
A indústria brasileira encerrou o ano de 2025 com um crescimento de apenas 0,6%, um resultado que, embora positivo no papel, revela uma preocupante perda de fôlego do setor produtivo nacional. Os dados da Pesquisa Industrial Mensal (PIM-PF), divulgados nesta terça-feira (3) pelo IBGE, mostram que o otimismo do início do ano foi sufocado por uma política monetária que priorizou o arrocho, transformando os juros elevados em numa pesada âncora que atrasa o desenvolvimento.
O desempenho contrasta fortemente com a expansão de 3,1% registrada em 2024. A trajetória ao longo dos meses desenha o tamanho do desafio: após um primeiro semestre com alta de 1,2%, a produção estagnou na segunda metade do ano (0%). O fechamento de dezembro — com recuo de 1,2% frente a novembro — foi o pior resultado para o mês desde 2019, evidenciando que a indústria opera hoje com o freio de mão puxado.
O peso da Selic no chão de fábrica
Para o IBGE, a correlação entre a anemia industrial e o custo do dinheiro é direta. André Macedo, gerente da pesquisa, aponta que o “menor dinamismo” é reflexo da política monetária restritiva. Com os juros em patamares de dois dígitos, o horizonte das empresas se encurta. “Há algum grau de preocupação para o ritmo da produção industrial”, afirmou Macedo, destacando que a retração atingiu 17 dos 25 ramos pesquisados em dezembro.
Historicamente, o cenário é de recuperação lenta. Embora a produção esteja ligeiramente acima (0,6%) do nível pré-pandemia de 2020, o setor ainda amarga uma distância de 16,3% em relação ao seu ápice, alcançado em maio de 2011. A indústria de transformação, coração da agregação de valor, fechou o ano com recuo de 0,2%, neutralizando os ganhos da indústria extrativa.
Setores em descompasso e o alerta do capital produtivo
O balanço setorial de 2025 expõe uma realidade heterogênea. Enquanto ramos como o de indústrias extrativas (+4,9%) e máquinas e equipamentos (+5,0%) conseguiram manter o nariz fora d’água, segmentos sensíveis ao crédito sofreram quedas severas. O recuo em bens de capital (-8,3%) e bens de consumo duráveis (-4,4%) em dezembro acendeu o sinal de alerta para a paralisia dos investimentos.
As entidades da indústria e movimentos sociais intensificaram as críticas à manutenção da taxa Selic em 15%. Mário Sérgio Telles, diretor de Economia da CNI, em nota oficial e declarações à imprensa especializada, classificou o patamar como “punitivo”. Segundo a entidade, o crédito caro não apenas afugenta o investidor, como abre espaço para as importações. “O prejuízo causado pelos juros altos é enorme. Em 2024, com a Selic menor, a demanda doméstica por bens da indústria de transformação cresceu quatro vezes mais do que a registrada até o fim de 2025”, destacou Telles.
Repercussão política e o clamor das ruas
A divulgação dos dados repercutiu imediatamente nas frentes políticas e sindicais. A Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), junto a outras centrais, manifestou-se denunciando o que chamam de “sabotagem do Banco Central” contra o pleno emprego. Para a CTB, os dados do IBGE comprovam que a política monetária atual beneficia apenas o rentismo em detrimento da produção e da renda do trabalhador.
Os números do IBGE devem intensificar a pressão sobre o Banco Central e pautar os debates no Congresso Nacional nas próximas semanas. Para especialistas, as condições de crédito e a incerteza seguem pesando sobre a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) – condição fundamental para o crescimento econômico.
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