
O economista, jornalista, escritor (dono da cadeira 38 da Academia de Letras da Bahia) e professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Armando Avena, sustenta que a Inteligência Artificial não é uma criação tecnológica neutra ou recente. Trata-se da realização histórica de um conceito formulado por Karl Marx no Grundrisse (1857-1858): o general intellect, ou conhecimento social geral – o saber coletivo acumulado pela humanidade ao longo da história, agora condensado em algoritmos e apropriado privadamente por um pequeno grupo de big techs.
No livro A Modernidade Caiu na Rede: A Arte, a Cultura e a Economia no Mundo da Inteligência Artificial (Editora Caramurê, 101 páginas, 2026), Avena argumenta que esse processo está criando uma nova classe dominante – a “burguesia digital”- e impondo o que ele chama de “servidão algorítmica”. A obra foi pré-lançada em 16 de abril durante a Bienal do Livro Bahia e lançada oficialmente em 23 de abril, em Salvador.
Ao retornar à modernidade de Marx e Baudelaire, marcada pela pulsação das fábricas de Londres e dos bulevares de Paris no século 19, Avena a contrasta com o cenário digital contemporâneo. Longe da efervescência cosmopolita parisiense daquela época, hoje a vida se vive nos feeds luminosos do Instagram e do TikTok, onde algoritmos governam a atenção, o comportamento e o desejo.
O livro utiliza uma estratégia literária ousada e usa diálogos fictícios entre grandes figuras históricas para conceituar as atuais contradições. Dante Alighieri, por exemplo, aparece traçando paralelos entre a estrutura da Divina Comédia e a arquitetura das redes sociais – o algoritmo como guia que, em vez de levar ao paraíso, aprisiona os usuários em círculos de repetição, ódio e vaidade. Karl Marx também surge para atualizar sua própria teoria, argumentando que o trabalhador contemporâneo é qualquer pessoa que produz dados, conteúdo e atenção gratuitamente para as plataformas.
Outros encontros imaginários incluem Machado de Assis discutindo com Steve Jobs a vaidade humana nas redes e Freud analisando como os algoritmos operam no subconsciente, transformando as plataformas em fábricas de desejos. Einstein reflete sobre como a velocidade do processamento algorítmico alterou nossa percepção de tempo e produtividade, concentrando poder econômico em quem controla a infraestrutura computacional.
Como economista, Avena analisa as transformações no modo de produção. A burguesia digital, segundo ele, é proprietária de infraestruturas algorítmicas, gestora de monopólios técnicos e simbólicos e rentista de dados. O proletariado, afirma, não desaparece, mas se fragmenta em novas formas: intermitente, informal, conectado e estatisticamente invisível. “A vida monetizou-se, tornou-se uma mercadoria”, resume o autor.
Leia a entrevista completa com o autor Armando Avena:
Vermelho: Marx conceituou o “general intellect” como conhecimento social coletivo que vira força produtiva imediata no capital fixo. Você vê a IA como a realização histórica desse conceito?
Armando Avena: O conceito de “general intellect”, criado por Marx, quer definir o conhecimento acumulado pela humanidade, o saber social, a linguagem, a ciência, enfim, a história coletiva da humanidade. Isso sempre existiu e é cumulativo. As plataformas digitais condensaram o saber da humanidade e o usam como força produtiva, para auferir lucro. A Inteligência Artificial é apenas isso: conhecimento humano coletivo cristalizado em algoritmos e apropriado por algumas empresas, as big techs. Os proprietários das big techs estão se constituindo como a classe dominante: são a burguesia digital. Toda capacidade cognitiva, todo padrão de reconhecimento, toda decisão “inteligente” da IA vem do trabalho humano acumulado historicamente e também do trabalho recente de programadores, cientistas e, sobretudo, milhares de trabalhadores invisíveis que anotam dados, treinam modelos, moderam conteúdo.
Vermelho: A IA também transforma bens simbólicos e intangíveis – conhecimento, cultura, arte, ideias – em mercadorias. Como isso amplia a acumulação de mais-valia e, ao fim e ao cabo, modifica os meios e o modo de produção hoje?
Armando Avena: Aí está o pulo do gato. A IA é o estágio mais desenvolvido, mais avançado, das forças produtivas sob o capitalismo. Os bens simbólicos e intangíveis – conhecimento, cultura, arte, ideias – são efetivamente transformados em mercadorias. É a substituição do trabalho vivo (humano) por trabalho morto (máquinas). O capital se apropriou do “general intellect” e está usando o conhecimento acumulado por milênios em proveito próprio. A acumulação passa a vir da exploração dos poucos trabalhadores altamente produtivos, que geram enorme valor, e do controle das plataformas, dados, patentes e infraestruturas. É extração indireta de trabalho vivo: usuários produzem dados, conteúdos, atenção, ou seja, realizam trabalho não pago. Desse modo, a burguesia digital encontra formas para viabilizar seus lucros. Os novos empresários digitais são rentistas digitais, aproveitam-se da sua posição monopolista e controlam plataformas, têm o monopólio de redes, vendem anúncios, assinaturas, serviços e outros. Não criam valor, mas capturam valor criado em outros lugares da economia. Apropriam-se de trabalho não-pago.
Vermelho: Com as big techs apropriando-se privadamente desse conhecimento coletivo acumulado pela humanidade, como está ocorrendo a acumulação de capital nesse novo estágio?
Armando Avena: Isso ainda precisa ser mais estudado. Mas a burguesia digital não é majoritariamente produtora. É proprietária de infraestruturas algorítmicas, gestora de monopólios simbólicos e técnicos e rentista de dados. Ela já não dirige o processo produtivo: apropria-se dele. O capital torna-se cada vez mais impessoal, automático, fetichizado, os donos das empresas tecnológicas tornam-se “sujeitos sem alma”. Eles exploram trabalhadores que passam o dia inteiro nas redes sociais, produzindo conteúdo para eles, e de forma espontânea.
Vermelho: Do ponto de vista econômico, como a IA está reorganizando a força de trabalho e as relações de produção?
Armando Avena: Teoricamente a mais-valia só pode ser extraída do trabalho vivo e a IA é trabalho morto, trabalho passado, objetivado. Mas com a IA surge uma novidade que transcende Marx: o capitalismo já não explora prioritariamente o trabalho, explora a conduta, a atenção, o desejo, a previsão do comportamento. De certa forma, o proletário se fragmenta, mas a exploração persiste. O trabalho direto deixa de ser fonte de riqueza e o capitalista busca outras formas, que não a apropriação da mais-valia nas fábricas, para assim extrair o lucro. O capitalista passa a explorar não apenas o proletário, mas o próprio indivíduo. O proletariado não desaparece, ele se precariza e torna-se difuso. Surge um novo tipo de proletariado: intermitente, informal, conectado, estatisticamente invisível, constantemente disponível. A exploração não se dá apenas no tempo de trabalho, mas na vida das pessoas. A vida monetizou-se, tornou-se uma mercadoria.
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