Em 17 de abril de 2016, a Câmara dos Deputados aprovou, por 367 votos a 137, a admissibilidade do processo de impeachment de Dilma Rousseff. Em 31 de agosto daquele ano, o Senado consumou a deposição da primeira mulher eleita presidenta do Brasil. A acusação formal se apoiava na edição de decretos de crédito suplementar e nos atrasos de repasses do Plano Safra, as chamadas “pedaladas fiscais”, enquanto a defesa sustentava que não houve crime de responsabilidade e que o processo era um golpe.
O desfecho carregou uma contradição que se tornou símbolo da fragilidade do processo: Dilma perdeu o mandato, mas manteve os direitos políticos, em votação separada no Senado. A cisão entre cassação e inabilitação expôs, desde então, a natureza política de uma operação vendida como rigorosamente jurídica.
Dilma disse isso em tempo real, no discurso em que denunciou a ruptura: “Decidiram pela interrupção do mandato de uma presidenta que não cometeu crime de responsabilidade. Condenaram uma inocente e consumaram um golpe parlamentar”. Na mesma fala, deu nome também ao componente de gênero que atravessou toda a ofensiva.
“O golpe é contra as mulheres. O golpe é misógino, o golpe é homofóbico, o golpe é racista”.
Dilma Rousseff, 2016
Dez anos depois, a frase não perdeu força. O impeachment não encerrou apenas um governo. Abriu uma etapa de rebaixamento institucional, naturalizou a chantagem congressual como método e deslocou o centro de gravidade da política brasileira.
Numa ironia que beira a confissão, o próprio Eduardo Cunha passou a admitir isso. Em declarações recentes, repercutidas na imprensa, afirmou que o afastamento de Dilma abriu caminho para a eleição de Jair Bolsonaro e para a ascensão da extrema direita.
Disse também que, se pudesse, teria conduzido o processo ainda mais rapidamente. O cinismo está menos no conteúdo do que na naturalidade: o operador central do impeachment hoje reivindica como feito político aquilo que desorganizou a democracia brasileira.
Não é detalhe. Em 2015, acuado por denúncias e pelo Conselho de Ética, Cunha aceitou o pedido de impeachment logo após parlamentares do PT anunciarem que votariam contra ele. A cronologia da retaliação foi registrada à época e expõe o uso do mecanismo constitucional como instrumento de sobrevivência política.
Foi essa engrenagem que Dilma se recusou a alimentar. Sua queda não nasceu de uma súbita epifania fiscal do Congresso, mas também da recusa em aderir à barganha, em salvar Cunha e em submeter a Presidência ao toma-lá-dá-cá. O impeachment foi, nesse sentido, punição política e recado disciplinador.
Discursos de ódio, misoginia e violência política
A violência que cercou Dilma não foi acessória. Foi constitutiva do processo. Eleita em 2010 com 56% dos votos válidos e reeleita em 2014 com 51,64%, governou sob uma campanha contínua de deslegitimação, atravessada por ataques misóginos, insultos públicos e tentativa sistemática de reduzir autoridade política a caricatura de gênero.
A marca ficou. Pesquisa da Confederação Nacional de Municípios apontou, em 2024, que mais de 60% das prefeitas e vice-prefeitas já sofreram algum tipo de violência política de gênero. O método testado contra Dilma não ficou no passado, se espalhou.
A deputada federal Dandara Tonantzin afirma que o golpe contra Dilma Rousseff também foi atravessado pela condição de gênero da então presidenta. “Sabemos que o golpe contra Dilma também foi motivado pelo fato de ela ter sido a primeira mulher eleita presidente do Brasil”, diz.
Para a ministra das Mulheres, Márcia Lopes, o país ainda deve reparação a Dilma. “Foi de fato um crime muito grave o que aconteceu”, afirma, ao destacar que a recusa da ex-presidenta em tratar o Congresso como balcão de negócios ajudou a acirrar o conflito político.
Segundo ela, o país avançou no reconhecimento desse tipo de violência ao longo da última década, mas ainda não conseguiu transformar esse diagnóstico em garantia efetiva de direitos. “O Brasil hoje discute mais a sub-representação feminina como um problema democrático, avançou na denúncia de ataques misóginos em campanhas e parlamentos e avançou na tipificação da violência política de gênero como crime”, afirma.
Apesar disso, a deputada ressalta que o cenário segue desigual e inseguro para mulheres na política. “Ainda estamos longe de garantir igualdade efetiva e segurança plena para mulheres na política”, pontua.
A leitura de Aloizio Mercadante vai na mesma direção. Para o presidente do BNDES, a deposição de Dilma inaugurou um ciclo que culminaria, anos depois, em novas tentativas de ruptura institucional.
Dilma ficou de pé; os algozes, não
Dez anos depois, o tempo tratou de reorganizar os papéis daquele processo. A presidenta deposta sem crime de responsabilidade seguiu em trajetória ascendente no cenário internacional. Os articuladores do impeachment, não.
Dilma chega a 2026 como presidenta do Banco dos Brics, função que assumiu em 2023 e na qual foi reconduzida em 2025. À frente de uma das principais instituições financeiras do Sul Global, tornou-se protagonista na reorganização da governança internacional, o tipo de protagonismo que lhe foi negado no Brasil em 2016.
No plano interno, o reconhecimento também veio, ainda que tardio. Em 2025, o Estado brasileiro formalizou o pedido de desculpas pelas violações sofridas por Dilma durante a ditadura, ao reconhecê-la como anistiada política. O gesto teve peso simbólico: o mesmo Estado que a derrubou sem crime foi obrigado a reconhecer a violência que marcou sua trajetória.
O contraste com seus algozes é inevitável. Cunha foi cassado meses após conduzir o impeachment. O discurso moralista das “pedaladas” perdeu sustentação. E a narrativa que justificou a queda de Dilma hoje aparece esvaziada até entre seus próprios protagonistas.
Dilma, por sua vez, não recuou nem reescreveu sua posição. Manteve a denúncia do golpe, preservou sua coerência política e atravessou a década sem negociar sua história.
No Brasil que emergiu após 2016, marcado por instabilidade, radicalização e tentativas reiteradas de ruptura, a permanência de Dilma como referência política e moral expõe o tamanho do erro cometido. O impeachment não apenas interrompeu um mandato — abriu caminho para um ciclo que ainda estrutura a disputa democrática no país.
No fim do discurso de despedida, Dilma citou Maiakóvski. Não era ornamento. Era método. “O mar da história é agitado.” Era. Continua sendo. E, com o tempo, também separa quem caiu por conveniência de quem permaneceu de pé.