As autoridades iranianas endureceram o discurso contra os Estados Unidos nesta segunda-feira (17/08) após a expiração oficial do Memorando de Entendimento firmado entre os dois países em junho. Embora o acordo já tivesse perdido força com a retomada dos confrontos, integrantes da liderança iraniana passaram a sinalizar uma possível mudança de uma postura predominantemente defensiva para ações mais ofensivas.
O chefe do gabinete político da Guarda Revolucionária (IRGC), Yadollah Javani, afirmou em entrevista à emissora Rádio e Televisão da República Islâmica do Irã (IRIB) que as forças iranianas estão preparadas para adotar todas as medidas necessárias para defender o país.
“O inimigo começou a guerra e nossos esforços têm sido defensivos, embora possam assumir um aspecto ofensivo”, declarou Javani, sem detalhar quais ações poderiam ser realizadas. De acordo com ele, os adversários devem esperar “surpresas estratégicas”.
Vale ressaltar, que a declaração ocorre em meio ao aumento das tensões em torno do Estreito de Ormuz, uma das principais rotas mundiais para o transporte de petróleo. Apesar do cessar-fogo acordado em junho deste ano, as relações entre Teerã e Washington permanecem marcadas por ameaças, acusações e impasses sobre a reabertura da passagem marítima.
Irã amplia ameaças contra interesses estadunidenses
Na semana passada, o porta-voz da IRGC, Hossein Mohebbi, afirmou que infraestruturas dos Estados Unidos e de seus aliados regionais poderiam ser consideradas alvos caso Washington atacasse instalações civis iranianas. Entre os possíveis alvos citados estão redes de energia, usinas elétricas e sistemas conectados à internet.
Segundo a rede de televisão Al Jazeera, políticos e veículos de comunicação iranianos de linha dura também passaram a discutir a possibilidade de operações terrestres contra interesses americanos no Bahrein e no Kuwait caso os Estados Unidos decidam invadir o território iraniano.
No entanto, a postura agressiva se assemelha com mudanças na estrutura de poder iraniana. O líder supremo Mojtaba Khamenei consolidou sua influência ao nomear integrantes da velha guarda e aliados da Guarda Revolucionária para posições estratégicas nas áreas militar e de segurança.
Khamenei afirmou que a nomeação do major-general Ahmad Vahidi para o comando da IRGC deveria combinar “máxima dissuasão” com preparação para “poderosas operações ofensivas contra o inimigo”.
Vahidi declarou que a liderança iraniana e as forças armadas do país conseguiram derrotar o exército norte- americano depois que EUA e Israel iniciaram ataques contra o Irã em 28 de fevereiro. Washington rejeita essa interpretação e sustenta que o Irã foi derrotado no conflito.

The White House
Estreito de Ormuz vira foco da disputa
Nesta sexta-feira (14/08), o presidente norte-americano Donald Trump afirmou que o Irã foi derrotado e declarou que o Estreito de Ormuz será transformado em território americano “muito em breve”. Posteriormente, a Casa Branca indicou que o comentário havia sido feito em tom de brincadeira.
A declaração provocou reação em Teerã. O chefe do Exército iraniano, Amir Hatami, ofereceu uma recompensa de US$ 30 mil pela captura ou morte de um soldado americano caso tropas dos Estados Unidos realizassem uma operação terrestre em território iraniano. Segundo ele, a recompensa seria de US$ 60 mil caso a ação fosse realizada por uma mulher.
As autoridades iranianas também reforçaram a defesa de áreas estratégicas próximas ao Estreito de Ormuz. A ilha de Kharg, importante centro de exportação de petróleo, está entre os pontos considerados vulneráveis a uma eventual operação militar americana.
Unidades de resposta rápida foram deslocadas para áreas costeiras e ilhas do sul do país. O porta-voz do Exército, Mohammad-Reza Akraminia, afirmou que as forças iranianas pretendem impedir qualquer desembarque estrangeiro.
“Se os norte-americanos entrarem em uma de nossas ilhas, certamente os alvejaremos em nossas próprias ilhas”, disse ele à televisão estatal.
Com fim do memorando, negociações entre Irã e EUA seguem
O chefe do gabinete político da IRGC, Yadollah Javani, afirmou nesta segunda-feira (17/08) que o Estreito de Ormuz só será totalmente reaberto depois que Washington cumprir os compromissos estabelecidos no memorando de entendimento.
Entretanto, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmail Baghaei minimizou a importância do vencimento do prazo. Logo, Baghaei afirmou que o MoU não estabelecia explicitamente um período de dois meses para o cessar-fogo e rejeitou a ideia de que a expiração tivesse significado especial para o conflito ou para as negociações em andamento.
Segundo Baghaei, as negociações com Omã sobre uma reabertura parcial do Estreito de Ormuz continuam enfrentando dificuldades jurídicas e técnicas, além da participação de diferentes atores e de tentativas de sabotagem.
“O Irã não é um país que define suas políticas sob pressão, ultimatos e prazos”, afirmou o porta-voz.
O presidente do Parlamento iraniano e principal negociador, Mohammad Bagher Ghalibaf, classificou o memorando como um documento que representa uma “vitória no campo da diplomacia”. Ele também afirmou que o Irã saiu vitorioso, política e militarmente, do confronto com Estados Unidos e Israel.
O post Irã se diz preparado para possível operação terrestre dos EUA apareceu primeiro em Opera Mundi.
