
O programa que poderá nortear um eventual quarto governo Lula começou a sair do papel. Lançado na sexta-feira (29), em São Paulo, o “Plano Participativo pelo Brasil e pelos Brasileiros” combina um documento-base de 180 páginas e uma plataforma digital de escuta. A ideia é formular, com participação popular, as diretrizes da campanha à reeleição do presidente para o período de 2027 a 2030.
A iniciativa prevê a coleta de propostas de movimentos sociais, especialistas, entidades, sindicatos, universidades e organizações da sociedade civil. Coordenado pelo ex-presidente da Petrobras Sergio Gabrielli, o processo receberá contribuições até 30 de junho. Relatórios consolidados deverão ser apresentados em 15 de julho, servindo de base para a elaboração do programa definitivo da chapa Lula-Geraldo Alckmin.
O documento foi concebido como um manifesto político da coalizão que sustenta o governo Lula. Antes de apresentar diretrizes e centenas de metas, o texto dedica dezenas de páginas a uma radiografia do que classifica como “herança maldita de destruição” dos governos Michel Temer e Jair Bolsonaro.
Uma disputa entre dois Brasis
A premissa central é que a eleição de 2026 oporá dois projetos históricos de País: de um lado, a continuidade da reconstrução do Estado social, da industrialização e da soberania nacional; de outro, o retorno do ciclo liberal-conservador associado ao bolsonarismo e ao período iniciado após o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff, em 2016.
Partindo dessa interpretação, o texto se organiza em três movimentos: o diagnóstico do período 2016-2022, o balanço do governo Lula 3 e as diretrizes para um novo ciclo político.
Da “herança de destruição” à reconstrução
Segundo o documento, o País viveu anos de desmonte institucional, perda de direitos sociais, enfraquecimento da participação popular e redução da capacidade de planejamento estatal. Como exemplos, cita o retorno do Brasil ao Mapa da Fome, cortes de até 96% no orçamento do Suas, queda da cobertura vacinal infantil e aumento do desmatamento na Amazônia. O governo Bolsonaro também é acusado de promover negacionismo durante a pandemia e campanhas de desinformação por meio da comunicação oficial.
Em contraposição, o texto apresenta o governo Lula como um período de recuperação econômica e institucional. Entre os resultados destacados estão a saída de mais de 26 milhões de pessoas da fome, a geração de mais de 5 milhões de empregos formais, a redução da desigualdade, a valorização do salário mínimo, a contratação de 2 milhões de moradias pelo Minha Casa Minha Vida e a queda do desmatamento na Amazônia e no Cerrado. Também são citados avanços em políticas para mulheres, igualdade racial e participação social.
A aposta em um novo ciclo de desenvolvimento
O balanço econômico ocupa espaço central. O governo reivindica a aprovação da reforma tributária, a substituição do teto de gastos pelo novo arcabouço fiscal, a expansão dos investimentos do Novo PAC e a retomada da política industrial por meio da Nova Indústria Brasil (NIB).
Segundo o documento, a estratégia de desenvolvimento combina crescimento, justiça social e reindustrialização verde, com foco em transição energética, inteligência artificial, semicondutores, biocombustíveis, hidrogênio verde e infraestrutura sustentável.
A ideia de soberania nacional atravessa todo o texto. O plano defende reduzir vulnerabilidades estratégicas em áreas como energia, tecnologia, defesa e comunicação digital, além de ampliar a capacidade industrial brasileira. Entre as propostas está a criação de uma política para terras raras e minerais críticos, condicionando sua exploração à agregação de valor e à industrialização no País.
Um projeto para os anos 2030
O documento também procura atualizar o repertório histórico do campo progressista para os desafios da próxima década. Inteligência artificial, automação, plataformas digitais, transição climática e novas formas de trabalho aparecem como temas recorrentes. A proposta é combinar inclusão social com modernização tecnológica e aumento de produtividade.
As diretrizes estão organizadas em grandes eixos, como fortalecimento da democracia participativa, ampliação dos serviços públicos, combate às desigualdades, reforma urbana, neoindustrialização, transição energética, proteção ao trabalho e protagonismo internacional do Brasil.
Entre as propostas concretas estão a implantação gradual da jornada semanal de 40 horas, o fortalecimento da negociação coletiva, a ampliação da tributação sobre altas rendas e patrimônios, a expansão do Minha Casa Minha Vida, o aprofundamento da reforma tributária progressiva e uma política industrial voltada para inteligência artificial, semicondutores e transição energética.
O plano também prevê a retomada de mecanismos de participação social enfraquecidos após 2016, como conselhos, conferências e fóruns públicos. Outra meta é a criação de um espaço específico para jovens discutirem propostas para o Brasil de 2036.
Num cenário marcado pela persistência da extrema direita nas redes, no Congresso e em parcelas importantes do eleitorado, o campo progressista se mexe. “Esse é um documento preliminar, sujeito a alterações. Nossa missão é derrotar o sistema que há séculos reproduz injustiça, desigualdade e corrupção”, afirma o texto de apresentação.
Ao abrir a elaboração do programa à participação popular, a coalizão pró-Lula tenta transformar a campanha de 2026 em algo maior do que uma disputa eleitoral. O documento sugere que a próxima eleição será apresentada como um referendo sobre o ciclo iniciado em 2023: se deve ser aprofundado, corrigido ou interrompido. Entre o balanço dos últimos quatro anos e a promessa de um novo ciclo de desenvolvimento, é nesse terreno que a campanha presidencial começa a ser desenhada.
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