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Lembrança do professor Arlindo Albuquerque, por Urariano Mota 

O meu tipo inesquecível 

A revista Seleções possuía uma seção chamada “Meu tipo inesquecível”. Nela, eram publicados perfis sobre pessoas queridas de vários autores em muitos países. Menino, eu lia aquilo como curiosidade, e ficava um vazio no peito porque não encontrava os verdadeiros inesquecíveis da minha infância suburbana. Era natural a frustração, depois eu soube, porque a revista cumpria a tarefa de espalhar a ideologia capitalista, em uma forma bem esperta.   

Agora, como se estivesse numa seleção de inesquecíveis do Brasil, revejo um dos fundamentais da nossa formação em Água Fria, no Recife. No café da manhã, eu falei sobre ele a Francêsca, a partir da lembrança de Clarice Lispector e poetas do Recife. Recupero o que falei sobre o professor Arlindo Albuquerque, de quem não tenho uma só fotografia. 

À jornalista Christiana Daisy, filha do mestre e pessoa de esquerda, tenho pedido: “como posso ter uma foto do mestre Arlindo, qualquer foto?”. Mas, até agora, nada. Então eu salvo a imagem do professor com as tintas e registro da memória.

Já escrevi sobre ele no livro Dicionário Amoroso do Recife, no verbete “Professor Arlindo, mestre de escola pública”. Entre outas coisas, publiquei que o mestre era pleno de bondade pedagógica, original até a esquisitice, quando formou o espírito daqueles meninos e meninas, nascentes rapazinhos e mocinhas, no Colégio Professor Alfredo Freyre. Na homenagem a nosso inesquecível no livro, escrevi que ele era um apaixonado ao nos ensinar língua portuguesa, humanismo e francês. Sempre a caminhar na sala, com a dicção precisa, mais de uma vez com o entusiasmo na voz, a conversar conosco de igual para igual, para a altura do seu humanismo. Ele nos escolhia como o público ideal para ouvir Jean-Jacques Rousseau. Acreditam nisso, meninos pobres em uma escola pública a ouvir um mestre em voz alta nos contar sobre o prazer de andar a pé?

Agora, acrescento o que não publiquei no Dicionário Amoroso do Recife. 

No café da manhã, lembrei que a partir do texto de Rousseau sobre o prazer de andar a pé, o mestre exclamava: 

– Que prazer! Imaginem estar agoniado, no centro do Recife, à procura  de um banheiro com urgência. E encontrar um no Mercado Público de São José. Ao sentar na privada, que prazer! Que prazer é defecar! 

Os rapazinhos ficavam a sorrir discretos, ao ouvir o mestre falar sobre a felicidade de cagar em palavra educada. Cagar!, e as mocinhas baixavam a vista, com medo que o mestre dissesse tudo. Mas não, o genial é que, apesar do constrangimento de ouvir algo de uso interno, o professor Arlindo Albuquerque retirava da palavra todo conteúdo de excremento, e em seu lugar punha um prazer legítimo, humano, digno de um clássico. Sobre o prazer de defecar quando se tem urgência.  

Pois um dos traços da genialidade do mestre era a sua originalidade. Numa delas, lembro. Os professores do colégio se encantavam com as curvas sedutoras de Solange, a jovem que ia além da saia curta. Lá na primeira fila, a bela escandalizava com as tentadoras coxas morenas que desciam, ou subiam até onde eram tudo. Então, Solange, depois de vencer os professores Amaury, cujos olhos verdes piscavam, e Camelo, a quem dobrava as maiores análises sintáticas, quis vencer o nosso Robespierre. O resultado não se fez esperar: 

– Dona Solange, sente-se direito! Isso não são modos.  

“Que homem esquisito”, Solange deve ter pensado. E escondeu com pudor as coxas.  

A originalidade do mestre não possuía fronteiras. Enquanto os demais professores usavam lições repetidas ao infinito, em todas as salas de aula, o professor Arlindo Albuquerque improvisava. O seu gênio, o seu conhecimento imenso, dos livros às pessoas, do amor glorificado em poesia aos prazeres da mesa regional, do crédito à mais alta literatura ao elogio para Dircinha Batista, quando cantava “Aperto de mão”. E tanto, que ele transformou a música em assunto de redação. 

Será que consigo recuperar o seu entusiasmo ao ouvir de novo esta sublime música? Vídeo aqui:

O mestre falava:

– Que beleza! “Aquele aperto de mão não foi adeus”. Escrevam uma redação com esse título.  

Então hoje, no café da manhã, observei que os poetas do Brasil não possuíam carro. De Manuel Bandeira a Carlos Drummond andavam de ônibus, não importavam a fama e valor. Então lembrei que o professor Amaury era o único a ter um carro, um fusquinha. Um diferencial que fazia os alunos e alunas o respeitarem mais, porque era um homem de outra condição social, imaginem. Ah, o que fazia o mestre Arlindo Albuquerque? Ao nos convidar para a sua casa, ele nos recebeu em um domingo, a mim e a Spinelli, na sala. E nos exibiu, com justa glória:

– Eu não tenho carro. Mas tenho esta biblioteca. 

E abria os braços, feliz. Que lição de conhecimento e amor à cultura para toda a vida, por toda uma vida. A sua maior riqueza eram os livros. O mestre Arlindo Albuquerque não tinha carro, não tinha um som “de última geração”, não possuía móveis importados, mas estudava e lia aqueles maravilhosos objetos humanos de carinho.  Eram seus, eram nossos, dos exemplares às aulas, porque o mestre era generoso de conhecimento. 

Acho que podem ver agora que um mestre assim é inesquecível. Eu e amigos, que crescemos no conhecimento, somos devedores da sua total pedagogia. Ao fim de tudo, esta é a nota mais triste: nem sequer pude retribuir com um texto a imensidão do nosso mestre inesquecível.

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