A Jornada Internacional da Fundação Perseu Abramo, realizada no contexto do 8º Congresso do Partido dos Trabalhadores, promoveu nesta quinta-feira (24) um debate contundente sobre a atual configuração geopolítica sob a influência de Donald Trump. Intitulado “As guerras de Trump e os desafios da esquerda”, o painel reuniu lideranças políticas e diplomatas para analisar como a imprevisibilidade da política externa estadunidense e o avanço do imperialismo sobre recursos naturais e energéticos impõem novos obstáculos à soberania dos povos, desde a América Latina até o Oriente Médio.
A abertura dos debates trouxe a perspectiva crua de quem combate a extrema direita dentro das fronteiras dos Estados Unidos. Jana Silverman, coordenadora do Comitê Internacional do Democratic Socialists of America (DSA), expressou o sentimento de vertigem que domina a análise política atual. Segundo Silverman, o grande perigo das investidas de Trump reside na ausência de um “roteiro” ou protocolo. “Muitas vezes me sinto triste ao ler as notícias; não sabemos se partirão para a violência física direta, pois essas guerras não seguem a cartilha convencional”, comentou. Ela enfatizou que o militarismo do presidente norte-americano não é um fenômeno isolado, mas uma herança exacerbada de mandatos anteriores, citando o bloqueio a Cuba que remonta à era Eisenhower nos anos 1950.
Silverman destacou, contudo, uma mudança tectônica na opinião pública norte-americana: pela primeira vez em décadas, há um isolamento das políticas pró-guerra. Hoje, fatias crescentes da população, especialmente os jovens, identificam-se mais com a causa palestina do que com o Estado de Israel. Ela relembrou a mobilização histórica de 3 de janeiro, quando o DSA e outros grupos organizaram ações em 50 cidades sob um inverno rigoroso para frear ímpetos bélicos contra o Irã e denunciar tentativas de desestabilização na Venezuela, reforçando que a responsabilidade da militância no “coração do império” é usar seu poder como eleitores e consumidores para sabotar a máquina de guerra.
A análise técnica e estratégica ganhou profundidade com a intervenção de Ualid Rabah, presidente da Federação Árabe Palestina do Brasil (Fepal). Rabah situou o conflito no Oriente Médio não como uma disputa religiosa, mas como um projeto de expansão de “espaço vital”, a chamada “Grande Israel”, que funcionaria como um braço logístico e energético dos Estados Unidos. Ele alertou para a importância vital do Estreito de Ormuz, por onde transitam 25% do petróleo mundial, correspondendo a mais de 20 milhões de barris por dia, ressaltando que qualquer faísca na região tem o potencial de paralisar a economia global, afetando inclusive o agronegócio brasileiro, dependente em 85% de fertilizantes importados.




Ao abordar a tragédia humanitária em Gaza, Rabah trouxe dados alarmantes, citando projeções do periódico científico The Lancet que indicam um rastro de destruição que vai muito além das mortes diretas, alcançando 366 mil vítimas fatais projetadas e o extermínio de gerações, catorze mil mães mortas e cerca de cinquenta mil nascimentos impedidos. Para ele, o Brasil surge como a “primeira potência não imperialista possível”, uma força humana e natural capaz de liderar a transição para um mundo multipolar que rompa com a supremacia do dólar e o sistema de sanções.
A resistência institucional foi personificada pelos embaixadores de Cuba e do Irã. Víctor Manuel Cairo Palomo, embaixador de Cuba, descreveu o bloqueio de seis décadas como uma “guerra constante” que agora mira o coração da infraestrutura da ilha. O ataque ao sistema energético cubano e às brigadas médicas internacionais é, segundo Palomo, uma tentativa de forçar o fracasso do modelo socialista por meio do desabastecimento. Ele convocou o PT e a militância brasileira a intensificarem a solidariedade prática, sugerindo projetos como a criação de parques solares com apoio brasileiro para garantir a soberania energética de Cuba.
Encerrando as reflexões com uma lente filosófica e estratégica, o embaixador do Irã, Abdollah Nekounam Ghadirli, propôs uma divisão clara do mundo atual em dois eixos: o que busca liberdade e justiça, e o que busca impor poder sobre outrem. Ghadirli alertou que as potências bélicas, especialmente o eixo EUA-Israel, atuam como “cupins” dentro das organizações de esquerda, tentando esvaziar suas bases ideológicas para torná-las inofensivas. “Se não tivermos uma visão estratégica e ampla, focando apenas no básico, não chegaremos a uma conclusão adequada”, advertiu, pedindo que os partidos progressistas protejam suas fundações ideológicas contra a erosão causada pela guerra.
O encontro reafirmou que o desafio da esquerda mundial frente às “Guerras de Trump” exige mais do que retórica: demanda uma articulação econômica e política capaz de oferecer alternativas ao isolacionismo e à violência, tendo o Brasil como um mediador indispensável nesse novo arranjo de forças.
Leia outras notícias sobre a Jornada Internacional
Eleições e América Latina: organização popular e solidariedade internacional
Jornada Internacional, organizada pela FPA para o 8º Congresso do PT, reuniu representantes de Cuba, Colômbia, México e Brasil…
Fundação Perseu Abramo discute cenário internacional com lideranças partidárias da América Latina
Os seminários debateram o contexto atual do continente e a geopolítica a partir das últimas movimentações dos Estados Unidos…