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Lula e líderes da UE criam grupo para reverter veto à carne

Em uma movimentação diplomática estratégica à margem da Cúpula do G7, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reuniu-se nesta terça-feira (16), em Évian, na França, com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa. O encontro de alto nível teve como objetivo central mitigar os danos causados pela recente decisão do bloco europeu de restringir a importação de produtos brasileiros, abrindo caminho para a criação de um grupo de trabalho bilateral focado em reverter o veto antes que ele cause prejuízos irreversíveis ao agronegócio e à indústria nacional.

O relógio contra o veto de setembro

O ponto de maior urgência na pauta bilateral é o cronograma. A União Europeia oficializou há uma semana a exclusão do Brasil da lista de países autorizados a exportar carnes, tripas, peixes e mel para o bloco. A nova lista restritiva entra em vigor no próximo dia 3 de setembro, e o governo brasileiro corre contra o tempo para suspender a medida.

A justificativa técnica de Bruxelas recai sobre exigências fitossanitárias, especificamente o regulamento europeu que proíbe o uso de medicamentos antimicrobianos para tratar e prevenir infecções em animais ao longo de toda a cadeia produtiva. Além do agronegócio, a indústria siderúrgica brasileira também entrou na mira das restrições europeias, sob o pretexto de proteção ao mercado local.

Por meio de nota, a Secretaria de Comunicação Social (Secom) informou que Lula, Costa e von der Leyen definiram um mecanismo de diálogo direto entre o Itamaraty e funcionários da Comissão Europeia. O objetivo é “identificar as dificuldades” e buscar soluções que “contemplem as preocupações europeias, seja de ordem sanitária, fitossanitária e de proteção da sua indústria de aço, bem como os legítimos interesses exportadores do Brasil, consubstanciados no acordo Mercosul-União Europeia”.

Protecionismo à sombra do acordo Mercosul-UE

A análise do cenário geopolítico aponta que o veto europeu transcende a questão estritamente sanitária. A medida foi anunciada poucos dias após a entrada em vigor provisória do histórico acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, em maio de 2026.

Diplomatas e especialistas em comércio exterior avaliam que o bloqueio funciona como uma reação política e protecionista de Bruxelas. O acordo com o bloco sul-americano foi recebido com forte resistência por agricultores europeus, que temem a concorrência dos produtos brasileiros. O veto à carne e as barreiras ao aço surgem, portanto, como um mecanismo de “amortecimento” para acalmar os ânimos internos da Europa, usando a burocracia sanitária como barreira não-tarifária.

O próprio governo brasileiro havia expressado, nos bastidores, “surpresa e preocupação” com a timing e a forma das medidas. O embaixador Philip Fox-Drummond Gough, secretário de Assuntos Econômicos do Itamaraty, chegou a sinalizar que o tom das discussões seria de alerta, buscando entender como resolver as questões sem que o Brasil seja penalizado por um protecionismo disfarçado de zelo sanitário.

A importância do Brasil na arquitetura global

Apesar das fricções comerciais, a reunião em Évian reforçou a importância estratégica do Brasil para a União Europeia em temas que ultrapassam o comércio bilateral. O presidente do Conselho Europeu, António Costa, classificou o diálogo com o Brasil como “um conceito muito construtivo de resolver problemas” e fez questão de exaltar a presença brasileira no G7.

“Todos os grandes compromissos internacionais que queremos assegurar para conseguir resolver os desequilíbrios macroeconômicos globais, para lidar com questões como IA [Inteligência Artificial] e de parcerias para o desenvolvimento, implica engajamento de todos, e o Brasil obviamente não pode faltar”, afirmou Costa.

A fala do líder europeu evidencia que, apesar do lobby de setores agrícolas internos, a União Europeia reconhece que não há governança global eficaz sem a participação ativa de Brasília. O mecanismo bilateral criado no G7 será o primeiro teste real para saber se a UE priorizará a sua parceria estratégica com a América Latina ou se cederá às pressões protecionistas de seus próprios mercados internos.

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