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Juventude e Esquerda: um adeus?

Arte: Edvard Munch

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Título original:
Juventude, sofrimento e política: o futuro em disputa no Brasil

O artigo recente de Márcio Pochmann, “A insegurança estrutural da juventude brasileira”, publicado em Outras Palavras, oferece um diagnóstico acurado ao deslocar o sofrimento psíquico juvenil do plano individual para o social. Mas há um ponto em sua análise que precisa ser tensionado: a ideia de que esse sofrimento ainda não se traduziu em organização coletiva.  Talvez o problema não seja a ausência de organização, mas o fato de que ela já está ocorrendo — em direção oposta àquela esperada pela esquerda.

Baseado na pesquisa PeNSE do IBGE, o autor identifica um aumento consistente de sentimentos de ansiedade, tristeza e solidão entre os jovens, associando esse fenômeno às transformações estruturais provocadas pelo neoliberalismo no Brasil: perda de dinamismo econômico, enfraquecimento das promessas de mobilidade social e reconfiguração das formas de poder e socialização.

Com ênfase na relação entre mundo do trabalho e subjetividade, Pochmann observa que, embora componha uma geração mais escolarizada do que as anteriores, “a juventude passou a encontrar um mercado de trabalho mais precário, instável e fragmentado”. Nesse sentido, a “educação continua sendo apresentada como caminho de ascensão, mas a correspondência entre esforço e recompensa se enfraqueceu”.

O aumento desse vão produz, inevitavelmente, um profundo sentimento de insegurança e frustração. No entanto, como o próprio autor destaca, esse quadro não pode ser reduzido a uma leitura superficial sobre os efeitos das redes sociais. A ansiedade juvenil “não nasce apenas da hiperconectividade, mas da experiência concreta de um mundo que pouco acolhe”, marcado pela escassez de oportunidades, pela fragilidade dos vínculos e pelo bloqueio do futuro.

Nesse contexto, o neoliberalismo não opera apenas como política econômica, mas como forma de experiência social. “Ele dissemina a sensação de que não há alternativa, de que cada indivíduo deve resolver sozinho problemas que são coletivos. Mesmo informados, conectados e escolarizados, muitos jovens percebem que poucas portas realmente se abrem”. O resultado, segundo o autor, é uma geração marcada pela “incerteza estrutural”.

No campo da política, porém, Pochmann sustenta que esse mal-estar “ainda não se traduziu em revolta organizada”, manifestando-se de forma “difusa, íntima e silenciosa”. É aqui que o diagnóstico precisa ser tensionado.

Isso porque a questão central talvez não seja a ausência de organização, mas a sua direção política.

Os dados recentes indicam um deslocamento nessa direção. A pesquisa “Juventudes: Tarefa Pendente” (2025), da Fundação Friedrich-Ebert-Stiftung, mostra que o Brasil apresenta um dos mais altos níveis de identificação da juventude com a direita: 38% dos jovens se posicionam nesse campo, sendo 17% na extrema-direita — o maior percentual em toda a América Latina. Em comparação, apenas 18% se identificam com a esquerda.

Quando observados em perspectiva histórica, esses números revelam uma transformação profunda. No início dos anos 2000, levantamentos como o “Perfil da Juventude Brasileira” (Fundação Perseu Abramo) indicavam maior presença da esquerda e uma extrema-direita ainda marginal. Duas décadas mais tarde, o quadro se inverte: a extrema-direita praticamente triplicou sua presença entre os jovens (de 6% para 17%), enquanto a esquerda perdeu cerca de um terço (de 27% para 18%).

Esse deslocamento também se expressa no plano eleitoral. Dados recentes da Atlas Intel indicam que cerca de 72% dos jovens desaprovam o governo federal. Ao mesmo tempo, candidaturas associadas à direita liberal e à extrema-direita apresentam desempenho desproporcional nesse segmento. Nomes como Renan Santos, candidato do Partido Missão/MBL, alcançam patamares de intenção de voto entre jovens muito superiores à sua média geral, chegando a disputar com Flávio Bolsonaro e Lula entre os eleitores 16 e 24 anos.

O que os dados indicam, portanto, é que a revolta da juventude não está necessariamente difusa. Ela encontrou novas formas de expressão política — ainda que por meio de canais, linguagens e repertórios distintos daqueles das gerações anteriores.

A questão que se impõe, então, é mais incômoda: por que, diante de um cenário de precarização, insegurança e bloqueio de futuro — cujas causas estão estruturalmente associadas ao neoliberalismo — a juventude tem encontrado respostas mais convincentes justamente em plataformas políticas que tendem a aprofundar essas mesmas condições?

Parte da resposta passa por uma autocrítica da esquerda institucional. Ao longo das últimas décadas, a esquerda, incapaz de formular uma alternativa programática ao neoliberalismo, acabou reduzindo-se ao pragmatismo eleitoral, oferecendo melhorias pontuais enquanto mantinha, no essencial, um sistema político submetido ao capital financeiro — com representação popular forte na forma, mas precária no conteúdo.

Ao estreitar o horizonte da imaginação política para o campo do possível, a esquerda assumiu para si a tarefa histórica de se tornar uma espécie de defensora — ainda que crítica — da ordem social existente. Foi nesse movimento que se abriu uma avenida para que grupos da ultradireita atravessassem, sem dificuldade, as massas de pessoas revoltadas e indignadas com o sistema, oferecendo a elas não apenas respostas simples (e, em geral, enganosas) aos seus problemas, mas também novos imaginários coletivos pelos quais pudessem acreditar, sonhar e lutar.

É nesse terreno que se articula uma combinação estranha, mas politicamente eficaz entre fundamentalismos religiosos, reacionarismos conservadores, extremismos antidemocráticos, influenciadores digitais e oportunistas financeiros. Apesar de sua heterogeneidade, todos compartilham uma mesma gramática: a esquerda e a ordem neoliberal passam a ser percebidas como partes de um mesmo sistema — velho, disfuncional, demagogo, injusto e excludente. Incapaz, portanto, de oferecer futuro.

A questão que se coloca, então, é menos sobre o diagnóstico do presente e mais sobre a capacidade de intervenção sobre o futuro. Como reconstruir um projeto de transformação social capaz de articular desenvolvimento material e sentido coletivo? Como disputar o imaginário em um contexto em que o neoliberalismo não apenas organiza a economia, mas coloniza a própria ideia de possibilidade? E como dialogar com uma juventude que já não reconhece a esquerda como força política indutora de futuro? É nesse deslocamento, entre diagnóstico e imaginação, que se encontra um dos principais desafios do nosso tempo.

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