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‘Israel não imaginou que criaríamos essa solidariedade’, diz escritora sul-africana que participou da Flotilha

A escritora sul-africana Zukiswa Wanner observa que a Global Sumud Flotilha rumo a Gaza constrói uma “conscientização maior para as pessoas e também cria solidariedade. Eu acho que os israelenses não imaginariam que criaríamos isso”, contou a Opera Mundi.

“Antes de eu ir para a prisão e ter dividido cela com uma brasileira, eu não tinha ideia de que ativistas do Brasil estavam lutando para tentar impedir que o petróleo brasileiro fosse enviado para Israel. Mas eu sabia que na África do Sul estamos lutando para que o carvão não vá para lá. Agora, tenho a documentação do que os ativistas estão fazendo e como podemos trabalhar juntos. Não acho que era isso que os israelenses planejavam, de certa forma, foi uma vitória”, declarou.

Em seu livro recém-lançado Diário de uma flotilha por Gaza (pela editora Periferias), a autora conta da sua participação na Flotilha Global Sumud, uma missão humanitária composta por cerca de 500 ativistas de 44 países e 40 barcos, que integrou em setembro de 2025. O objetivo era romper o cerco ilegal à Faixa de Gaza e estabelecer um corredor para a entrega de ajuda humanitária, incluindo alimentos, remédios e fórmula infantil.

Dividido em três etapas, o prefácio é assinado por Juliana Muniz, cineasta e co-fundadora do coletivo Vozes Judaicas por Libertação. A primeira parte “Preparação”, a escritora conta sobre o processo de se organizar e treinamento para a missão, em seguida em “Ao mar” conta como foi seu ativismo e a interceptação na flotilha e, por fim, a última parte “Ktzi’ot: cinco dias em um Estado de Apartheid” ela relata sua detenção ilegal em Israel. Em sua escrita, há um tom de humor que alivia a tensão, o que torna a leitura viciante.

Embora a embarcação que estava tenha sido interceptada, Wanner afirma que apesar do lobby sionista ser forte, “nós somos mais forte”. A Opera Mundi, ela acrescentou: “sabe, acho que ser artista é ter esperança, e espero que esta seja a última flotilha que aconteça e que a Palestina fique livre”.

“Mesmo que possa parecer que foi uma derrota, e acho que de certa forma foi, porque não conseguimos o que todos esperávamos [quebrar o cerco], ainda acho que foi algo que conseguimos resolver de maneira bonita, e sou grata por isso”, declarou.

Wanner e seu livro ‘Diário de uma flotilha por Gaza’; camiseta que veste é a mesma usada na interceptação e prisão em Israel
Tabitha Ramalho / Opera Mundi

O barco em que o grupo da escritora estava também sofreu um problema na bomba do motor, então, no momento da interceptação, a frota estava prestes a afundar, antes disso os camaradas lutavam para tirar a água que estava entrando”. Mas, ela conta que as forças israelenses normalmente costumam levar aos portos de Ashkelon ou Ashdod.

“Por isso eles assumiram o controle imediatamente, mas nós não contamos a eles que estava afundando. Mas o normal é que eles os levem para o porto, os equipamentos e roubam tudo, é o que fazem. Eles assumem e tomam o barco”, expõe.

Wanner também observa que ter sido sequestrada em águas internacionais, trouxe uma perspectiva maior do genocídio palestino para sua família. “Tornou-se mais real para eles. Quando são questionados e pensam também: ‘por que faz sentido que o mundo aceite pessoas morrendo?’. Mas agora, quando você tem um familiar que está lá, você fica tipo: ‘Meu Deus, eu conheço essa pessoa. Espero que não a matem”, conta.

“Em relação ao governo, nós somos os caras que levaram Israel ao TIJ. Então, nossa posição política sempre foi muito correta. Mas o que estamos pedindo é que sua postura econômica seja igualmente correta”, denuncia.

Zukiswa Wanner possui uma trajetória consolidada na literatura africana e na diáspora, sendo fundadora do festival Afrolit Sans Frontieres e colaboradora frequente da revista Periferias. Suas obras publicadas no Brasil incluem títulos como Madames e Homens do Sul.

Wanner conta que durante seu período na embarcação, não era permitido outros dispositivos além do celular, dessa forma seu processo de escrever o livro foi no celular e enviando constantemente no WhatsApp para não perder o material.

“Durante os cinco dias em que fiquei presa ilegalmente em Ktzi’ot, Israel, eu confiei na minha memória. Cheguei em Joanesburgo numa terça-feira, na quarta-feira eu imediatamente comecei a escrever a parte em que explico o que estou fazendo na Palestina”, conta. Acrescentando que mais ou menos uma semana depois, já tinha terminado a narrativa “que chamamos de interceptação e da saída”.

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