Em oito anos de ampliação do público-alvo da vacina contra o papilomavírus humano, o HPV, Porto Alegre vem registrando uma cobertura vacinal proporcionalmente menor à do Rio Grande do Sul. Desde 2017, os meninos de 9 a 14 anos também devem se vacinar, além das meninas dessa faixa etária.
Especialista em saúde coletiva, o médico e professor da UFRGS Alcides Miranda acredita que os problemas relacionados à cobertura vacinal em Porto Alegre, assim como a reemergência de doenças como a sífilis congênita, podem ter relação com o processo de terceirização da saúde no município.
“Esses problemas seriam evitados se as equipes de atenção primária estivessem buscando faltosos e fazendo visitas domiciliares para incentivar a vacina”, afirma. “A terceirização da saúde tem induzindo as equipes a ficarem só nas unidades atendendo para cumprir metas. As campanhas de vacinação e as visitas para convencimento sobre a vacina estão sendo deixadas de lado. Na Universidade, estamos começando a estudar esse fenômeno para comprovar se há uma relação”.
Entre o sexo masculino, a cobertura da vacina contra o HPV chegou em 70% no estado e 67% na Capital em 2024. Esse foi o ano em que, na cobertura vacinal do sexo feminino, Porto Alegre ultrapassou pela primeira vez a média do estado, chegando a 88%. O percentual voltou a crescer depois de registrar uma queda brusca em 2018 e ficar abaixo dos 80% até 2023.
Miranda salienta que a cobertura vacinal do HPV é calculada através de corte. Ou seja: o grupo estudado é acompanhado ao longo do tempo. Como existe uma faixa etária em que a vacina em questão é aplicada, pode ser que alguns indivíduos deixem de se vacinar aos 9 anos, por exemplo, mas se vacinem aos 10 ou 11. Mesmo assim, segundo o professor, é correto afirmar que a cobertura passou por uma queda.
Na Capital, a vacinação das meninas contra o HPV atingiu, em 2024, percentuais superiores aos de 2017. Mas esse feito só foi alcançado no último ano, já que houve quedas acentuadas em 2018 e 2021. Quando se trata do Rio Grande do Sul, a cobertura vacinal do sexo feminino ainda não voltou a atingir os 94% de 2017 após reduções em 2018, 2020 e 2021.
“Nada impede que alguma medida seja tomada que altere essa tendência e se aumente a cobertura vacinal adiante. Mas, até o momento, há uma tendência de redução, compatível com o restante das outras vacinas”, explica Miranda.
Outro fator que influencia esse cenário, de acordo com o professor, a emergência de um novo tipo de negacionismo. “Temos uma experiência de quase 250 anos de vacina, e sempre houve uma parcela pequena da população que se recusou a tomar vacina. Mas nos últimos anos, principalmente depois do coronavírus, o que vemos é um negacionismo de viés ideológico. Além de não se protegerem, as pessoas não protegem as crianças, o que é mais grave. O HPV não foge dessa tendência”, diz.

Entre 2018 e 2022, houve reduções da cobertura vacinal no sexo feminino tanto em Porto Alegre quanto no RS, enquanto a cobertura no sexo masculino aumentou no mesmo período. Ao mesmo tempo, a cobertura vacinal entre as meninas é historicamente maior do que entre os meninos.
Miranda explica que dados mais aprofundados seriam necessários para discutir os motivos dessa variação, mas existe a hipótese de que as meninas já estavam recebendo uma cobertura preliminar. “Não haveria motivo para os serviços vacinarem mais meninos do que meninas. O mais provável é que elas tenham feito a vacina preliminarmente”, diz.
Conforme o professor, o HPV sempre esteve mais associado ao sexo feminino: “Pode ser que esse reconhecimento anterior induza os pais das meninas a se preocuparem mais com a vacinação”.
Nas mulheres, o HPV pode causar câncer do colo do útero, responsável por 6.627 mortes no Brasil em 2020. A estimativa do Ministério da Saúde é que, de 2023 a 2025, cerca de 17 mil mulheres sejam diagnosticadas com o tumor. Nos homens, que não correm esse risco, a vacinação contra o papilomavírus serve para evitar a transmissão.
“É uma imunização cujo efeito ocorre num longo prazo. O homem, quando porta o HPV, pode ser que tenha alguma pequena lesão que logo desaparece. Mas ele fica disseminando o vírus, que tende a causar mais complicações nas mulheres”, ressalta Miranda.
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