Alguns republicanos não ficaram satisfeitos com a festa de 80 anos de Trump, que contou com uma luta do Ultimate Fighting Championship (UFC), um evento de artes marciais mistas, em uma jaula nos jardins da Casa Branca. A decisão de Trump de quebrar a tradição e não comparecer à partida de abertura da Copa do Mundo da FIFA de 2026 entre os Estados Unidos e o Paraguai em Inglewood, Califórnia, perto de Los Angeles, foi vista por alguns como um sinal de seu medo de participar de grandes eventos esportivos, já que ele foi vaiado ruidosamente recentemente quando sua imagem apareceu nos telões.
Até mesmo uma série de músicos de segunda categoria recusou convites da Casa Branca para se apresentarem na celebração de 4 de julho de 2026, que comemora o 250º aniversário da assinatura da Declaração de Independência dos Estados Unidos, para não serem associados ao presidente. Como as pesquisas indicam que sua popularidade entre os eleitores, fora dos apoiadores do MAGA, está diminuindo, Trump declarou que realizará um comício gigantesco em Washington nessa data, com apenas ele como atração principal.
Promete ser um evento público patético, com um presidente patético.
Um dos grandes motivos para a contínua queda de popularidade de Trump é a guerra contra o Irã — suspensa por um cessar-fogo que contradiz quase todas as justificativas apresentadas pelo presidente para começar o conflito. Em uma pesquisa realizada pouco antes do governo Trump concordar com o memorando de entendimento de quatorze pontos e duas páginas, a popularidade do presidente caiu para um mínimo histórico de 35%, com apenas 29% dos entrevistados aprovando a ação militar contra o Irã.
As muitas justificativas de Trump para a guerra
Quando Trump, lançou sua guerra contra o Irã no final de fevereiro deste ano, em parceria com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, ele apresentou uma série de justificativas para entrar no conflito. Não só ele não conseguiu atingir nenhum dos seus objetivos declarados, como o acordo provisório que assinou na quinta-feira, 17 de junho, no Palácio de Versalhes, na França, também suscitou questionamentos sem precedentes sobre sua política externa entre políticos do Partido Republicano.
Além disso, o cessar-fogo de 60 dias para prosseguir com novas negociações, especialmente sobre as capacidades nucleares do Irã, pode ruir a qualquer momento. Todo o conflito foi um desastre para Trump que, quando era candidato à presidência em 2024, prometeu que jamais levaria os Estados Unidos a outra “guerra sem fim”.
As diversas justificativas apresentadas pelo presidente dos EUA para atacar o Irã têm mudado constantemente.
1. Aniquilar — de novo — o programa nuclear
Trump alardeou, imediatamente após os ataques aéreos de 22 de junho de 2025 às instalações de desenvolvimento nuclear do Irã, que a Força Aérea dos EUA havia “aniquilado” o programa nuclear do país. Isso contradizia um relatório vazado da Agência de Inteligência de Defesa dos EUA, segundo o qual o programa nuclear do Irã havia sofrido apenas um atraso de meses, o que o presidente negou enfaticamente.
Menos de um ano depois, Trump justificou o novo ataque ao Irã alegando que a República Islâmica estaria a semanas de desenvolver uma bomba nuclear. Ninguém no governo, no entanto, conseguiu explicar como o Irã reconstruiu um programa que acabara de ser destruído. Resta saber se o Irã cederá à sua insistência quanto ao direito de desenvolver capacidade nuclear.
2. Mudar o regime
Uma segunda justificativa foi a “mudança de regime”. Evidentemente encorajado pela rápida deposição do presidente Nicolás Maduro na Venezuela, Trump acreditava que teria sucesso semelhante no Irã.
Embora os ataques aéreos conjuntos EUA-Israel tenham matado o Líder Supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, juntamente com dezenas de altos funcionários militares e políticos, no primeiro dia da guerra, ele foi rapidamente substituído por seu filho, Mojtaba Khamenei, considerado mais radical e linha-dura do que seu pai. A agência de notícias Reuters relata que o novo Líder Supremo aprovou o memorando de entendimento recém-assinado entre os dois países apenas a contragosto, pois o presidente Masoud Pezeshkian e outros altos funcionários prometeram que o acordo não prejudicaria os interesses nacionais do Irã.
3. Levar a “democracia” para o Irã
Uma terceira explicação para a guerra foi a expectativa de que bombardear o Irã inspiraria uma revolta em massa com o objetivo de derrubar o regime e substituí-lo por líderes, supostamente de dentro do governo, que seriam pró-Ocidente. Essa esperança não se materializou e o governo Trump rapidamente varreu o argumento para debaixo do tapete.
4. Destruir mísseis
O secretário de Defesa, Pete Hegseth, insistiu que os Estados Unidos também haviam destruído as capacidades de mísseis de longo alcance do Irã. Isso também se mostrou falso, já que o Irã mantém capacidades de lançamento e um estoque significativo de mísseis balísticos.
Sem admitir que não havia atingido esse objetivo, Trump o riscou de sua lista de sucessos ao declarar, na cúpula do G-7 em Paris, que “se outros países os têm, é um pouco injusto para eles [Irã] não terem alguns”. Os aliados dos EUA na Arábia Saudita, Catar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Omã, que foram bombardeados por mísseis e drones iranianos — o que os arrastou para a guerra —, certamente não estão satisfeitos com essa capitulação ao Irã.
5. Bloquear Hezbollah, Hamas e Houthis
O governo Trump também justificou a entrada na guerra para bloquear o apoio da República Islâmica ao Hezbollah no Líbano, ao Hamas em Gaza e aos Houthis no Iêmen, que vinham atacando Israel por três frentes. O acordo exige o “término imediato e permanente das operações militares em todas as frentes, inclusive no Líbano”.
O primeiro-ministro Netanyahu não está nada satisfeito com essa cláusula do acordo, do qual Israel não é signatário. Em campanha para a reeleição no final de outubro e enfrentando enorme pressão de seus aliados na coalizão e dos moradores do norte de Israel devido aos ataques de mísseis e drones do Hezbollah, o acordo quase foi inviabilizado um dia antes de ser assinado, devido às ações militares israelenses no sul de Beirute. Como resultado, o Irã suspendeu as negociações que estavam programadas para começar imediatamente, devido aos contínuos ataques israelenses ao seu vizinho do norte. Netanyahu defende suas incursões militares como retaliações justificáveis aos ataques do Hezbollah a Israel, o que enfureceu Trump, que teme que a insistência do primeiro-ministro israelense em ocupar o sul do Líbano possa levar ao fracasso de todo o acordo.
6. Liberar o Estreito de Ormuz
Finalmente, e o mais importante, depois que o Irã fechou o Estreito de Ormuz ao tráfego internacional no início da guerra, Trump insistiu que sua principal prioridade era reabrir a passagem de entrada e saída do Golfo Pérsico, ignorando o fato de que sua própria guerra havia provocado o fechamento. Um aumento de 50% nos preços mundiais do petróleo, que provocou críticas generalizadas à guerra de Trump nos Estados Unidos devido à inflação crescente, fez com que a abertura do Estreito se tornasse, de imediato, a maior prioridade do presidente americano.
Com a popularidade de Trump em queda livre e a possibilidade real de que os republicanos percam o controle da Câmara dos Representantes, e talvez até mesmo do Senado, nas próximas eleições de meio de mandato em novembro, Trump passou grande parte dos últimos dois meses tentando manipular os preços internacionais do petróleo por meio de uma série de declarações otimistas, embora contraditórias, sobre como o fim da guerra estava próximo.
O Irã, no entanto, entende a vantagem que obteve ao controlar uma rota marítima por onde passa 20% do suprimento mundial de petróleo. Apenas um dia depois de Trump anunciar a reabertura do Estreito de Ormuz, o governo iraniano o fechou devido aos ataques israelenses ao Líbano. Ameaçar ou bloquear a passagem internacional pode ser uma moeda de troca estratégica que o Irã poderia usar para manter a vantagem sobre o governo Trump, que está desesperado para ver os preços mundiais do petróleo caírem drasticamente antes das eleições de novembro nos Estados Unidos.
Acordo de “paz” de Trump irrita até republicanos
Não tendo alcançado nenhuma das justificativas declaradas para travar a guerra contra o Irã, os detalhes do acordo de 14 pontos entre os dois países provocaram uma ira sem precedentes tanto entre seus antigos aliados no Congresso quanto entre os republicanos que Trump recentemente apunhalou pelas costas.
Eles fizeram múltiplas críticas aos principais itens do acordo, incluindo o descongelamento de ativos iranianos, o alívio das sanções às exportações de petróleo, um fundo proposto de 300 bilhões de dólares para desenvolvimento e reconstrução, nenhuma restrição à produção de mísseis balísticos e nenhuma garantia de que o financiamento dos aliados do Irã no Oriente Médio será encerrado.
O senador republicano Tom Cotton, do Arkansas, presidente do Comitê de Inteligência do Senado, criticou o levantamento das sanções americanas às exportações de petróleo do Irã, o que permitiria a arrecadação mensal de 4,5 a 6 bilhões de dólares em receitas necessárias para fortalecer a economia do país e reconstruir sua força militar.
O senador republicano Roger Wicker, do Mississippi, que preside o Comitê de Serviços Armados do Senado, ridicularizou o fundo de reconstrução de 300 bilhões de dólares que presumivelmente viria de países árabes amigos, chamando o acordo de 2015 do presidente Obama, que liberou 1,7 bilhão de dólares em fundos iranianos, de “uma ninharia em comparação”.
A senadora republicana do Alasca, Lisa Murkowski, que às vezes hesita em apoiar seu partido, comentou que achava que o acordo não parecia “deixar o Irã em uma situação pior e os Estados Unidos em uma situação melhor” do que antes da guerra.
Dois adversários republicanos de Trump, recentemente identificados, também entraram na discussão.
O senador Bill Cassidy, da Louisiana, que perdeu a indicação republicana para a reeleição porque Trump apoiou um de seus oponentes na disputa, considerou o acordo “o pior erro de política externa em décadas”.
O senador John Cornyn, que também perdeu para um candidato apoiado por Trump nas primárias republicanas do Texas, expressou reservas sobre o acordo: “Eles usarão esse dinheiro que está sendo liberado para reconstruir seu arsenal de mísseis balísticos e começar a enriquecer novamente, e isso será um perigo constante.”
Os democratas, que se opuseram firmemente à guerra desde o início, apontam para o fato de que o Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA, na sigla em inglês), que o presidente Obama assinou com o Irã em 2015 e que Trump rasgou logo após assumir a Casa Branca, era muito melhor do que o acordo atual. Como era de se esperar, Trump, em sua postura arrogante e egocêntrica, insiste que Obama negociou “um dos piores e mais estúpidos” acordos já assinados pelos Estados Unidos.
Durante anos, Trump, o “golpista” (con man), como o Secretário de Estado Marco Rubio o chamou quando se enfrentaram nas primárias presidenciais republicanas de 2016, construiu a sua imagem como um brilhante empresário e negociador. No entanto, parece que na década de 1970, enquanto Trump perdia os 350 milhões de dólares que o seu pai lhe dera para começar o seu negócio, ele não estava prestando atenção às notícias. Se estivesse, saberia que o presidente democrata Jimmy Carter (1977-1981) perdeu a sua candidatura à reeleição em 1980 para o republicano Ronald Reagan (1981-89) devido à crise dos reféns no Irã, que ocorreu na sequência da Revolução Islâmica de 1979. Percebendo a vulnerabilidade eleitoral de Carter, o Líder Supremo Aiatolá Khomeini adiou a libertação dos últimos reféns da embaixada dos EUA em Teerão até ao dia da posse de Reagan.
Embora seja altamente improvável que os políticos republicanos se separem em massa do líder do partido, as tensões e fissuras nas fileiras da extrema-direita estão aumentando.
Um número crescente de republicanos no Congresso expressou preocupação, publicamente e extraoficialmente, com os excessos dos projetos de vaidade de Trump em Washington — seu anexo dourado do salão de baile da Casa Branca; o plano de construir um enorme Arco de Trump, como os oponentes estão chamando o monumento; a tomada de controle e a adição de seu nome ao Centro John F. Kennedy para as Artes Cênicas; e uma reforma fracassada dos gigantescos espelhos d’água, que oferecem graça e elegância ao design urbano clássico e majestoso da capital do país.