O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, em artigo publicado no jornal Washington Post neste domingo (26), que as tentativas de impor amarras ideológicas à parceria bilateral entre Brasil e Estados Unidos não se sustentam. “Ninguém vai nos derrotar com base em mentiras”, declarou.
Para o chefe de Estado brasileiro além de injustas, as novas tarifas são um erro estratégico. “Elas prejudicam a economia dos Estados Unidos e a parceria com o Brasil. Diversos segmentos industriais dos Estados Unidos dependem de insumos brasileiros. Alimentos, calçados, têxteis, móveis, autopeças e vários outros produtos chegarão mais caros ao consumidor norte-americano”.
Lula também reiterou que o Brasil tem tentado há mais de um ano negociar com o governo dos EUA para encontrar um caminho diplomático em relação às tarifas, mas que os dados apresentados foram negligenciados pela gestão de Trump.
“Negociações entre nós e decisões da Suprema Corte dos EUA desmontaram a primeira versão do tarifaço. Mas este mês, desconsiderando dezenas de reuniões entre nossas equipes, sólidos argumentos técnicos e documentos que entreguei pessoalmente ao próprio Trump, o governo norte-americano decidiu adotar novas tarifas contra o Brasil que vão de 12,5% a 37,5%”, reiterou.
O presidente brasileiro, no entanto, reiterou que não abrirá mão da soberania nacional e que continuará defendendo os interesses do país até encontrar uma solução para reverter os reais interesses na imposição das tarifas.
“Respeitamos a soberania de outros Estados e negociamos com todos aqueles que saibam respeitar a nossa. A reciprocidade é a base de toda relação entre nações e temos mecanismos apropriados para assegurá-la. Estamos prontos a continuar dialogando de maneira aberta e construtiva, como o relacionamento entre dois países como o Brasil e os Estados Unidos requer. Mas o destino do Brasil compete apenas aos brasileiros, sem interferência externa, nem subserviência”.
Entenda o tarifaço
O chamado “tarifaço” imposto pelos Estados Unidos consolidou-se como um dos maiores desafios para o comércio exterior brasileiro, com a entrada em vigor de duas taxas severas que, combinadas, elevam a tributação sobre produtos industriais do país a até 37,5%.
A ofensiva de Washington utiliza justificativas jurídicas distintas: uma tarifa de 25% sob a alegação de barreiras brasileiras em tecnologia e no sistema Pix, somada a um adicional de 12,5% sob o argumento de falhas na fiscalização contra o trabalho forçado, argumentos que não se sustentam.
A estratégia americana atingiu severamente setores de valor agregado como madeira, calçados e máquinas agrícolas, concentrando os prejuízos em polos industriais das regiões Sul e Sudeste do Brasil.
Apesar do forte impacto setorial e do salto na tarifa média, que colocou o Brasil como o segundo país mais taxado pela Casa Branca, o abalo macroeconômico total tem sido mitigado pelo bom desempenho das exportações brasileiras para a China e a Europa, este último impulsionado pelo avanço do acordo Mercosul-União Europeia.