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Kherima: a história da múmia destruída no incêndio do Museu Nacional

Há oito anos, em 2 de setembro de 2018, um incêndio devastador consumia o Palácio de São Cristóvão, sede do Museu Nacional da UFRJ, destruindo um dos maiores patrimônios científicos e culturais da América Latina. Entre as perdas irreparáveis acarretadas pelo episódio estava “Kherima”, um dos itens mais singulares da coleção egípcia da instituição.

Kherima era a denominação informal dada a uma múmia de uma mulher que viveu em Tebas no começo da Era Comum. Conservada no Brasil há quase dois séculos, ela fascinava os observadores, inspirava contos e lendas e, segundo se dizia, era até mesmo capaz de “provocar transe” nos visitantes.

Não se conhece a verdadeira identidade da múmia ou quaisquer detalhes sobre sua vida. Sabe-se que era uma jovem que tinha entre 18 e 20 anos de idade quando faleceu, por causas indeterminadas. O corpo não apresentava lesões ou vestígios de doenças e os dentes estavam todos preservados. Seus cabelos eram curtos e escuros e os traços étnicos a aproximavam das populações mediterrâneas.

São as características do processo de mumificação de Kherima, entretanto, que a tornavam um exemplar bastante raro. Ao contrário do que ocorre com a grande maioria das múmias egípcias, nas quais o corpo é recoberto por numerosas camadas de bandagens formando uma espécie de invólucro compacto, Kherima apresentava braços, pernas, mãos, pés e até os dedos enfaixados individualmente.

Os contornos femininos foram realçados com o uso de materiais colocados para dar volume às mamas, ao quadril e ao abdômen, criando um efeito visual que fazia com que a múmia lembrasse uma boneca. Os mumificadores tiveram até mesmo o cuidado de pintar as unhas da falecida. Após ser enfaixada, Kherima foi vestida com um luxuoso traje cerimonial que ressaltava sua forma humana. Faixas de linho pintadas e painéis de tecido com símbolos místicos completavam a decoração.

Em todo o mundo, conhecem-se apenas oito múmias egípcias que possuem um tratamento externo comparável ao de Kherima, todas encontradas no mesmo sítio arqueológico, datadas do mesmo período e, possivelmente, originárias do mesmo ateliê de mumificação. É provável que todas as múmias fossem ligadas à elite tebana, mas ainda não há uma explicação para o preparo diferenciado desse conjunto.

Até o início do século 19, Kherima integrava a coleção de antiguidades egípcias do explorador Giovanni Battista Belzoni, o “pai da egiptologia”, responsável por coordenar as escavações da Necrópole de Tebas e do Templo de Karnak. A múmia foi posteriormente repassada a Nicolau Fiengo, um marchand italiano.

Fiengo pretendia levar a coleção para a Argentina, possivelmente por encomenda do presidente Bernardino Rivadavia, mecenas e fundador da Universidade de Buenos Aires. Um bloqueio no Rio da Prata, entretanto, impediu Fiengo de concluir a viagem. Ao desembarcar no Rio de Janeiro em 1826, o comerciante ofereceu as peças em um leilão. O imperador Dom Pedro I arrematou a coleção completa por cinco contos de réis, doando-a em seguida ao Museu Nacional do Rio de Janeiro.

Kherima sempre esteve entre os destaques do acervo egípcio do Museu Nacional, despertando enorme curiosidade entre os visitantes. A múmia também protagonizou episódios inusitados — incluindo um particularmente cômico que ocorreu em 1955, após a morte de Carmen Miranda. Quando a população foi informada que Carmen fora embalsamada, centenas de pessoas interpretaram como “mumificada” e correram até o Museu Nacional para depositar flores no ataúde de Kherima.

Múmia Kherima em julho de 2018. <br / > Wikimedia Commons

Múmia Kherima em julho de 2018.
Wikimedia Commons

A múmia também foi objeto de polêmicas experiências parapsicológicas conduzidas pelo professor Victor Staviarski na década de 1960. Reportagens da época atestavam que centenas de pessoas teriam entrado em transe durante as sessões.

Foi durante uma dessas experiências que se forjou a alcunha da múmia. Uma aluna supostamente teve uma visão após encostar no corpo e voltou do transe dizendo que a mulher era uma princesa tebana chamada Kherima.

Outra sessão resultou na danificação da múmia, quando um aluno em transe se agarrou com tanta força aos pés de Kherima que arrancou alguns de seus dedos. Após o episódio, os alunos da UFRJ exigiram o fim das experiências parapsicológicas. Mais recentemente, o egiptólogo Antonio Brancaglion Junior afirmou ter presenciado alunos da universidade sendo acometidos de “mal súbito” ao participarem de palestras ao lado da múmia.

A múmia Kherima atravessou mares e oceanos, visitou três continentes e resistiu ao teste do tempo por 2.000 anos. Não sobreviveu, entretanto, às consequências do subfinanciamento crônico e das políticas de austeridade fiscal que levaram ao sucateamento das universidades federais.

Além de Kherima, o incêndio do Museu Nacional destruiu 6 das 7 múmias egípcias humanas conservadas no Brasil — incluindo a cantora Sha-Amun-en-su, o sacerdote Hori e o alto funcionário Harsiese. Múmias de gatos, crocodilos, íbis e restos humanos mumificados também foram destruídos no incêndio, bem como os únicos quatro esquifes egípcios completos que existiam em coleções públicas da América do Sul.

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