab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), identificou 123 canais brasileiros com conteúdos misóginos ativos no YouTube, que somam mais de 23 milhões de inscritos. Em relação ao estudo anterior, houve crescimento de 18,5% no número de seguidores e de aproximadamente 25 mil novos vídeos publicados.
Segundo os pesquisadores, esses canais difundem teorias conspiratórias contra a igualdade de gênero e apresentam comportamentos hostis às mulheres como formas de valorização masculina. O estudo também mostra que parte dos produtores retirou referências explícitas à machosfera dos nomes dos canais, preservando, entretanto, o mesmo conteúdo.
Outro levantamento, realizado pelo Ipsos em parceria com o King’s College London, indica que 31% dos homens da Geração Z concordam que a esposa deve sempre obedecer ao marido, enquanto 33% afirmam que o homem deve ter a palavra final nas decisões importantes da família.
Os dados ajudam a explicar por que figuras como Andrew Tate continuam exercendo influência mesmo cercadas por processos judiciais.
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Um símbolo sob investigação
A influência dos irmãos Tate ultrapassou o universo das redes sociais. Eles são citados na série Adolescência, da Netflix, como referência para explicar a radicalização masculina entre adolescentes. No Brasil, Andrew Tate foi apontado como inspiração por Pablo Marçal durante a campanha à Prefeitura de São Paulo e segue acompanhado por figuras da extrema direita nas redes sociais.
Sua trajetória evidencia uma mudança mais ampla: a machosfera deixou de ser um conjunto de fóruns obscuros da internet para se tornar um ecossistema capaz de produzir celebridades, movimentar milhões de dólares e influenciar parte do debate político contemporâneo.
As novas acusações atingem justamente os principais rostos de um movimento que construiu sua influência exaltando a dominação masculina, a objetificação das mulheres e o combate ao feminismo como símbolos de sucesso e poder.
É essa dimensão que faz da prisão dos irmãos mais do que um caso policial. Ela ocorre no momento em que a machosfera amplia seu alcance global, enquanto ideias antes restritas às redes sociais passam a dialogar com agendas políticas, culturais e religiosas. Ao atingir seus maiores expoentes, a investigação também recoloca em debate os efeitos de um movimento que transformou a misoginia em identidade, negócio e instrumento de influência.
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