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Fatima e Omar
As primeiras colunas de blindados já haviam penetrado na Cidade de Gaza, nesta terça-feira (16/9), e Fatima al-Zahra Sahweil não tinha como tomar uma decisão. Os comunicados dos ocupantes exigiram que esta jornalista de 40 anos rumasse, com mais 1 milhão de pessoas, para o sul do território — mas a estrada precária que beira o mar estava bloqueada pela multidão em fuga. Além disso, como 90% dos habitantes do enclave, ela foi obrigada a se deslocar várias vezes desde que Israel lançou a guerra, e estas mudanças a deixaram, junto com seus quatro filhos, sem nada além das próprias roupas. A sorte as livrou, até agora, de estar entre 65 mil mortos e 165 mil feridos (muitos amputados), vítimas de Israel. Porém, “não tenho uma tenda para nos abrigar, e já não posso comprá-las. Não teria como levar o que ainda nos resta. Além disso, será muito penoso procurar água e faltam espaços. Se sair, irei rumo ao desconhecido”, disse ao Guardian.
Omar al-Far preferiu fugir. Com muito custo, conseguiu armar sua tenda num aterro, ao lado de montanhas de lixo. Nada conseguiu levar, exceto sua família, que agora, junto com ele, teme os ratos, os insetos e as doenças. “Às vezes penso em voltar e buscar minhas coisas, mas poderia ser um erro fatal. E nem ao certo sei se minha casa ainda está lá”. A maioria dos que fugiram, em carros muito precários, porém abarrotados de gente e de coisas, agiu “como se nunca fosse voltar”.


Os mísseis, os tanques e as “impessoas”
Duas divisões do exército de Israel invadiram nesta manhã (16/9), a partir de sua periferia, a Cidade de Gaza, principal aglomerado humano na Faixa, habitado por 1 milhão de pessoas. Nas semanas anteriores, bairros inteiros, como Zeitoum, foram reduzidos a escombros. As imagens de grandes prédios de apartamentos vindo abaixo em segundos, depois de atingidos por mísseis, correram o mundo. Por isso, calculam os observadores internacionais, entre um terço e um quinto dos habitantes partiu. A maior parte, cerca de 600 mil, permanece. A área de Deir al-Balah, para onde Tel Aviv exige que partam, fica a 15 quilômetros. Muitos não podem pelo transporte por van. E ademais, “ninguém sabe se Israel vai declarar ‘ambiente hostil’ e te obrigar a mudar de novo”, diz o ex-servidor público Hisham à Economist, um dos que não partiu.
O que os soldados de Israel farão, entre meio milhão de palestinos? O primeiro-ministro Beyamin Netanyahu alega, pela enésima vez, que seu objetivo é “liquidar o Hamas”. O general Eyal Zamir, chefe do exército, já declarou abertamente que isso “exigirá anos, e não se sabe se será possível”. Também alertou que os cerca de 3 mil combatentes islâmicos que permanecem na cidade adotaram a tática de guerrilha, dispõem de uma vasta rede de túneis (majoritariamente intacta) e podem recorrer a emboscadas. Também advertiu sobre os riscos que correm os cerca 20 reféns israelenses que ainda permanecem vivos.
Há muito mais reféns em poder de Netanyahu. Acusado de corrupção, ele sabe que será preso, se deixar o poder. A guerra é seu salvo-conduto, os israelenses são cúmplices compulsórios e os palestinos… os palestinos são os que, para Noam Chomsky, o sistema trata como “impessoas”.

O isolamento
Netanyahu forma, com Donald Trump e seus asseclas, a vanguarda solitária da barbárie. Na segunda-feira (15/9), o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, visitou Jerusalém mais uma vez, confraternizou com o primeiro-ministro e disse que não haverá futuro para Gaza “enquanto o Hamas não for eliminado”. No momento em que os primeiros tanques entraram na Cidade de Gaza, o presidente dos EUA postou ameaças aos palestinos.
Na próxima Assembleia Geral da ONU, que começa dia 22/9, em Nova York, os dois carniceiros estarão mais isolados do que nunca. O clamor internacional está levando velhos aliados de Washington — a começar por França e Inglaterra — a se somar aos 147 dos 193 estados-membros da ONU que reconhecem o Estado Palestino (nesse momento, os EUA pressionam intensamente o Japão para que não faça o mesmo).
Há muito, naufragaram os Acordos de Abraão, por meio dos quais Tel Aviv e Washington buscavam atrair os países árabes dominados por monarquias oligárquicas, para alianças com Israel. No fim de semana, o primeiro-ministro do Qatar — um parceiro de Washington no Oriente Médio — pediu pela primeira vez sanções contra Israel.
E mesmo entre os israelenses, o clima mudou. No início dos bombardeios a Gaza, o ataque ao enclave era apoiado quase unanimemente. Agora, pesquisas mostram que mais de 70% da população prefere o cessar-fogo à continuação da guerra.
A impotência do mundo diante do genocídio mostra como a ordem internacional constituída no pós-II Guerra tornou-se obsoleta e precisa ser reconstruída. Um único país — os EUA — usou sozinho, dezenas de vezes, seu poder de veto no Conselho de Segurança para bloquear o Estado Palestino e resoluções contra as atrocidades israelenses. Mas, mesmo enquanto uma reforma da ONU não vem, vão surgindo caminhos para sancionar o genocídio e quem o pratica. Há semanas, Jeffrey Sachs, um grande estudioso de geopolítica, propôs um
