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IARAA – Inteligência Artificial na Reforma Agrária e Agroecologia é “ferramenta de luta por soberania tecnológica”

Os bioinsumos foram apresentados como um caminho seguro para substituir os produtos químicos e agrotóxicos em geral. Uma fábrica de bioinsumos será construída no assentamento Contestado. Foto: Danielle Freitas 

Da Página do MST

Encontro entre tecnologia ancestral e inteligência artificial reuniu mais de 500 pessoas para discussão e promoção da agroecologia no assentamento do Contestado, na Lapa/PR, durante a 23ª Jornada de Agroecologia. O Dia de Campo ocorreu a 70 quilômetros de Curitiba, onde aconteciam as demais programações da Jornada, realizada entre 18 e 21 de julho, no campus Politécnico da Universidade Federal do Paraná. 

As atividades promoveram ações de formação, debates e experiências de campo sobre o uso da tecnologia no dia a dia dos produtores. Camponeses, além de técnicos e integrantes de cooperativas da agricultura familiar, participaram das atividades para discutir a produção sustentável de alimentos saudáveis, a soberania alimentar e a preservação ambiental. 

Durante o seminário “A Reforma Agrária Popular e as ferramentas para a massificação da agroecologia”, com João Pedro Stédile, economista e Coordenador Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), e Natália Lobo, representante da Marcha Mundial das Mulheres (MMM) e da Associação Internacional para Cooperação Popular (Baobab). O encontro mostrou que a tecnologia também pode nascer da terra, da organização popular e do conhecimento acumulado pelos povos do campo.

Natália Lobo apresentou a plataforma IARAA – Inteligência Artificial na Reforma Agrária e Agroecologia, uma ferramenta tecnológica de Inteligência Artificial desenvolvida por e para as pessoas que fazem parte da agricultura familiar. A IARAA tem o objetivo de oferecer uma alternativa que reduz a dependência das IAs comerciais e fornece informações seguras aos usuários do sistema, ampliando a soberania tecnológica campesina. 

>> Clique aqui para acessar: baobab.iapc.group/pt/iaraa/  

O banco de dados da plataforma está em constante atualização de conteúdos e fontes e pode ser alimentada com a contribuição de conteúdos produzidos pelo conhecimento do campo, também a partir da sistematização dos conteúdos, muitas vezes da cultura oral, em forma de texto. 

A IARAA é “ferramenta da nossa luta por soberania tecnológica”, garante Natália Lobo, militante da MMM e uma das desenvolvedoras da IA. Foto: Danielle Freitas 

Durante o evento, os participantes do Dia de Campo puderam conhecer a plataforma e testar a IARAA na prática, fazendo perguntas diretas, técnicas e políticas para a plataforma, sobre diversos temas ligados à agroecologia. 

O acesso à plataforma é realizado a partir de três perfis: Semeaduras, perfil que atende à perguntas com  respostas curtas e diretas; Mutirão, voltado a questões coletivas, como educação popular, ideias de educação e trabalho coletivo sobre determinado tema; Quintal produtivo, focado em perguntas mais complexas, que exijam consulta a relatórios e pesquisas específicas sobre determinado tema.

A IARAA está fundada numa base de dados que tem quase mil materiais, todos selecionados e ligados à agroecologia na perspectiva popular. “Ela é também uma ferramenta da nossa luta por soberania tecnológica, porque nos coloca num lugar não só de usuário, mas também de sujeito da tecnologia”, explica a militante da MMM. 

A Jornada de Agroecologia se transformou numa “universidade popular”, diz João Pedro Stédile

Em sua fala, Stédile reforçou os caminhos necessários para o debate sobre a emergência ambiental e as possibilidades oferecidas pela tecnologia, como o uso da IA no campo, e a necessidade do desenvolvimento de soluções e práticas agroecológicas na soberania popular. “Todo o futuro é orgânico e disso depende, inclusive, a nossa saúde”, garantiu o economista. 

O acesso à tecnologia está no centro da massificação da agroecologia, defende o dirigente do MST: “Nós temos que desenvolver instrumentos para a agroecologia aumentar a produtividade do trabalho e, para isso, vão ser fundamentais as fábricas de bioinsumos, de máquinas e agroindústrias para industrializar os alimentos”. 

O governo chinês tem sido um aliado para o desenvolvimento destas frentes de inovação. Entre os exemplos, está a parceria entre o país asiático e o governo brasileiro para a construção da primeira fábrica de máquinas agrícolas voltada exclusivamente para a agricultura familiar, em Maricá (RJ). A unidade terá capacidade de produzir 5 mil tratores ao ano, em modelos com potência de 25 e 50 cavalos, dimensionados para as necessidades da agricultura de pequena escala. 

Camponeses/as de todo o Paraná participaram da atividade. Foto: Danielle Freitas

O dirigente também reforçou a importância da Jornada de Agroecologia, ao longo das 23 edições já realizadas. “Ela se transformou numa universidade popular, porque todo ano vem o agricultor, vem o pesquisador, e aqui, todo ano, nós trocamos conhecimentos e experiências concretas […]. A agroecologia tem essa pegada. Como ela se propõe a produzir alimentos, respeitando a natureza, em cada território é diferente. Então, no fundo você tem que ser um pequeno cientista na sua área”, concluiu. 

Assentamento Contestado terá fábrica de bioinsumos 

O público pôde visitar sete estações temáticas que se dedicaram a temas como Tecnologia na Reforma Agrária, Saúde Popular, Manejo Agroecológico e Cooperativismo, além da própria IARAA. As estações contaram com exposições de soluções e tecnologias voltadas à produção de comida sem veneno e práticas contextualizadas ao dia a dia do campo.

Outra estação de visita também foi dedicada especialmente aos bioinsumos, apresentados como como um caminho seguro para substituir os produtos químicos e agrotóxicos em geral. Eles são resultado da interação entre o conhecimento científico e os saberes populares camponeses. A base para a produção é a valorização da biologia do solo e dos processos naturais que sustentam a fertilidade do ecossistema do solo. Na prática, os bioinsumos também ajudam a induzir a autonomia do ecossistema, não criando uma nova dependência de mercado. 

A atividade também se tornou espaço para uma boa notícia para todas as pessoas que ficaram interessadas nos bioinsumos: uma fábrica do produto será construída no assentamento Contestado, com capacidade de produção suficiente para cobertura de 8.500 hectares por semana e fornecimento para todo o estado.

Esta conquista amplia a referência já conquistada pelo assentamento na produção agroecológica. Formado por cerca de 190 famílias, ao longo de quase três décadas conquistou escola, colégio, Unidades Básicas de Saúde e a Escola Latino Americana de Agroecologia (ELAA).

A cooperativa Terra Livre, com sede na comunidade, é dedicada 100% a alimentos agroecológicos. Criada em 2012, ela tem cerca de 250 sócios espalhados por 12 municípios do Paraná, além de associados em Santa Catarina e Mato Grosso do Sul. A Terra Livre desempenha um papel fundamental na distribuição de alimentos agroecológicos, com fornecimento semanal de mais de 20 toneladas de alimentos para o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), entregues em 103 colégios estaduais de Curitiba.

Foto: Danielle Freitas

A segunda edição do Dia de Campo é resultado da construção e fortalecimento de ações coletivas entre instituições parceiras como a Cooperativa de Agroindústria e Comércio Terra Livre, a Escola Latino Americana de Agroecologia (ELAA), a Cooperativa Central de Reforma Agrária do Paraná (CCA-PR), o Convênio Semeando Gestão, Fortalecendo a Organização Produtiva Sustentável, Itaipu Parquetec, Itaipu Binacional e Governo do Brasil. 

A 23ª Jornada de Agroecologia, ocorreu entre os dias 18 e 21 de junho, realizada pela Associação de Cooperação Agrícola e Reforma Agrária (ACAP), com o apoio coletivo de muitas instituições, coletivos e movimentos, com destaque para a Universidade Federal do Paraná (UFPR) e o Ministério da Saúde.

Esta edição foi patrocinada pela Itaipu Binacional, Fundação Banco do Brasil e Governo Federal.

*Editado por Fernanda Alcântara

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