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Kast inicia governo no Chile com medidas contra trabalhadores e alinhamento a Trump

O novo governo chileno, liderado pelo pinochetista José Antonio Kast, iniciou sua gestão com um pacote de medidas que combina ajuste fiscal, retirada de iniciativas favoráveis aos trabalhadores, avanço de projetos extrativistas em parceria com os Estados Unidos, flexibilização ambiental e endurecimento da política migratória.

As decisões incluem a retirada de um projeto de negociação trabalhista sob pressão empresarial, corte de 3% nos gastos públicos, acordo com Donald Trump para exploração de terras raras, retirada de decretos ambientais e a construção de barreiras físicas na fronteira com o Peru, delineando as primeiras diretrizes do novo governo.

Na área econômica, o governo Kast iniciou a implementação de um ajuste fiscal com corte de 3% nos orçamentos ministeriais, medida que também alcança o Poder Judiciário. 

O corte foi formalizado por ofício assinado pelo novo ministro da Fazenda, Jorge Quiroz, e integra um plano que busca economizar cerca de US$4 bilhões no curto prazo e até US$6 bilhões em 18 meses. 

A presidente da Corte Suprema, Gloria Ana Chevesich, afirmou que a medida “vai afetar a continuidade” do funcionamento do Judiciário e alertou para possíveis dificuldades no pagamento de salários, manutenção de equipes e atendimento à população.

Por outro lado, o plano econômico de Kast também inclui a redução do imposto corporativo de 27% para 23%, além da manutenção de mecanismos como a reintegração tributária, que permite aos acionistas utilizar o imposto pago pelas empresas como crédito pessoal. 

A estimativa é que essas medidas reduzam a arrecadação em mais de US$3,5 bilhões por ano. 

No campo ambiental, a nova gestão retirou 43 decretos da Controladoria que tratavam de poluição, biodiversidade e áreas protegidas, suspendendo a entrada em vigor de um conjunto de normas voltadas à qualidade do ar, controle de emissões industriais, gestão de resíduos e conservação ambiental.

A medida afeta diretamente setores como mineração, energia e indústria florestal, além de territórios sensíveis como salares e zonas de alto valor ecológico. 

A postergação dessas regulações pode alterar prazos e exigências ambientais, além de manter condições críticas em regiões já expostas a contaminação, como Quintero, Puchuncaví e Huasco.

Paralelamente, o governo confirmou um acordo com os Estados Unidos para exploração de terras raras, com foco na região do Biobío, onde se localiza o projeto minerador da empresa Aclara Resources. 

O empreendimento, situado entre Penco e Lirquén, enfrenta resistência de comunidades locais e já passou por cinco processos de licenciamento ambiental entre 2016 e 2023, com questionamentos sobre impactos ambientais e ausência de informações nos estudos apresentados. 

Em consulta comunitária realizada em 2022, 99% dos participantes votaram contra a mineração na região.

Na política migratória, o governo iniciou em 16 de março de 2026 a construção de uma barreira física na fronteira com o Peru, na região de Arica e Parinacota, como parte do plano denominado “Escudo Fronteiriço”. 

A obra prevê a instalação de muros de até cinco metros de altura, valas de três metros de profundidade e largura, além de cercas e sistemas de vigilância. A primeira etapa inclui uma vala de 30 quilômetros, com prazo de execução de 90 dias, e o plano completo pode alcançar mais de 520 quilômetros de extensão.

A operação é supervisionada por forças militares e mobilizou cerca de 600 agentes, o dobro do contingente anterior na região. 

O efetivo inclui operadores de maquinário pesado, equipes de fiscalização e uso contínuo de drones. As obras se concentram em áreas próximas à rodovia Panamericana e já são visíveis entre Tacna, no Peru, e Arica, no Chile. 

Durante visita ao Complexo Fronteiriço de Chacalluta, Kast afirmou: “Queremos usar as retroescavadeiras para construir um Chile soberano” e declarou que o país teria sido “vulnerado pela imigração ilegal, pelo narcotráfico e pelo crime organizado”.

O governo também anunciou o envio ao Congresso de um projeto de lei que pretende tipificar a migração irregular como crime e estabelecer sanções a empregadores e proprietários de imóveis que facilitem a permanência de migrantes em situação irregular. 

A iniciativa se insere em um contexto regional de endurecimento das políticas migratórias, em meio a fluxos que envolvem principalmente cidadãos venezuelanos. No Chile, há cerca de 337 mil migrantes em situação irregular, enquanto a população total do país gira em torno de 20 milhões de habitantes.

Autoridades do Peru criticaram a construção da barreira. O presidente interino José María Balcázar comparou a medida ao Muro de Berlim e afirmou que esse tipo de iniciativa não resolve problemas estruturais, defendendo cooperação regional e respeito aos direitos humanos. 

A chegada de José Antonio Kast ao poder marca o retorno de uma tradição política ligada ao legado da ditadura de Augusto Pinochet, período em que o Chile foi convertido em laboratório inaugural do neoliberalismo na América Latina sob influência direta dos Estados Unidos. 

Foi nesse contexto que economistas formados na Universidade de Chicago — conhecidos como “Chicago Boys” — implementaram políticas de desregulação, privatização e redução do papel do Estado, consolidando um modelo econômico alinhado aos interesses do capital internacional.

Esse alinhamento voltou a se expressar na recente participação de Kast na cúpula “Escudo das Américas”, convocada por Donald Trump na Flórida, que reuniu lideranças da direita latino-americana em torno de uma pretensa agenda de segurança e cooperação militar sob liderança de Washington. 

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