
Em 28 de fevereiro de 1986, o Brasil parava para ouvir o pronunciamento do presidente José Sarney. Com o lançamento do Plano Cruzado, a Nova República tentava, pela primeira vez, quebrar a espinha dorsal de uma inflação que já sufocava o bolso dos trabalhadores com taxas superiores a 14% ao mês. Quatro décadas depois, o balanço desse experimento revela que, para além da euforia dos “fiscais do Sarney”, o plano deixou lições estruturais valiosas.
O cenário herdado após duas décadas de regime militar era de terra arrasada. A economia estava asfixiada por uma dívida externa que saltara de US$ 12 bilhões em 1973 para US$ 105 bilhões em 1985, consumindo quase todo o saldo comercial com o pagamento de juros. Embora o país apresentasse superávits comerciais — frutos de uma compressão violenta do consumo interno —, as reservas internacionais eram cronicamente baixas e a inflação já rodava na casa dos 230% ao ano. Esse estrangulamento externo, aliado à indexação generalizada, criava o ambiente de instabilidade que o Cruzado tentou reverter.
Além do congelamento: O nó do câmbio e dos juros
Para Luiz Gonzaga Belluzzo, economista e professor que participou da equipe econômica como assessor, o fracasso do Cruzado não pode ser reduzido à “superdemanda” ou simplesmente ao controle de preços. Em suas análises, Belluzzo destaca que a fragilidade do plano residia em desequilíbrios estruturais, especificamente na defasagem cambial e na ausência de um ajuste fiscal profundo. Tais fatores impactavam a desvalorização da moeda de forma mais relevante do que a própria inflação inercial, foco central do combate na época.
Em reflexão recente publicada no Valor Econômico sobre a natureza das moedas, Belluzzo reforça que economias periféricas lidam com o desafio de possuir “moedas não conversíveis”. No caso do Cruzado, a dificuldade de manejar o fluxo de capitais e a manutenção de uma política de juros elevada – sem o suporte de uma moeda reserva como o dólar – tornaram o controle da inflação uma tarefa árdua. O Brasil estava exposto à fuga de capitais. Existe um mito que virou símbolo, que a imprensa compra, de que o fracasso do Plano Cruzado foi simplesmente em decorrência do congelamento de preços, porém “a vulnerabilidade da nossa moeda frente à moeda reserva dominante – o dólar – é o que realmente comprometeu a sustentabilidade das tentativas de estabilização daquela década”, afirma Belluzzo.
O primeiro de muitos
Embora tenha terminado em uma “experiência amarga” — com o retorno da hiperinflação em 1987 e o “estelionato eleitoral” do Cruzado II —, o plano é um marco histórico. Foi o início de uma sequência de tentativas (Bresser, Verão, Collor I e II até chegar ao Real) que serviram de aprendizado acumulado para o país.
Nesse processo, a grande lição do Cruzado foi o enfrentamento da memória inflacionária, mas o plano revelou-se incompleto ao não resolver a vulnerabilidade do setor externo. Ao extinguir a correção monetária e criar o gatilho salarial, o governo tentou desarmar o mecanismo inercial, mas esbarrou na falta de uma âncora cambial eficiente e no manejo local das taxas de juros. Como aponta Belluzzo, a ausência de uma política sobre o fluxo de capitais e a rigidez do câmbio sem reservas adequadas tornaram a nova moeda refém do dólar. A lógica da desindexação foi aprimorada anos depois com a Unidade Real de Valor (URV), mas o sucesso do Plano Real em 1994 dependeu justamente do que faltou ao Cruzado: a gestão da taxa de juros e do câmbio para atrair a liquidez internacional e sustentar o valor da moeda doméstica.
O balanço de 40 anos
Dessa forma, o Cruzado deixou sucessos imediatos inegáveis: a inflação caiu para perto de zero nos primeiros meses e o poder de compra saltou, estimulando o PIB e a indústria. No entanto, a falta de ajuste no câmbio e nos juros diante da fuga de capitais selou seu destino final, mostrando que o congelamento era apenas a superfície do problema.
Em última análise, o plano não foi um erro isolado, mas o primeiro passo para tirar o país do abismo. Quarenta anos depois, o ensinamento que fica, conforme defende Belluzzo, é que a estabilidade de preços “depende da soberania monetária e da compreensão de que, em um sistema global hierarquizado, a política cambial e o movimento de capitais são as verdadeiras ‘frentes de batalha’ contra a carestia”.
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