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Israel promove filme para contestar documentário sobre mortes de civis em Gaza

O governo de Israel está promovendo um filme online intitulado NAZA: A História Real, produzido para contestar as conclusões do documentário NAZA, dirigido pelos cineastas vencedores do Oscar Yuval Abraham e Rachel Szor. A produção original detalha os assassinatos em massa de civis palestinos em Gaza e está em cartaz nos cinemas, com exibição prevista em mais de 50 países.

Nos últimos dias, embaixadas israelenses divulgaram o link do novo filme, que imita elementos do estilo do documentário original, incluindo entrevistas anônimas gravadas nos telhados de Tel Aviv. A produção está hospedada em um site específico.

O domínio foi registrado em 16 de setembro, seis dias após a estreia de NAZA no Festival Internacional de Cinema de Veneza, onde o documentário recebeu o prêmio especial do júri, após a mais longa ovação da história do festival.

Vale ressaltar, que o site se apresentava falsamente como uma página promocional do documentário original, identificando Abraham e Szor como diretores e listando festivais nos quais o filme seria exibido. O texto de apresentação também distorcia a sinopse da obra, retirando referências às mortes de civis palestinos.

A frase foi removida após a inclusão do vídeo NAZA: A História Real na página. Atualmente, o site exibe um contador que sugere mais de 42 milhões de visualizações para o novo filme, embora a página oficial no YouTube registre apenas 30 mil.

Segundo uma análise técnica do jornal britânico The Guardian, a discrepância indica que a contagem pode ter sido influenciada por solicitações feitas ao site, por pessoas ou bots, em vez de refletir o número real de espectadores. Questionado sobre a origem dos 42 milhões de acessos, Ariel Averbuch, advogado israelense, reservista do Exército e produtor do novo documentário, afirmou que não sabia e encaminhou as perguntas à sua equipe de tecnologia.

O próprio autor do documentário, em uma entrevista, descreveu a produção como uma “jogada ofensiva” para desviar a atenção internacional das acusações de que militares israelenses matam civis. O filme sustenta que Israel possui o “exército mais moral do mundo” – argumento que costuma ser utilizado pelo premiê israelense Benjamin Netanyahu em viagens internacionais.

Averbuch é fundador de uma organização que afirma conduzir uma “guerra de influência”, inclusive por meio da publicação de roteiros destinados a ajudar influenciadores a criticar o trabalho anterior de Abraham e Szor, Sem Chão (No Other Land, 2024) sobre a destruição da aldeia palestina de Masafer Yatta, que ganhou o Oscar de Melhor Documentário em 2025  – os codiretores palestinos desse filme, Basel Adra e Hamdan Ballal, foram detidos pelo Exército israelense.

Além de Averbuch, outro cineasta listado no site é Roi Danino, candidato do partido de direita Israel Primeiro.

Filmado à noite, nos telhados de Tel Aviv, o filme revela em detalhes os sistemas por trás do assassinato em massa, calculado, de civis palestinos em Gaza por Israel <br / >Foto: Divulgação
Filmado à noite, nos telhados de Tel Aviv, o filme revela em detalhes os sistemas por trás do assassinato em massa, calculado, de civis palestinos em Gaza por Israel
Foto: Divulgação

Pressão contra os cineastas e tentativa de desacreditar o documentário

Desde os ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023, o Exército israelense matou mais de 73 mil palestinos em Gaza, em uma campanha militar que uma comissão das Nações Unidas descreveu como genocídio.

O documentário original reúne 24 entrevistas com militares israelenses e detalha como um aparato de vigilância em massa, auxiliado por inteligência artificial, foi utilizado durante a guerra. A produção expõe os sistemas empregados para identificar e atingir integrantes do Hamas, mesmo com o conhecimento de que um grande número de civis palestinos também morreria.

Os cineastas afirmam ter conversado com mais de 100 fontes sobre as ações de Israel em Gaza. Em resposta ao documentário, as Forças de Defesa de Israel divulgaram um relatório de dez páginas, baseado em entrevistas com mais de 100 fontes que conhecem os sistemas militares utilizados na guerra.

A embaixada de Israel nos Estados Unidos, que compartilhou o novo filme nas redes sociais, afirmou que o Ministério das Relações Exteriores não participou de sua produção. Segundo a representação diplomática, a intenção era apenas “amplificar a mensagem de seus criadores” e apresentar ao público argumentos que, segundo a embaixada, contestam as acusações contra Israel.

Na quinta-feira, o governo israelense anunciou que concederia aos responsáveis pelo novo documentário um certificado de reconhecimento por sua “contribuição à diplomacia pública israelense”. A justificativa foi a alegação de que o filme havia alcançado dezenas de milhões de visualizações.

Em nota, o jornal The Guardian, responsável pela produção do documentário original, afirmou estar ciente de que o governo israelense promovia um filme hospedado em um site que inicialmente alegava, de maneira falsa, ser a obra de Abraham e Szor. O jornal classificou a iniciativa como uma tentativa de enganar o público e desviar a atenção das questões levantadas pelo documentário.

Uma semana após a estreia de NAZA, o Ministério da Cultura de Israel anunciou uma investigação formal sobre o filme e pediu que a cidadania de Abraham e Szor fosse cassada. O governo israelense também denunciou a produção, acusando os cineastas de traição.

Autoridades israelenses têm se mobilizado para desacreditar o documentário, enquanto ativistas de extrema direita ameaçaram perseguir seus diretores. O chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel, Eyal Zamir, afirmou que os militares usariam “todas as ferramentas à nossa disposição” contra a produção.

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