
Nesta quinta-feira, 13 de agosto, as luzes se apagam em cinemas de 18 cidades brasileiras, enquanto na tela, um jovem de 26 anos volta a andar entre nós. Não em carne e osso; pois em 10 de outubro de 1973, o Centro de Informações da Marinha (Cenimar) sumiu com ele sem deixar rastro. O que retorna agora, em Honestino, é o que nunca conseguiram prender — um nome, uma voz, uma ícone, um exemplo.
Distribuído pela Pandora Filmes, com roteiro assinado por Michiles ao lado de André Finotti e produção de Nilson Rodrigues, pela brasiliense Mercado Filmes, o longa costura imagens de arquivo, cartas, poemas e depoimentos — de familiares a companheiros como Jorge Bodanzky, Franklin Martins e Almino Afonso — às cenas dramatizadas em que Bruno Gagliasso empresta corpo ao líder estudantil.
A obra não chegou crua: passou pelo Festival do Rio, onde levou o Troféu Redentor de Melhor Montagem, pela Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e pelo Festival Bonito Cinesur. E, na segunda-feira anterior, Lula e Janja receberam no Cine Alvorada a família, a equipe e dirigentes da UNE para uma pré-estreia que teve menos de lançamento e mais de cerimônia de memória.
A caixa que guardava uma vida
O filme nasceu de um medo e de um vídeo. Michiles — manauara de 1952, formado na UnB e no Parque Lage, diretor de O Cineasta da Selva (1997) e Segredos do Putumayo (2022) — conheceu Honestino nos tempos de universidade e carregava aquela história “de forma sufocante”. Foi por volta de 2013, ao perceber o ciclo político que desembocaria na extrema direita, que a urgência se impôs.
Então veio a mensagem de Isaura, primeira esposa do militante e mãe de sua filha, Juliana: um vídeo do neto Lucas discursando na reinauguração da ponte que trocara o nome do general Costa e Silva pelo do avô. O neto dizia que gostaria de ter ouvido as histórias dele. Em seguida, Isaura entregou ao diretor uma caixa: cartas, poemas, manifestos, comentários políticos.
“Toda a vida dele, de 26 anos de idade, estava ali naquela caixa”, lembra Michiles. Da caixa saiu o formato híbrido — a solução para fugir do que o diretor chama de “ambiente arqueológico”: não uma peça fria de museu, mas memória viva.
O “elefante vermelho” da Asa Sul
E que vida. Nascido em Itaberaí (GO), Honestino Monteiro Guimarães chegou a Brasília em 1960, ano da inauguração, com a família. No Centro de Ensino Médio Elefante Branco, na Asa Sul — apelidado pelos militares de “elefante vermelho” pelo histórico de resistência; hoje o grêmio leva seu nome —, formou-se a semente do engajamento.
Em 1964, já no CIEM, entrou para a clandestina Ação Popular. Aos 18, passou em primeiro lugar para Geologia na UnB. Entre os livros e a luta, presidiu a Federação dos Estudantes Universitários de Brasília, foi preso quatro, cinco vezes, e em 1968 acabou “arrastado, carregado e muito espancado” na mais violenta invasão militar ao campus — a “invasão à Feub”.
Desligado da universidade e editado o AI-5, viveu clandestino em São Paulo e no Rio. Mesmo nas sombras, foi eleito presidente da UNE em 1971 e seguiu atuando na Ação Popular Marxista-Leninista. Até que o Cenimar fechou o cerco em 10 de outubro de 1973.
O corpo jamais apareceu. O atestado de óbito só veio em 1996, pela Lei dos Desaparecidos Políticos; e foram necessários mais 18 anos para o papel confessar o que a família sempre soube: a causa da morte foram “atos de violência praticados pelo Estado”. Em 2014 veio a anistia política póstuma; em 2024, a UnB anulou o desligamento e lhe outorgou, enfim, o diploma de geólogo.
Do torturador ao lado certo da história

A escolha do protagonista é um capítulo à parte. Foi depois de ver Bruno Gagliasso como o torturador Sérgio Fleury em Marighella, de Wagner Moura, que Michiles o quis do outro lado do balcão. O ator foi apresentado ao projeto por intermédio do cineasta Sérgio Machado. O resultado é uma atuação que busca menos o mármore do herói e mais a temperatura do homem — pai, filho, amigo.
Gagliasso, que não conhecia o personagem antes do convite, mede a distância entre os dois papéis como quem mede uma trajetória moral. Foi muito mais prazeroso “estar do lado certo da História.” Para ele, o filme não é sobre o passado, evocando o 8 de Janeiro e os ataques sem fim à urna eletrônica. O ator acredita que nunca é demais falar sobre a ditadura no cinema.
A memória como arma política
Honestino chega na esteira de Ainda Estou Aqui — a história de Rubens Paiva vencedora do Oscar, que reabriu a conversa nacional sobre o regime — e confirma uma tese: a memória, no Brasil, é território em disputa. “A memória é uma arma política”, sintetiza Bianca Borges, presidenta da UNE, para quem Honestino representa “coragem para enfrentar o autoritarismo e recusa ao silêncio”.
O mapa das homenagens mostra o tamanho do embate: em Brasília, o Teatro de Arena e o DCE levam seu nome; o Museu Nacional da República de Niemeyer, idem; e a ponte que por décadas honrou o general Costa e Silva só virou ponte Honestino Guimarães em dezembro de 2022, após vetos, ações derrubadas e promulgação. Renomear uma ponte nunca é só sobre uma ponte: é sobre quem atravessa para o futuro.
Água limpa sob o lodo
Michiles compara o trabalho da memória à limpeza de um rio: “É como se você tivesse camadas de lodo que precisa tirar para encontrar água limpa.” O filme é essa pá. É também a resposta ao neto Lucas, que queria ter ouvido as histórias do avô: agora, o país inteiro as escuta. Betty Almeida já as havia documentado em Paixão de Honestino; Paula Damasceno, num minidocumentário de 2013. O cinema completa o tríptico.
Ao sair da sala escura para a luz desta quinta-feira, o espectador carrega a suspeita que o protagonista transformou em síntese: “Honestino está mais vivo do que muita gente acha.” Quem acredita em democracia, educação e liberdade carrega um pouco dele em si. E enquanto houver uma sala escura e alguém disposto a ouvir, o jovem de Itaberaí não terá desaparecido: estará, mais uma vez, do lado certo da História.
AL, Maceió
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