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Irã e Palestina: A violência como “dano colateral”

Foto: Getty Images

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No final de fevereiro de 2026, uma escola primária de meninas na cidade de Minab, no sul do Irã, foi atingida por um ataque com mísseis. O prédio desabou durante o horário de aula. De acordo com autoridades e organizações humanitárias, dezenas – possivelmente mais de uma centena – de crianças morreram sob os escombros, a maioria meninas entre sete e doze anos. Investigações internacionais ainda tentam determinar a responsabilidade pelo ataque.

A cena – mochilas cobertas de poeira, cadernos espalhados entre blocos de concreto, fileiras de pequenos caixões em funerais coletivos – tornou-se um símbolo brutal da guerra contemporânea. Escolas, hospitais e bairros residenciais deixaram de ser exceção nas geografias da violência e passaram a compor sua rotina.

Mas o que torna esse episódio ainda mais perturbador não é apenas a violência em si. É o modo como ela é rapidamente absorvida pela normalidade política. Em poucas semanas, tragédias como essa passam a circular no noticiário como números, estatísticas ou “danos colaterais”.

Para compreender esse processo, talvez seja necessário recorrer a duas obras fundamentais do pensamento crítico contemporâneo: A força da não violência, de Judith Butler, e A questão da Palestina, de Edward Said. Lidos juntos, esses livros revelam um ponto incômodo: a violência não começa quando a bomba cai. Ela começa quando algumas vidas deixam de ser reconhecidas como vidas plenamente humanas.

A hierarquia invisível das vidas

Em A força da não violência, Butler propõe uma crítica profunda à maneira como os Estados justificam a violência em nome da segurança.

Segundo a filósofa,

“A não violência exige que reconheçamos que todas as vidas são igualmente passíveis de luto e que nenhuma pode ser considerada dispensável para a preservação de outras.”

Essa formulação parece simples, mas Butler demonstra que a política internacional opera justamente no sentido oposto. As guerras modernas são sustentadas por uma hierarquia implícita das vidas: algumas mortes produzem escândalo global; outras são absorvidas pela lógica estratégica.

Para explicar esse fenômeno, Butler utiliza o conceito de grievability – frequentemente traduzido como “enlutabilidade”. Uma vida é “enlutável” quando sua perda é publicamente reconhecida como tragédia.

Quando não é, sua morte pode ser narrada como estatística. O que está em jogo, portanto, não é apenas a violência física, mas um enquadramento político que decide antecipadamente quais vidas merecem ser choradas.

O apagamento político dos palestinos

Décadas antes da reflexão de Butler, Edward Said já havia identificado um processo semelhante no contexto da Palestina.

Em A questão da Palestina, Said descreve como o colonialismo sionista e grande parte do discurso ocidental produziram uma narrativa em que os palestinos simplesmente não apareciam como povo político legítimo. Como ele escreve:

“A história da Palestina foi sistematicamente narrada como se os palestinos não existissem como povo.”

A famosa fórmula colonial – “uma terra sem povo para um povo sem terra” – não era apenas propaganda. Era uma operação intelectual que tornava possível a ocupação ao transformar um povo inteiro em ausência. Quando uma população é representada como inexistente ou politicamente irrelevante, sua expulsão ou morte deixa de aparecer como injustiça. Torna-se, no máximo, um efeito colateral de processos históricos inevitáveis. Said compreendeu com clareza que a violência colonial não depende apenas de armas ou exércitos. Ela depende de narrativas que tornam certas vidas invisíveis.

As guerras que transformam crianças em “dano colateral”

A tragédia em Minab, onde uma escola de meninas foi destruída durante ataques militares na região, mostra como essa lógica continua operando. Organizações internacionais classificaram o ataque como uma possível violação grave do direito humanitário, que protege escolas e estudantes como alvos civis.

Ainda assim, no discurso estratégico que acompanha guerras contemporâneas, eventos como esse são frequentemente enquadrados como acidentes operacionais ou consequências inevitáveis de operações militares. Butler descreve exatamente esse processo quando escreve:

“A violência torna-se aceitável quando certas vidas são consideradas perdas toleráveis dentro de uma estrutura de poder.”

Esse raciocínio não é exclusivo de um conflito ou de um país específico. Ele atravessa diversas guerras contemporâneas: Gaza, Iraque, Afeganistão, Iêmen, Síria. Em todos esses contextos, populações civis inteiras passaram a ser tratadas como ambientes sacrificáveis da guerra.

Medea Benjamin e a crítica ao imaginário da guerra

Essa crítica também aparece de forma contundente no trabalho da ativista e pesquisadora norte-americana Medea Benjamin, cofundadora da organização pacifista Code Pink.

Em seu livro Inside Iran: The Real History and Politics of the Islamic Republic, Benjamin argumenta que a política externa ocidental construiu ao longo de décadas uma imagem simplificada e demonizada do Irã. Esse enquadramento permite justificar sanções devastadoras, isolamento diplomático e até intervenções militares. Ela escreve:

“A demonização constante do Irã apaga a complexidade de sua sociedade e transforma um povo inteiro em ameaça abstrata.”

O resultado é um efeito político familiar: quando sociedades inteiras são representadas como inimigas civilizacionais, o sofrimento de seus civis deixa de ocupar o centro do debate público.

Benjamin mostra que esse processo não é apenas retórico. Ele tem consequências materiais profundas: sanções econômicas que afetam sistemas de saúde, bloqueios financeiros que impedem a importação de medicamentos e guerras que destroem infraestruturas civis.

A impossibilidade de eliminar o outro

Um dos argumentos mais provocadores de Butler é a ideia de coabitação política. Segundo ela, os seres humanos compartilham o mundo antes de qualquer escolha. Ninguém escolhe completamente com quem divide território, fronteiras ou história. Butler escreve:

“A coabitação não é uma escolha. É a condição de nossa existência política.”

Essa ideia desafia diretamente as fantasias políticas que sustentam muitas guerras contemporâneas – a ideia de que a segurança pode ser alcançada eliminando ou expulsando o outro. Se a convivência é inevitável, então a destruição sistemática de populações nunca pode ser solução política.

O que Butler e Said nos obrigam a ver

Quando colocamos Butler, Said e Medea Benjamin em diálogo, emerge uma conclusão difícil de ignorar. A violência contemporânea não depende apenas de tecnologia militar. Ela depende de uma arquitetura moral que distribui desigualmente o valor da vida humana. Algumas mortes mobilizam imediatamente governos, organizações internacionais e cobertura midiática massiva. Outras desaparecem rapidamente no fluxo contínuo da guerra.

A destruição de uma escola cheia de meninas no sul do Irã, assim como as mortes cotidianas de civis na Palestina, expõe essa estrutura de forma brutal. Não se trata apenas de episódios isolados. Trata-se de um sistema político global em que a pergunta central continua sendo evitada: quem tem o direito de aparecer como vida plenamente humana?

Enquanto essa pergunta permanece sem resposta, a promessa de uma política baseada na proteção universal da vida continuará sendo apenas isso – uma promessa.

E é precisamente essa promessa não cumprida que os textos de Judith Butler e Edward Said nos obrigam a confrontar.

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