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Julgamento do Palestine Action começa em Londres sob críticas a leis antiterror

O julgamento de seis membros do Palestine Action — grupo de ação direta pró-Palestina proibido pelo governo britânico em julho — teve início nesta segunda-feira (17) no Woolwich Crown Court, em Londres. Eles são acusados de arrombamento qualificado, dano criminal e desordem violenta por ações contra a empresa israelense Elbit Systems, em Filton, Bristol, em agosto de 2024.

Os réus, identificados por apoiadores como Zoe Rogers, Fatema Zainab (Ray) Rajwani, Jordan Devlin, Samuel Corner, Charlotte “Lottie” Head e uma ativista conhecida apenas como Ellie, foram detidos no local da ação e permanecem presos há mais de um ano — ultrapassando o limite legal britânico de seis meses de detenção pré-julgamento.

O caso é o primeiro de uma série de processos envolvendo os chamados “Filton24”, grupo mais amplo de 24 ativistas detidos em diversas fases de operações policiais.

O que é o Palestine Action

Criado em 2020 por Huda Ammori e Richard Barnard, o Palestine Action utiliza ações diretas não armadas para interromper operações de empresas envolvidas na cadeia de armamentos ligados a Israel. O grupo afirma que busca impedir a participação britânica em crimes de guerra e acusa o governo de cumplicidade com a política israelense na Faixa de Gaza.

Seus integrantes já picharam prédios com tinta vermelha — marca registrada das ações — bloquearam entradas de fábricas, ocuparam telhados e danificaram equipamentos militares. Com a guerra de Israel em Gaza, iniciada em outubro de 2023, o ritmo das intervenções aumentou, incluindo ataques de tinta ao quartel-general da BBC, em protesto contra o que consideram viés pró-Israel da emissora.

O ataque à Elbit em Filton e a onda de prisões

No episódio central do julgamento, em 6 de agosto de 2024, ativistas entraram na unidade da Elbit Systems em Bristol e destruíram drones quadricópteros supostamente usados em operações israelenses em Gaza. O dano foi estimado em mais de 1 milhão de libras.

Seis pessoas foram presas na hora. Outras quatro foram detidas em operações nacionais nos dias seguintes; em novembro, novas batidas elevaram o total de detidos a 18. Por fim, em junho de 2025, uma última operação levou o número a 24 presos.

Embora inicialmente acusados de terrorismo, os crimes foram posteriormente reclassificados para acusações comuns, mas ainda assim a maioria teve a liberdade provisória negada. A situação provocou protestos e levou ao início de greves de fome em novembro de 2025, com ativistas denunciando abusos nas prisões, como restrições a visitas e a confiscação de kefiyyehs (lenços palestinos) dos visitantes.

Por que o grupo foi classificado como “terrorista”

Em julho de 2025, logo após uma ação em que ativistas invadiram a base aérea Brize Norton e pintaram com tinta vermelha motores de dois Airbus Voyager, o Parlamento britânico votou pela proscrição do Palestine Action como organização terrorista.

A medida tornou crime aderir, apoiar ou promover o grupo — punição de até 14 anos de prisão — e equiparou a organização a grupos armados como al-Qaeda e ISIS. O governo afirmou agir por motivos de segurança nacional e descreveu as ações como “agressivas” e “intimidatórias”.

No mesmo dia, duas entidades de extrema direita — Maniacs Murder Cult (MMC) e Russian Imperial Movement (RIM) — também foram adicionadas à lista de organizações terroristas.

Críticas à proscrição e ao tratamento dos detidos

A decisão de classificar o Palestine Action como grupo terrorista provocou forte reação:

  • A ONU, por meio do alto-comissário Volker Türk, alertou para “uso indevido” das leis antiterror, já que o grupo não é armado e nunca causou mortes.
  • A Anistia Internacional chamou a medida de “perturbadora” e acusou o governo de sufocar protestos legítimos.
  • Especialistas em direitos civis afirmam que a proscrição representa um precedente perigoso, ampliando o alcance de leis feitas para enfrentar ataques violentos e não ações de desobediência civil.

A perseguição penal também se tornou uma vitrine da postura do governo Starmer diante do crescente movimento pró-Palestina. Somente no dia 4 de outubro, 500 pessoas foram presas em Londres por supostamente “apoiar uma organização proscrita”.

A cofundadora Huda Ammori conseguiu autorização judicial para contestar a proscrição, com audiência marcada para 25 a 27 de novembro.

Outras ações do grupo e impacto político

O Palestine Action tem histórico de intervenções em instalações ligadas ao setor militar, incluindo:

  • invasões ao complexo Ferranti, da Elbit, em Oldham (2020–2022);
  • ocupação de fábrica de drones em Leicester, em 2021;
  • ação com bombas de fumaça na fábrica da Thales, em Glasgow (2022);
  • ocupação de um prédio da Elbit em New Hampshire (EUA), em 2023.

Embora nenhuma das ações tenha causado feridos, o custo material — em alguns casos, milhões de libras — e a repercussão política ampliaram pressões sobre o governo britânico, que busca equilibrar a proteção a protestos legais com o endurecimento contra danos patrimoniais e interferência em instalações militares.

O que esperar do julgamento

O processo no Woolwich Crown Court será um marco para a relação entre protesto político e legislação antiterror no Reino Unido. A defesa deve argumentar que os réus agiram por razões de consciência e que sua detenção prolongada é ilegal; já a promotoria sustenta que os danos foram graves, planejados e motivados por objetivos políticos.

Se os acusados forem condenados, o caso poderá reforçar o uso de leis severas contra ativismo político. Se absolvidos, tende a fortalecer o argumento de que a proscrição do Palestine Action foi excessiva e incompatível com o direito à manifestação.

O julgamento, portanto, transcende os seis ativistas no banco dos réus: ele coloca em questão o limite entre desobediência civil, sabotagem e terrorismo — e o rumo das políticas britânicas para o conflito Israel-Palestina.

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