
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva conseguiu, em poucos dias, produzir uma mudança importante na relação com o comando do Senado. Após meses de distanciamento político, Davi Alcolumbre (União-AP) anunciou nesta sexta-feira (14) o encaminhamento de três propostas prioritárias do governo às comissões da Casa, entre elas a que prevê o fim da escala 6×1.
O movimento ocorreu depois de uma nova reunião entre Lula e Alcolumbre no Palácio da Alvorada — a terceira em pouco mais de uma semana. A sequência de encontros demonstra que o presidente da República assumiu diretamente a condução da negociação para destravar uma agenda que estava paralisada no Senado.
Na prática, Alcolumbre recuou da postura de resistência que vinha mantendo em relação às prioridades do Executivo. A PEC 221/2019 estava parada no Senado à espera de despacho do presidente da Casa, apesar de seu avanço na Câmara. O encaminhamento desta sexta-feira muda esse quadro.
Fim da 6×1 é vitória política de Lula
Entre as três matérias liberadas por Alcolumbre, a PEC do fim da escala 6×1 tem peso especial. A redução da jornada de trabalho se consolidou como uma das principais bandeiras sociais de Lula para 2026 e ganhou centralidade no diálogo do presidente com trabalhadores e movimentos sindicais.
O governo defende que a mudança permita reduzir a jornada e ampliar o tempo de descanso sem perda salarial. A proposta já avançou na Câmara e dependia, no Senado, de uma decisão política para começar a tramitar.
O despacho de Alcolumbre, portanto, não é apenas uma providência regimental. É o resultado concreto da pressão e da negociação conduzidas pessoalmente por Lula.
A líder do governo no Senado, Teresa Leitão (PT-PE), resumiu o efeito da reaproximação ao afirmar que o diálogo entre os dois presidentes permitiu o avanço das pautas de interesse do Executivo.
Recuo depois de meses de impasse
A mudança ganha maior significado quando observada em retrospectiva. A relação entre Lula e Alcolumbre havia se deteriorado depois da rejeição, pelo Senado, da indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal. A crise contribuiu para manter matérias de interesse do governo sem andamento na Casa.
Agora, o próprio Alcolumbre afirma que teve com Lula um diálogo “maduro, franco e republicano”, considerado por ele fundamental para compreender as prioridades do governo.
Embora tenha reafirmado a independência do Legislativo e o respeito ao rito regimental, o fato político é que as três propostas anunciadas por Alcolumbre correspondem diretamente à agenda prioritária apresentada pelo governo Lula.
A mudança também evidencia a força da Presidência da República na negociação. Em vez de aceitar que a pauta governamental permanecesse condicionada às disputas internas do Senado, Lula voltou ao centro da articulação e buscou diretamente o presidente da Casa.
Segurança e terras raras completam acordo
Além da escala 6×1, Alcolumbre encaminhou a PEC 18/2025, da Segurança Pública, e o PL 2780/2024, que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos.
As três propostas cobrem áreas consideradas estratégicas pelo Planalto. A segurança pública é uma das principais agendas do governo para o segundo semestre, enquanto os minerais críticos e as terras raras têm importância crescente para a política industrial, tecnológica e energética brasileira.
O fato de as três matérias avançarem simultaneamente reforça a interpretação de que houve uma recomposição política mais ampla, e não apenas uma concessão isolada em torno da jornada de trabalho.
O próximo teste será a votação
O recuo de Alcolumbre, contudo, ainda não significa aprovação das propostas. O presidente do Senado determinou que os textos sigam para as comissões, onde serão analisados antes de eventual votação em plenário.
No caso da escala 6×1, existe a expectativa de que a matéria possa avançar durante o esforço concentrado previsto para o fim de agosto e início de setembro. A possibilidade de votação antes das eleições, entretanto, depende da articulação entre lideranças e do calendário parlamentar.
O movimento desta sexta-feira revela, assim, uma alteração na correlação política: Lula saiu da posição de quem aguardava o Senado e passou a comandar a negociação que levou Alcolumbre a destravar a pauta.
Para o presidente da República, o avanço da 6×1 representa uma oportunidade de transformar uma bandeira trabalhista em resultado legislativo. Para Alcolumbre, a reaproximação evita o isolamento político e reabre canais de diálogo com o governo em um momento decisivo do calendário de 2026.
O despacho desta sexta-feira é, portanto, menos uma iniciativa espontânea do Senado do que o primeiro resultado concreto da ofensiva política de Lula para recuperar o controle da agenda de seu governo no Congresso.
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