
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva denunciou as tentativas de interferência dos Estados Unidos na eleição brasileira e afirmou que a disputa não será apenas entre candidatos ou partidos.
“O que está em jogo hoje é uma escolha que o povo brasileiro vai ter que fazer: ou a democracia ou a barbárie”, declarou.
A entrevista à jornalista Christiane Amanpour, da CNN Internacional, foi exibida nesta segunda-feira (21), às vésperas da abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York.
Lula também criticou as tarifas impostas por Donald Trump, a atuação de aliados de Jair Bolsonaro nos Estados Unidos e a política de Washington para a América Latina.
Ao falar sobre a eleição, Lula contrapôs seu projeto às políticas adotadas pelo governo Bolsonaro. Segundo o presidente, os brasileiros terão de escolher entre “uma política de preservação ambiental ou desmatamento”, entre “uma política de inclusão social ou o abandono das pessoas pobres” e entre “o fortalecimento da cultura ou o fim da cultura”.
“Eu tenho consciência de que vou ganhar as eleições. Tenho certeza de que vou ganhar as eleições, porque o Brasil precisa da democracia”, afirmou. Lula citou as ações de seu governo nas áreas de educação, saúde e inclusão social e disse estar tranquilo com a segurança das urnas eletrônicas.
“O mundo inteiro deveria adotar o sistema eletrônico do Brasil”, declarou. O presidente lembrou que o país realiza uma eleição nacional com cerca de 160 milhões de eleitores e divulga o resultado poucas horas depois do fim da votação.
Lula exige que EUA não interfiram na eleição
Questionado sobre o avanço da direita na América Latina e a atuação de aliados de Bolsonaro em Washington, Lula disse ter alertado diretamente Trump contra qualquer interferência no processo eleitoral brasileiro.
“É muito importante que os Estados Unidos não se metam nas eleições do Brasil, como eu não me meto nas eleições de vocês”, afirmou. “As eleições brasileiras são do interesse do povo brasileiro. As dos americanos são do interesse do povo americano.”
O presidente classificou como “traidores da pátria” os brasileiros que se instalaram nos Estados Unidos e passaram a trabalhar pela aplicação de sanções contra o próprio país. Lula citou Eduardo Bolsonaro, que articulou em Washington medidas contra autoridades brasileiras e contra o governo federal.
“Ele é um dos traidores da pátria. Está aqui insuflando os Estados Unidos contra o Brasil”, declarou.
Lula lembrou que Brasil e Estados Unidos mantêm relações diplomáticas há mais de dois séculos e disse não defender o rompimento com Washington. Para ele, porém, uma relação entre países precisa ser construída com respeito à soberania e sem imposições.
“Trump foi eleito dentro dos Estados Unidos. Ele tem o direito de governar os Estados Unidos, mas não tem o direito de governar os outros países”, afirmou. “Nós não queremos intromissão. Nós queremos parceria.”
Brasil buscará outros mercados
O presidente também contestou a justificativa utilizada pelo governo Trump para aumentar as tarifas sobre produtos brasileiros. Segundo ele, a medida foi baseada em uma mentira, pois os Estados Unidos mantêm superávit na relação comercial com o Brasil.
Lula afirmou que o governo continua negociando com Washington, mas advertiu que poderá aplicar a Lei da Reciprocidade caso não haja acordo. A legislação, aprovada por unanimidade pelo Congresso, permite que o Brasil responda a barreiras comerciais impostas por outros países.
Enquanto mantém as negociações, o Brasil ampliou o comércio com outros parceiros. Lula citou o crescimento das relações com China, Japão, Alemanha, Vietnã e União Europeia.
“Eu não vou ficar chorando o leite derramado. Vou procurar outro lugar que tenha leite para me comprar e vender”, disse.
Crítica à tutela sobre a Venezuela
Lula também condenou a atuação dos Estados Unidos na Venezuela. Para o presidente, Washington tenta apresentar o país sul-americano como um território sob seu comando, inclusive ao controlar receitas obtidas com a venda de petróleo.
“A soberania do país acabou. Isso não é bom para os Estados Unidos, não é bom para a Venezuela e não é bom para a democracia”, afirmou.
O presidente defendeu a convocação de eleições para que os venezuelanos decidam o futuro do país. Lula também criticou governos que utilizam acusações sem provas para justificar guerras e intervenções, lembrando as alegações falsas sobre a existência de armas químicas no Iraque.
Ao tratar da guerra contra o Irã, Lula afirmou que o conflito elevou os preços dos combustíveis, dos fertilizantes e dos alimentos em todo o mundo. “Trump diz: ‘Matei Khamenei, acabou a guerra’. Não, a guerra começou”, declarou.
Lula cobra reforma da ONU
O presidente encerrou a entrevista com críticas ao Conselho de Segurança da ONU. Para Lula, o órgão perdeu capacidade de impedir guerras porque suas decisões estão concentradas nas mãos dos cinco países com poder de veto.
Ele citou os conflitos na Faixa de Gaza, na Ucrânia e no Irã e questionou por que as maiores potências não se reúnem para negociar a paz.
“A gente precisa de dinheiro para educação, comida e saúde e fica gastando trilhões de dólares em guerra”, criticou. “Os líderes que deveriam parar as guerras e fazer a paz ficam fomentando os embates.”
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