Boletim Outras Palavras
Receba por email, diariamente, todas as publicações do site
Agradecemos!
Você já está inscrito e começará a receber os boletins em breve. Boa leitura!
O retorno de Donald Trump às manchetes globais, vociferando ameaças de invasão a Cuba, orquestrando encenações judiciais contra Nicolás Maduro e mais recentemente falando abertamente em anexação da Groenlândia, evoca, à primeira vista, um forte sentimento de déjà vu. Para o observador apressado, os Estados Unidos parecem estar apenas espanando a poeira da velha Doutrina Monroe. É o mesmo imperialismo de sempre, dizem. Contudo, ao ajustarmos a lente analítica sobre esses eventos de janeiro de 2026, algo fundamental não se encaixa na moldura clássica.
A retórica é agressiva, mas a execução é errática. As sanções e ameaças não vêm acompanhadas daquele planejamento meticuloso de ocupação territorial ou da lógica férrea de exploração produtiva que marcou o século XX. O que vemos são ações espasmódicas, teatrais e desconectadas de qualquer estratégia de longo prazo. Não estamos mais diante do “Imperialismo Clássico”, impulsionado por um projeto de nação. O que enfrentamos hoje é o Imperialismo Zumbi: um corpo de guerra formidável que continua a caminhar e a morder, mas que agora opera desprovido da racionalidade estratégica (o “cérebro”) que um dia o criou.
O Cérebro Morto
Para entender a ausência de comando, é preciso voltar à tese central de Paulo Ghiraldelli em Capitalismo 4.0: a hegemonia hoje é do capital financeiro, e ele não tem pátria. A velha burguesia industrial precisava organizar o “burgo” (infraestrutura, escolas, estabilidade social) para lucrar. Já a elite financeira e da infosfera lucra com fluxos globais, volatilidade e algoritmos. Para esses agentes, a “saúde” do território nacional tornou-se irrelevante. Houve um descolamento: quem detém o dinheiro não tem mais interesse em gerir a nação.

É fundamental não confundir a presença de bilionários do Vale do Silício no governo com um “novo projeto de país”. Eles não ocuparam a Casa Branca para atuar como estadistas ou para planejar o futuro da sociedade americana. Eles estão lá apenas para garantir que o Estado não regule seus monopólios e para capturar o orçamento militar em contratos de IA e energia, impulsionados pelo pânico de perder a corrida tecnológica para a China. Eles não operam os botões da política para construir hegemonia, mas para garantir o saque. Ninguém, absolutamente ninguém nesse núcleo de poder que sequestrou a Casa Branca, tem um projeto de nação.
Trump opera, de fato, como um showman, mas seria um erro confundi-lo com um mero bufão inofensivo. Sua performance constante não é uma cortina de fumaça para esconder a política; o espetáculo é a própria política.
Em um Estado que perdeu a capacidade de entregar melhorias materiais, a função do líder deixa de ser administrativa e passa a ser puramente instintiva. Trump não governa para resolver crises, ele as encena para saciar a fome de conflito de sua base neofascista. Ele é o mestre de cerimônias do colapso, cujo único projeto é manter a tensão alta o suficiente para que ninguém perceba que o navio está à deriva. O showman não constrói; ele mantém o público entretido enquanto o teatro pega fogo.
A Mordida
Essa mutação na base econômica alterou a natureza da intervenção externa. No capitalismo industrial clássico, a exportação de capitais exigia a exportação casada da superestrutura: para garantir o lucro fixo da ferrovia ou da mina, o imperialismo precisava transplantar seu aparato jurídico e manter o controle político-militar — a infraestrutura chegava, e a superestrutura vinha junto para garanti-la. Hoje, sob a hegemonia do capital financeiro que entra e sai dos países conforme a conveniência dos algoritmos e das políticas neoliberais, o imperialismo dispensa a custosa administração colonial. Ele não precisa mais governar a periferia; precisa apenas garantir que ela não atrapalhe o fluxo ou gere volatilidade lucrativa.
A recente operação na Venezuela ilustra essa lógica macabra: tratou-se de um sequestro, não de uma ocupação. Mesmo após a prisão de Maduro, quem segue governando em Caracas é sua vice-presidente, enquanto a própria ExxonMobil já declarou a inviabilidade de explorar o petróleo local naquele contexto. O objetivo não era a conquista territorial para a produção, mas o espetáculo punitivo e o caos pontual. O Zumbi morde e segue vagando, sem interesse em gerir as ruínas que deixa para trás.
O Corpo Vivo
Contudo, decretar o fim do imperialismo apenas pela ausência de um projeto seria um erro fatal. Se o cérebro morreu, o corpo do gigante continua funcional. O complexo industrial-militar, a CIA e a hegemonia do dólar são estruturas construídas ao longo de um século. Elas possuem uma inércia própria; não evaporam só porque a elite mudou.
Aqui, a realidade material se impõe. Recorrendo à sabedoria popular: se tem focinho de porco, rabo de porco e pé de porco, é porco. Quando Trump mobiliza frotas ou asfixia economias, ele opera com a materialidade de um Estado imperialista. O aparato está lá, disponível e letal. Para a vítima na ponta final — o venezuelano ou o cubano — a distinção acadêmica entre “projeto” e “prática” é irrelevante. A dor é real. O Zumbi pode não saber para onde vai, mas sua mordida continua sendo mortal.

O Espasmo
Se na América Latina a ação é predatória e performática, no Ártico o comportamento do Zumbi revela outra faceta de sua patologia: o pânico. A recente retórica sobre a anexação da Groenlândia não deve ser lida como um novo ciclo de expansão imperialista clássica, mas como um reflexo defensivo desesperado.
Ali, o objetivo não é “conquistar para desenvolver”, mas “tomar para negar”. Diante da movimentação concreta da Rússia e da China nas novas rotas polares, o sistema nervoso do império dispara um alerta de sobrevivência. O corpo militar se move para o Norte não porque possui um projeto para a região, mas porque teme ser engolido pelas potências que, ao contrário dele, mantêm seus cérebros estratégicos funcionando.
A tentativa de compra ou anexação da ilha funciona como uma barricada de última hora. O Zumbi percebe que seu antigo “mundo unipolar” está encolhendo e, num espasmo de autopreservação, tenta fechar fisicamente as portas do Ocidente. É a geopolítica da negação: ocupar o espaço apenas para garantir que o “outro” não o ocupe. O império não avança para construir o futuro; ele se entrincheira violentamente para tentar impedir que o futuro chegue.
A Fome
Mas se o cérebro morreu, a ocupação acabou e os movimentos externos são apenas reações de pânico, o que mantém esse organismo colossal operando com tanta violência? A resposta reside na anatomia residual do império: o Complexo Industrial-Militar, agora fundido às gigantes da tecnologia.
Mesmo sem direção estratégica, esse corpo possui um estômago insaciável. Com um orçamento anual que ultrapassa os 900 bilhões de dólares, a máquina de guerra americana opera por uma inércia aterrorizante. Para justificar sua existência, o corpo precisa de movimento constante. E aqui entra o novo apetite: as Big Techs não querem apenas vender anúncios; elas disputam ferozmente fatias desse orçamento para contratos de vigilância, drones autônomos e sistemas de IA.
É essa aliança que torna o Zumbi tão perigoso. Diferente do soldado racional, que luta para atingir um objetivo político e depois descansa, a máquina de guerra luta para se alimentar. Sem uma Guerra Fria real, ela fabrica ameaças fantasmas e espetáculos de força para garantir a renovação dos contratos. O Zumbi ataca não porque tem um plano de vitória, mas porque seu metabolismo — agora digital e financeiro — exige a violência contínua para não colapsar.
A Troca de Cérebro
Em última análise, o conceito de “Imperialismo Zumbi” diagnostica uma patologia terminal do Ocidente: a dissolução da Razão de Estado no coração do capitalismo financeiro. Enquanto analistas ainda buscam estratégias ocultas nas ações da Casa Branca, a realidade do Capitalismo 4.0 revela que o comando estratégico está vazio.
A burguesia financeira, ao descolar seus interesses do território nacional, condenou o Estado americano a se tornar uma casca oca. O “cérebro” migrou para a nuvem global, deixando para trás um “corpo” militar colossal, armado até os dentes, mas guiado apenas por instintos primitivos: a fome de audiência interna e a voracidade do saque imediato.
Isso não decreta, contudo, o fim da política, mas o colapso de sua forma liberal-burguesa. Para sobreviver ao século XXI, é preciso olhar além dos escombros. Enquanto o capitalismo financeiro produz zumbis erráticos presos ao curto prazo, o socialismo com capacidade de planejamento estratégico e economia de projetamento — exemplificadas pela China — provam que a Razão de Estado não morreu. No cenário de apocalipse institucional que vivemos, a política capitalista tornou-se um morto-vivo, mas a história continua sendo escrita por aqueles que tiveram a coragem de transplantar o cérebro.
Sem publicidade ou patrocínio, dependemos de você. Faça parte do nosso grupo de apoiadores e ajude a manter nossa voz livre e plural: apoia.se/outraspalavras
The post <i>Imperialismo zumbi</i>, produto de um capitalismo senil appeared first on Outras Palavras.