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Human Rigths Watch pede ‘trégua do ICE’ nos EUA durante a Copa do Mundo

A Human Rights Watch (HRW) fez um apelo formal à Fifa nesta segunda-feira (27) para que pressione o governo de Donald Trump a decretar uma “trégua do ICE” durante a Copa do Mundo de 2026. A exigência é uma garantia pública das autoridades federais americanas de que o Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) se absterá de realizar operações de fiscalização de imigração nos jogos e nos locais de competição enquanto o torneio estiver acontecendo.

A ideia foi inspirada na chamada “Trégua Olímpica”, tradição que remonta à Grécia antiga, quando cidades-estado em guerra suspendiam hostilidades para que atletas e espectadores pudessem viajar com segurança até os jogos. Agora, séculos depois, a HRW recorre ao mesmo princípio para tentar garantir que torcedores do mundo todo assistam às partidas de futebol sem o risco de serem detidos, deportados ou perseguidos.

Um torneio marcado pelo medo

A Copa do Mundo de 2026 — primeira edição com 48 seleções — será co-organizada por EUA, Canadá e México, entre 11 de junho e 19 de julho. Os Estados Unidos sediarão a grande maioria dos jogos, 78 no total, incluindo as semifinais e a final. É exatamente esse protagonismo americano que está no centro das preocupações da HRW.

Para embasar sua denúncia, a organização publicou um “Guia para Repórteres” de 79 páginas, com o título Guia do Repórter para a Copa do Mundo da FIFA de 2026 no Canadá, México e Estados Unidos. O documento mapeia as condições de direitos humanos nos três países anfitriões e os riscos concretos que as políticas do governo Trump representam para jornalistas, torcedores, jogadores e comunidades imigrantes.

Os números são estarrecedores. Entre 20 de janeiro e 10 de março de 2025, apenas nos primeiros 50 dias do governo Trump, o ICE prendeu pelo menos 167 mil pessoas nas proximidades das 11 cidades americanas onde os jogos serão realizados. Os dados foram obtidos por meio de pedido de acesso à informação ao Deportation Data Project e analisados pela própria HRW.

Quem está na mira

A organização alerta que não são apenas imigrantes que correm risco. Torcedores de dezenas de países já enfrentam proibições de visto para entrar nos EUA. Pessoas de comunidades imigrantes que se reunirem em estádios ou zonas de fãs para torcer por suas seleções e celebrar sua herança cultural estarão sob maior risco de abordagem.

Além disso, também estão vulneráveis aqueles que agentes da lei perceberem como imigrantes com base na cor da pele, no idioma falado ou no local de trabalho — um perfil que abrange milhões de pessoas, inclusive turistas e visitantes em situação regular.

Grupos de defesa emitiram, no último dia 23, um aviso de viagem alertando que visitantes a caminho dos EUA para a Copa podem enfrentar detenção arbitrária, deportação, perfilamento racial, revistas em dispositivos eletrônicos e até tratamento cruel ou desumano em centros de detenção de imigração.

Jornalistas na mira

A liberdade de imprensa também está em xeque. A HRW documentou dois casos emblemáticos. Em junho de 2025, Mario Guevara, jornalista vencedor do Emmy, foi preso em Atlanta, uma das cidades-sede da Copa, supostamente por filmar um protesto político. Ele foi transferido para a custódia do ICE e deportado para El Salvador. Em março de 2026, a jornalista Estefany Rodríguez, que cobria operações do ICE, foi detida sem que seus captores apresentassem qualquer mandado.

A organização também documentou que agentes americanos dispararam gás lacrimogêneo, balas de pimenta, projéteis de espuma e granadas de efeito moral diretamente contra manifestantes, jornalistas e observadores — frequentemente à queima-roupa e sem aviso prévio.

No México, o cenário não é melhor. Só em 2025 sete jornalistas foram assassinados, segundo a organização Artigo 19, e a impunidade para esses crimes permanece. O Congresso mexicano ainda aprovou uma lei que concede às autoridades poderes praticamente ilimitados para acessar dados de cidadãos sem autorização judicial.

A Fifa faz vista grossa

Diante de tudo isso, o comportamento da Fifa é o que a HRW classifica como uma falha grave. Quase todos os comitês das cidades-sede descumpriram o compromisso firmado com a entidade de apresentar planos de ação em direitos humanos antes do torneio. Os poucos planos entregues ignoram ou abordam de forma insuficiente os riscos enfrentados por imigrantes, pessoas LGBTQIA+ e jornalistas.

Mas o símbolo mais gritante da omissão da Fifa veio em dezembro de 2025, quando a entidade concedeu a Trump o seu primeiro Prêmio da Paz, alegando que o presidente republicano teria contribuído para o diálogo e a redução de tensões em focos de conflito ao redor do mundo. A HRW disse que pediu à Fifa detalhes sobre os critérios, indicados e juízes do prêmio — e aguarda resposta.

Ainda neste mês, a HRW enviou carta ao presidente da Fifa, Gianni Infantino, com perguntas sobre proteção à liberdade de imprensa, incluindo se a entidade possui protocolos para responder a casos de jornalistas detidos ou deportados. A Fifa respondeu apenas que “possui mecanismos e procedimentos para responder a qualquer incidente relacionado aos direitos humanos.”

Para Minky Worden, diretora de iniciativas globais da HRW, a resposta é insuficiente: “Esta deveria ser a primeira Copa do Mundo com uma estrutura de direitos humanos, proteções essenciais para trabalhadores, torcedores, jogadores e comunidades. Em vez disso, a brutal repressão à imigração, as políticas discriminatórias e as ameaças à liberdade de imprensa significam que o torneio corre o risco de ser definido pela exclusão e pelo medo.”

Trump responde com arrogância

O porta-voz da Casa Branca, Davis Ingle, em declaração à Reuters, afirmou que o torneio será “o mais seguro da história” e que “nenhuma quantidade de táticas ridículas de intimidação impulsionadas por grupos ativistas liberais e pela mídia de esquerda mudará isso.”

A Anistia Internacional, em março deste ano, já havia declarado que o torneio está se distanciando do evento “seguro, livre e inclusivo” que a própria Fifa prometeu.

Faltam pouco mais de 40 dias para o pontapé inicial da Copa do Mundo. A HRW segue pressionando a Fifa para que use sua influência e exija do governo Trump medidas concretas de proteção. Por enquanto, o silêncio da entidade ecoa mais alto do que qualquer apito de árbitro.

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com agências

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