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Laura Cardoso: a despedida de uma atriz que parecia não ter fim

O Brasil amanheceu nesta terça-feira (18) com a sensação estranha de que alguma coisa muito antiga havia terminado. Morreu, aos 98 anos, Laura Cardoso, uma das maiores atrizes da história da dramaturgia brasileira. Nascida em 1927, no Bixiga, em São Paulo, ela faria 99 anos em setembro.

Laura morreu em casa, no bairro do Sumaré, na Zona Oeste da capital paulista, de causas naturais. O velório será realizado na Bela Vista, das 8h às 14h. A família anunciou a morte pelas redes sociais e afirmou que a atriz permanecerá para sempre na memória de seu público.

Talvez seja justamente essa a particularidade de determinadas vidas artísticas: elas deixam de pertencer inteiramente à pessoa que as viveu. Laura Cardoso entrou durante décadas nas casas brasileiras pela televisão, pelo rádio e pelo teatro. Seus personagens envelheceram, morreram, voltaram em reprises e permaneceram vivos na memória de quem os acompanhou.

A menina do Bixiga que virou patrimônio da cena

Filha de imigrantes portugueses, Laura queria ser atriz desde criança. Aos 16 anos, começou a trabalhar no rádio. Vieram depois o circo e o teatro, até a estreia na televisão, em 1952, na TV Tupi.

Era o início de uma carreira que atravessaria diferentes fases da cultura brasileira. Laura participou de mais de 60 novelas e de inúmeras peças teatrais, além de trabalhos no cinema e na dublagem.

Mais importante que a quantidade, porém, foi a capacidade de desaparecer dentro das personagens. Ela poderia ser uma mãe aflita, uma avó amorosa, uma matriarca autoritária, uma mulher moralista, uma vigarista ou uma senhora aparentemente frágil que escondia uma história de vingança.

Seu instrumento mais sofisticado não era a voz. Eram os olhos.

Laura pertencia àquela rara linhagem de intérpretes capazes de sugerir uma história antes mesmo de pronunciá-la. Um olhar seu podia carregar ressentimento, ternura, desconfiança, medo ou esperança. E frequentemente o fazia sem pressa, como quem conhecia o valor dramático do silêncio.

Uma atriz dentro das contradições do Brasil

A longa trajetória de Laura também pode ser lida como uma espécie de inventário da sociedade brasileira.

Em “Mulheres de Areia”, interpretou Isaura, mãe das gêmeas Ruth e Raquel, numa história sobre maternidade, ciúme e favoritismo. Em “A Viagem”, participou de uma trama marcada pela espiritualidade e pela discussão sobre vida e morte. Em “Gabriela”, viveu Doroteia, a beata que fiscalizava a moral alheia enquanto escondia um passado que desmontava sua própria autoridade moral.

Não era necessário que Laura fizesse discursos políticos para que seus personagens trouxessem questões políticas e sociais à televisão. O coronelismo, o autoritarismo, o preconceito, a desigualdade, a hipocrisia social e as estruturas familiares rígidas apareceram muitas vezes nas histórias que ela ajudou a contar.

Em “Irmãos Coragem”, esteve no universo do conflito entre trabalhadores e poderes locais. Em “Fera Radical”, participou de uma trama atravessada pela violência no campo e pela busca por justiça. Em “Explode Coração”, como a cigana Soraya, esteve em uma narrativa que abordava preconceito e choque cultural.

A atriz não precisava ser uma militante partidária para interpretar um país em disputa consigo mesmo.

A política fora dos partidos

Laura Cardoso manteve distância das militâncias partidárias tradicionais. Suas declarações públicas eram marcadas mais pelo ceticismo em relação à política institucional do que pela adesão a uma legenda.

Criticava governantes e demonstrava indignação com a corrupção e a falta de eficiência do poder público. Ao mesmo tempo, defendia a cultura e a educação como elementos fundamentais para uma sociedade.

Fazia questão de votar, entendendo o sufrágio como dever de cidadania. Sua posição era menos a de uma atriz partidária e mais a de uma cidadã que observava, com desconfiança, os donos ocasionais do poder.

Essa independência talvez ajude a explicar por que sua imagem atravessou diferentes campos políticos sem ficar confinada a nenhum deles.

“Eu amo representar”

A frase que talvez melhor resuma Laura Cardoso não é uma fala de novela, mas uma declaração sobre o próprio ofício:

“Eu amo representar, quer me ver, põe eu no palco, na televisão, no rádio, no circo.”

Ela não escondia a idade. Ao contrário, parecia ter feito das marcas do tempo uma espécie de credencial profissional.

“Eu não me sinto velha”, dizia. “Trabalho me motiva para viver.”

E continuou trabalhando.

Aos 90 anos, surpreendeu novamente o público em “O Outro Lado do Paraíso”, como uma dona de bordel. Antes disso, acumulara personagens que já pertenciam ao imaginário nacional. Em 2017, recebeu pela terceira vez o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro de melhor atriz coadjuvante, por “De Onde Eu Te Vejo”.

Recebeu também reconhecimento institucional, entre eles a Ordem do Mérito Cultural, distinção que expressava algo maior que uma premiação individual: o reconhecimento de sua contribuição para a cultura brasileira.

O palco fica vazio, mas a personagem permanece

Laura Cardoso dizia considerar-se uma “operária da dramaturgia”. Talvez a expressão seja mais precisa do que qualquer título honorífico.

Ela construiu sua carreira antes que a televisão se transformasse na indústria cultural gigantesca que viria a ser. Trabalhou quando o teatro era uma aventura, a televisão era feita muitas vezes ao vivo e o rádio era uma das principais janelas para o imaginário coletivo.

Atravessou essas transformações sem abandonar o essencial: o trabalho do ator.

Por isso sua morte não encerra exatamente uma presença. Laura Cardoso continuará aparecendo quando uma novela for reprisada, quando uma personagem sua fizer alguém rir ou chorar, quando um jovem ator estudar uma cena e quando alguém reconhecer naquele rosto envelhecido uma parte da própria história.

Há atrizes que interpretam personagens.

E há artistas que, depois de tanto tempo, passam a interpretar um país.

Laura Cardoso foi dessas.

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