
A Comissão de Segurança Nacional e Política Externa do Parlamento iraniano aprovou nesta terça-feira (31) um projeto de lei que estabelece a cobrança de pedágio para embarcações que trafegam pela via, por onde circula parcela expressiva do petróleo mundial. A medida, que exige pagamentos em rial (moeda iraniana), vincula o direito de passagem ao controle direto das Forças Armadas e da Guarda Revolucionária.
Embora determine o pagamento de uma taxa, o texto legislativo não possui caráter estritamente arrecadatório. Na prática, ele funciona como um filtro político. O projeto prevê explicitamente a proibição da passagem de navios vinculados aos Estados Unidos e a Israel, transformando o estreito em um canal de tráfego seletivo. Segundo parlamentares iranianos citados pela emissora estatal IRIB, a taxa é apresentada como uma forma de cobrir “custos de guerra” e garantir a segurança da navegação sob os termos de Teerã.
O colapso do tráfego e a exceção chinesa
Os números refletem o impacto imediato da nova postura iraniana. O fluxo de embarcações no estreito sofreu uma queda drástica: de 4.140 travessias em fevereiro, o volume despencou para apenas 125 em março — uma redução de 97%.
Neste cenário de paralisia quase total para o Ocidente, a China emerge como o principal interlocutor do regime iraniano. Embora Pequim evite formalizar publicamente um acordo de pedágio, a realidade dos mares aponta para uma coordenação pragmática. A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Mao Ning, confirmou recentemente que, após “coordenação com as partes relevantes”, três navios chineses cruzaram o estreito, agradecendo a assistência prestada.
Informações do Lloyd’s List, principal referência global em rastreamento do setor de navegação, indicam que o Irã já aceita pagamentos em yuan para viabilizar o trânsito, uma manobra estratégica que permite a Teerã contornar o sistema financeiro dominado pelo dólar e as sanções impostas por Washington. Paquistão e Índia também teriam obtido autorizações pontuais, reforçando a configuração de um “canal de aliados”.
A resposta de Washington amplia incertezas
Enquanto o Irã aperta o cerco em Ormuz, a reação do governo de Donald Trump amplia a incerteza aos aliados dos EUA. Em declarações contraditórias recentes, enquanto desembarca fuzileiros navais da região, o presidente norte-americano sinaliza que não pretende empenhar forças militares para garantir a abertura do estreito a terceiros.
Trump classificou o bloqueio como um “problema do mundo”, sugerindo que países dependentes do petróleo da região deveriam “comprar dos Estados Unidos” ou, alternativamente, “ir lá e tomar” o controle da via por conta própria. Embora não se possa confiar plenamente nas falas do presidente dos Estados Unidos, a nova postura reflete uma estratégia de desengajamento militar direto em favor de uma pressão comercial. Ao aceitar o fechamento parcial de Ormuz como um fato consumado, Washington estimula a exportação de sua própria energia e transfere o ônus da segurança marítima para as capitais europeias e asiáticas.
A estratégia iraniana de instituir um pedágio soberano, somada à recusa declarada de Trump em policiar a região, gera apreensão nos mercados globais. Analistas apontam que a institucionalização da cobrança e a exclusão seletiva de bandeiras ocidentais podem perenizar a alta nos preços da energia.
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