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Israel ocupa, mata e destrói, mas não vence a resistência

Desde 7 de outubro de 2023, Israel mobilizou todo o seu poder militar para tentar reverter a derrota política, militar e psicológica imposta pela resistência palestina.

Para isso, contou com o apoio irrestrito dos Estados Unidos e a cumplicidade militar, diplomática, financeira e logística de governos europeus, regimes árabes e do Marrocos. Mesmo assim, não venceu a guerra contra o Hamas nem alcançou seus objetivos estratégicos fundamentais.

É necessário distinguir superioridade destrutiva de vitória política. Israel demonstrou capacidade para bombardear cidades, assassinar dirigentes e destruir hospitais, escolas, universidades e infraestruturas civis.

Mas não conseguiu eliminar o Hamas, libertar militarmente todos os prisioneiros, impedir a continuidade da resistência ou impor uma administração estável em Gaza. A devastação produzida não se converteu em vitória.

O projeto sionista pretendia ir muito além de Gaza. Seu objetivo era liquidar a resistência palestina, neutralizar o Hezbollah, desarticular o Eixo da Resistência, provocar o colapso da República Islâmica do Irã e estabelecer uma nova ordem regional comandada pelos Estados Unidos e Israel

Os países árabes seriam integrados definitivamente a essa arquitetura, enquanto a questão palestina seria enterrada pelos chamados Acordos de Abraão.

Nada disso se concretizou. O Hamas sobreviveu como força política e militar. O Hezbollah continua sendo um ator decisivo no Líbano. O Irã não colapsou, suas instituições permaneceram funcionando e sua capacidade de resposta foi preservada. A Palestina, longe de desaparecer da agenda internacional, voltou ao centro do debate mundial.

Esse fracasso torna-se ainda mais expressivo diante da coalizão mobilizada em defesa de Israel.

Os Estados Unidos forneceram armas, financiamento, inteligência, proteção diplomática e intervenção militar direta. Potências europeias legitimaram as agressões e bloquearam sanções. Governos árabes disponibilizaram espaço aéreo, bases, informações e estruturas logísticas, enquanto simulavam solidariedade aos palestinos.

Um tanque israelense Merkava Mk das Forças de Defesa de Israel em operação durante treinamento nas Colinas de Golã. <br> (Foto: Michael Shvadron / IDF)

Um tanque israelense Merkava Mk das Forças de Defesa de Israel em operação durante treinamento nas Colinas de Golã.
(Foto: Michael Shvadron / IDF)

A monarquia colonialista marroquina aprofundou a cooperação militar e de inteligência com Israel, em troca do reconhecimento norte-americano da ocupação ilegal do Saara Ocidental.

Essa associação demonstra que o colonialismo sionista na Palestina e o expansionismo marroquino contra o povo saaraui pertencem à mesma engrenagem de ocupação e negação da autodeterminação.

Apesar desse apoio, Israel tornou-se mais dependente dos Estados Unidos. Sua imagem de potência autossuficiente foi substituída pela realidade de um enclave colonial que necessita de pontes aéreas de armamentos, proteção diplomática permanente e participação militar norte-americana.

Quanto mais expande a guerra, mais perde autonomia estratégica e capacidade de definir sozinho o futuro da Ásia Ocidental.

Internamente, a guerra aprofundou as contradições políticas e sociais.

O governo do genocida Netanyahu enfrenta divisões, protestos e acusações de prolongar o conflito para assegurar sua sobrevivência.

O fracasso em alcançar os objetivos anunciados ampliou a desconfiança nas instituições e nas próprias Forças Armadas. A sociedade permanece marcada pelo medo, pela militarização e pela ausência de uma perspectiva real de segurança.

No exterior, o desgaste é ainda maior. Israel passou a ser identificado por parcelas crescentes da opinião pública mundial como um Estado colonial, genocida e de apartheid.

A proteção dos Estados Unidos ainda impede punições proporcionais aos crimes cometidos, mas não consegue recuperar sua legitimidade. Até entre os norte-americanos, especialmente os mais jovens, cresce a rejeição ao regime sionista e ao apoio incondicional de Washington.

Essa derrota estratégica não elimina os danos gigantescos impostos aos povos agredidos. Gaza foi devastada, dezenas de milhares de palestinos foram assassinados e famílias inteiras desapareceram.

No Líbano, os ataques provocaram mortes, deslocamentos e destruição.

No Irã, instalações civis e militares foram atingidas, deixando vítimas e perdas materiais.

Uma análise anti-imperialista consequente não pode transformar a resistência em uma abstração heroica que apague seus mortos. A resistência impediu a realização dos objetivos estratégicos dos agressores, mas pagou um preço humano imenso.

O fracasso de Israel não diminui seus crimes, mas revela que a violência genocida foi utilizada para compensar sua incapacidade de produzir uma vitória política.

Essa é a contradição fundamental: Israel pode destruir, mas não consegue construir uma ordem regional estável.

Pode ocupar territórios, mas não conquistar legitimidade.

Pode assassinar dirigentes, mas não eliminar as causas históricas da resistência.

Pode ampliar a guerra, mas não recuperar a invulnerabilidade destruída em 7 de outubro.

Israel não venceu o Hamas e tampouco conseguiu reorganizar a região sob sua hegemonia.

Ao contrário, aprofundou suas contradições internas, isolou-se na opinião pública internacional, perdeu legitimidade e tornou-se ainda mais subordinado aos Estados Unidos.

Sua superioridade militar produziu devastação, mas não segurança, autonomia ou vitória estratégica.

(*)Sayid Marcos Tenório é historiador, escritor e analista de geopolítica do Oriente Médio. É autor do livro ‘Palestina, do mito da terra prometida à terra da resistência’.

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