É quase um senso comum a afirmação de que o processo de digitalização plataformizada contemporânea integra o conjunto de elementos centrais para a compreensão das mudanças políticas, culturais e econômicas da sociedade. Em duas décadas, nos tornamos completamente dependentes de dispositivos digitais que tornaram-se suporte para as mais diversas esferas da vida. Existem aplicativos para tudo, desde nossas contas bancárias, passando pela gestão da vida amorosa, às dinâmicas das interações sociais de comunicação, os modos de informação, até a integração multifacetada das dinâmicas relativas ao mundo do trabalho (seja ele parcial ou totalmente plataformizado, algo sintetizado no neologismo ‘uberização’).
Alguns dos traços característicos da digitalização plataformizada são: a centralização prioritária dos espaços digitais organizados em plataformas; a arquitetura algorítmica automatizada de perfilamento dos usuários e distribuição da informação em formas pré-definidas pela interface das plataformas; a aceleração das temporalidades de diferentes processos que convergem para a temporalidade do digital; a formação do que convencionou-se chamar de “bolhas”, ou seja., esferas fechadas de grupos delimitados por interesses em comum, produzindo identificações que se reforçam e retroalimentam pela própria dinâmica de curadoria algorítmica; e, enfim, a generalização do que o teórico austríaco Robert Pfaller chamou de interpassividade ainda em 1996.
De forma bem simplificada, a interpassividade pode ser definida como um mecanismo de delegação da satisfação, do divertimento ou da crença a um suporte externo, que torna-se suporte desses processos, realizando-os pelos próprios sujeitos. Exemplos clássicos de interpassividade são encontrados, por exemplo, nas “risadas enlatadas” de sitcoms americanas, onde o próprio “efeito cômico” é internalizado no conteúdo midiático, fazendo com que a própria série possa “rir” pelo espectador; ou ainda nas rodas de reza tibetanas, onde pequenos pergaminhos com mantras sagrados são enrolados e inseridos no mecanismo, que passa a girar, movida pelo vento ou pela ação mecânica do próprio monge, realizando assim o ato da reza em seu lugar enquanto sua mente pode divagar livremente. Assim, tanto a risada enlatada quanto a roda de reza “agem” no lugar dos sujeitos, tanto como suporte de um gozo quanto como um suporte da própria crença.
Não encontramos algo similar em diversos dispositivos digitais hoje? Aplicativos operam cada vez mais o processo de curadoria e decisão no lugar dos seus usuários. Em muitos casos, são definidos exclusivamente por esse propósito: eles escolhem nossos gostos, modulam nossas preferências, definem o que vamos ou não assistir, encontrar, escutar, conhecer… Aplicativos recolhem um conjunto de informações dataficadas de seus usuários e produzem um duplo digital, uma expressão de sua própria existência, um simulacro que serve de base para a dedução e indução dos seus gostos, valores, preferências, escolhas. Também é assim com grande parte dos usos de chatbots, que passam a ler, escrever e sintetizar opiniões pelos seus usuários. Conteúdos online também assumem essa forma, como é o caso dos chamados reacts, que servem como suporte para externalizar reações (como sugere o próprio termo), impressões, opiniões e julgamentos sobre o conteúdo a partir do qual se reage para terceiros, isto é., para o público determinado de algum produtor de conteúdo. Enfim, poderíamos dizer que a interpassividade torna-se um elemento fundamental da digitalização plataformizada contemporânea.
Assim, também podemos imaginar maneiras em que a interpassividade, em sua expressão digital, afeta também o campo da política – especialmente em ano eleitoral. As chamadas “ecologias informacionais” estruturadas digitalmente produzem diversas dinâmicas interpassivas de transferência de opiniões e crenças que operam como formadores políticos através de um conjunto de agentes, humanos ou não. Isso interfere diretamente na dinâmica de legitimidade das fontes, o que reestrutura a esfera informacional em dinâmicas que podem, por exemplo, elencar grupos de whatsapp como fonte primária de informação considerada legítima. Tais grupos atuam como um suporte de autenticação e validação, gerando condições para a emergência de regimes pós-factuais. O condicionamento curatorial algorítmico de conteúdos, em plataformas como Instagram ou Tiktok, também produz vieses que enclausuram a exposição informacional em uma dinâmica conhecida como feedback loop – a retroalimentação pelo condicionamento reforçado, que engendra uma circularidade viciada; algo que é fundamental para a estrutura de economia e captura da atenção, extração de dados e manutenção expansiva do engajamento de usuários.
Tudo isso, entretanto, compõe a dinâmica da interpassividade digital, mas não exemplifica sua definição basilar: a delegação. Um caso recente, entretanto, parece expor uma expressão máxima da delegação política à suportes digitais de plataformas: o aplicativo TemMeuVoto, que ficou conhecido como ‘Tinder Eleitoral’, anunciado por Luciano Huck em seu programa de auditório na Globo no dia 27 de setembro, abrindo investigações sobre possível infração da legislação eleitoral. Apresentado como um serviço gratuito e “apartidário”, o aplicativo consiste em um “cálculo de alinhamento” entre eleitor e candidatos após oito perguntas. Diversos relatos apontaram para o viés da plataforma, com usuários de esquerda recebendo indicações de candidatos do partido Novo ou do Missão. Além disso, a deputada federal Fernanda Melchionna (PSOL-RS) acionou a Procuradoria-Geral Eleitoral, o que fez o Ministério Público Federal do Rio Grande do Sul iniciar uma investigação para saber se Luciano Huck e a TV Globo infringiram a lei eleitoral.
Isso não surpreende. O TemMeuVoto é resultado de uma iniciativa da Coalização pelo Voto Consciente, composta por organizações como o RenovaBR e o Instituto Ethos. A primeira, uma espécie de “escola para políticos” criada em 2017 pelo empresário Eduardo Mufarej, conta com o apoio de Luciano Huck desde sua fundação. Na eleição de 2018, o grupo conseguiu eleger 17 dos 120 candidatos vinculados à organização – hoje, mais de “3.600 lideranças passaram pelos nossos programas de formação e 386 foram eleitas entre Senado, Câmara, assembleias estaduais, prefeituras e câmaras de vereadores.” A curta história da organização já virou inclusive livro: “Jornada Improvável”, de autoria do próprio Mufarej. A segunda organização envolvida, o Instituto Ethos, se descreve da seguinte maneira: “O Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social é uma organização social sem fins lucrativos cuja missão é mobilizar, sensibilizar e ajudar as empresas a gerirem seus negócios de forma socialmente responsável, tornando-as parceiras na construção de uma sociedade justa e sustentável.” Fundado em 1998, o instituto oferece serviços de formação e consultoria, ou “organização de conhecimento, troca de experiências e desenvolvimento de ferramentas” para empresas voltadas ao “desenvolvimento sustentável” e à “responsabilidade social.”

(Foto: Sam Barnes / Web Summit Rio via Sportsfile / Wikimedia Commons)
Com todas essas posturas e preocupações sociais de tais organizações, podemos analisar alguns elementos e tendências dos setores sociais representados pelas mesmas. É curioso como, ao mesmo tempo em que reproduzem discursos orientados por supostas preocupações acerca da politização e participação social na vida política, como afirma Mufarej –“é mais fácil comentar sobre o estado da política do que participar dela” –, ao mesmo tempo os mecanismos dispostos pelas iniciativas como o RenovaBR e expressos no exemplo recente da plataforma ‘TemMeuVoto’, demonstram sistematicamente estratégias que seguem para o rumo contrário: ao mesmo tempo em que tanto o RenovaBR como a plataforma são vendidos como “apartidários” e “neutros”, o setor político que incentivam e promovem é evidentemente restrito e imbuído na mais crassa ideologia neoliberal. Evidentemente, a máxima se mantém: o discurso mais ideológico é, via de regra, aquele que se vende como não ideológico.
Mais do que isso, notamos que as estratégias de tais setores, especificamente com o caso da plataforma de indicação de votos, é apostar em uma renovação tecnológica da pós-política – a saber, um modo ideológico de despolitização organizado pelo discurso de superação da própria ideologia no que tange a gestão pública, reduzindo-a meramente ao regime técnico. Nesse sentido, a proposta de uma curadoria semiautomatizada de candidatos em uma plataforma, através de um cardápio digital limitado aos interesses supostamente neutros de seus financiadores, demonstra o interesse de tais setores em produzir justamente processos de delegação dos processos de decisão a suportes digitais. Poderíamos dizer que encontramos uma aposta na interpassividade por parte desses setores. Longe de ser uma contradição absoluta, isso demonstra justamente que tipo de “politização social” tais iniciativas promovem: mecanismos onde terceiros decidem por você, na mesma medida em que produzem uma arquitetura que te dê a sensação de tomar decisões próprias.
Em uma coluna para o Brazil Journal, Mufarej cita o editorial do próprio jornal, que define o sentimento político brasileiro atual na frase “ninguém cuida do circo.” Ele concorda com a constatação de que a “elite econômica brasileira abandonou a praça pública”, indo para o exterior, para o WhatsApp, e para a “reclamação recorrente em encontros sociais e familiares” – seja lá o que isso quer dizer. Em outro momento, ele conclui: “O circo não vai encontrar quem cuide dele por acaso. Alguém vai ter que decidir cuidar, e essa decisão não pode ficar apenas com quem já está cansado de tentar sozinho. É por isso que o convite não é individual, é coletivo.” Assim, seu apelo é pela doação para organizações incubidas de formação política, voltadas justamente para cuidar do circo. Não sem razão: sua organização é voltada para formar tais cuidadores.
No arranjo que foi exposto aqui, fica evidente qual o projeto de cuidado e como ele pretende ser realizado – serviços de terceirização e delegação dos modos de gestão do circo, oferecidos para elites preocupadas com os cabrestos da política brasileira. Mais do que isso, fica claro também quem será o palhaço nesse picadeiro. Resta saber se iremos aplaudir o espetáculo.
(*) Cian Barbosa é sociólogo (UFF), doutor em filosofia (UNIFESP) e doutorando em psicologia (UFRJ), onde integra o Laboratório de Estudos sobre a Subjetividade e Emergências Humanitárias. Pesquisa teoria do sujeito, crítica da cultura, violência, tecnologia, ideologia e digitalização; também é integrante da revista Zero à Esquerda, tradutor e ensaísta, além de professor e coordenador do Centro de Formação — onde encontram-se abertas as inscrições para o curso ‘Marxismo e Psicanálise’. Para mais informações, clique aqui.
O post Luciano Huck e o ‘Tinder Eleitoral’ apareceu primeiro em Opera Mundi.