Há anos ouvimos Lula ser chamado de “nove dedos” de um jeito desrespeitoso, violento, preconceituoso. No começo, reagimos. Depois, de tanto ouvir, fomos naturalizando. A indignação continuou, mas o insulto passou a fazer parte da paisagem política brasileira. Uma violência que se pode repetir em público, entre risadas, sem precisar responder por ela.
Ontem, Flávio Bolsonaro repetiu o deboche na TV Globo, diante de milhões de pessoas, a dois dias da decisão do segundo turno. Estava diante dele o próprio homem cuja história tentava transformar em motivo de humilhação. Dessa vez, precisou ouvir a resposta.
Lula respondeu com a voz rouca. Parecia cansado. Tem décadas de política, sabe articular uma resposta, medir palavras e consequências. Ontem, ouvi alguém falando de um lugar muito pessoal. Falou de si mesmo, do jovem que, como lembrou no debate, perdeu um dedo aos 17 anos, trabalhando porque precisava sobreviver. E cobrou respeito pelos milhões de trabalhadores que se acidentam por irresponsabilidade patronal. Flávio teve de pedir desculpas. Vieram protocolares, depois da cobrança. Foi bonito ver aquela resposta depois de tantos anos ouvindo a mesma canalhice.
Reconheci naquele cansaço um pouco do nosso. A gente está cansado dessa batalha, de chegar a cada nova eleição com medo do que pode acontecer ao País e às pessoas que amamos. Cansa ter de explicar outra vez a gravidade de uma ameaça, enfrentar o deboche e ainda encontrar disposição para conversar, convencer, tentar impedir o pior.
Para quem sofreu com ditaduras, ou ainda sofre sob elas, a ameaça autoritária tem consequências conhecidas. Gays, mulheres, PCDs e pessoas negras convivem com violências nas ruas e dentro de casa. Crianças abandonadas, pessoas com sofrimento mental e pessoas em situação de rua enfrentam desamparos que continuam enquanto os candidatos falam na televisão. São histórias diferentes. Em muitas delas, à violência sofrida se acrescenta a obrigação de provar que aconteceu, que feriu, que merece alguma resposta.
Cristiane Gomes da Silva, mãe de Ana Clara, estava naquela plateia. Sua filha tinha cinco anos quando foi morta por um tiro de fuzil. Flávio, que integrou gratuitamente a defesa do policial acusado de matá-la, dirigiu-se à mãe pelo nome da menina. Sustentou uma versão de troca de tiros que Cristiane contestou. Ela saiu dizendo que continuava sem a resposta que procurava.
Pareceu-me um segundo velório da filha, agora diante das câmeras. Aquela mulher precisou escutar um candidato à Presidência apresentar uma versão que ela rejeita sobre a morte que presenciou. Vejo uma dimensão de gênero nessa violência: uma mãe cobra explicações, e o homem de poder responde passando por cima do que ela tem a dizer. Até naquele momento, coube a Cristiane insistir para que sua experiência fosse ouvida.
Quando Flávio tentou usar as pessoas em situação de rua para devolver a cobrança a Lula, o incômodo foi também muito pessoal. Como pesquisador, conheço de perto pessoas que vivem nessa condição. Conheço histórias, sofrimentos e esforços para conseguir algum lugar onde ficar, descansar, ser recebido com respeito. Ouvir aquela população aparecer como recurso para escapar de uma cobrança me revoltou. Aquelas pessoas têm uma vida inteira além da frase em que ele as encaixou. A maneira como falou delas passou longe do conhecimento e do cuidado que suas vidas exigem.
Foi por isso que a resposta aos “nove dedos” me pareceu condensar tanta coisa. Lula devolveu ao debate a história do trabalhador que o insulto procura apagar. E ouvi naquela indignação algo que reconheço em muita gente: o cansaço de sofrer uma violência e ainda ter de aguentar a piada, a desconfiança ou o sermão de quem nunca se dispôs a escutar.
Estou cansado também. Estamos. Merecemos mais do que sobreviver a cada eleição com medo de entregar o país a quem faz política desse jeito. Amanhã espero outras respostas, quando vier o resultado das urnas. Que os nove dedos ajudem a impedir que o Brasil caia numa ditadura de direita. E que a gente possa respirar um pouco para continuar a luta por um país em que tanta gente deixe de ser tratada com tamanho desprezo.
(*) Ricardo Queiroz Pinheiro é Diretor de Relações de Trabalho do Sindserv – SBC, bibliotecário, pesquisador e doutorando em Ciências Humanas e Sociais.
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