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Lula exalta Mujica e defende integração latino-americana contra intervenção

Em uma tarde de homenagens e reflexões sobre o futuro da América Latina, a Universidade Federal do ABC (UFABC) concedeu, nesta quinta-feira (19), o título de Doutor Honoris Causa póstumo a José “Pepe” Mujica, ex-presidente do Uruguai e símbolo global de coerência política e simplicidade. A cerimônia, realizada no campus de São Bernardo do Campo, contou com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, como padrinho da homenagem, e de Lucía Topolansky, senadora e companheira de vida de Mujica, que recebeu a honraria em nome do homenageado.

Lula lê carta inédita e defende integração regional

O momento mais esperado da cerimônia foi o discurso do presidente Lula, que leu integralmente uma carta inédita enviada por Mujica em 2023, quando Lula convocou um encontro de presidentes sul-americanos para discutir a reconstrução da presença do Sul Global na ONU.

Na carta, Mujica escreveu: “As grandes decisões que movem o mundo são tomadas em outros lugares, longe da nossa mesa. É preciso construir vínculos em nossa região para que possamos juntos fazermos escutar a nível internacional”. Ele propôs projetos concretos de integração: plataforma regional de resposta a desastres, integração energética, industrialização complementar, comércio em moedas locais, validação de diplomas e intercâmbio estudantil.

“Não basta que nos unamos, devemos também caminhar juntos”, escreveu Mujica. “A integração não será resultado somente da visão de intelectuais e políticos, mas senão do sentimento e do imaginário coletivo que acabamos de construir”.

Após a leitura, Lula fez um discurso sobre soberania e autonomia latino-americana. “Quem vai resolver o problema da América Latina e da América do Sul somos nós, quando a gente adquirir consciência, importância”, afirmou. Ele criticou a dependência histórica de potências estrangeiras e defendeu que os “minerais críticos” e “terras raras” da região sejam instrumentos de recuperação da cidadania sul-americana.

Lula também destacou iniciativas como a Unilab e a Unila, universidades criadas para promover integração com África e América Latina: “A integração tem que ser política, tem que ser cultural, ela tem que ser científica e tecnológica”.

Legado que permanece: “O ser humano não morre, as ideias permanecem”

Ao encerrar, Lula sintetizou o espírito da homenagem: “O ser humano não morre, o corpo se vai, mas as ideias permanecem”. Ele lembrou que conheceu Mujica após ambos deixarem a Presidência e pôde testemunhar “um ser humano muito especial”, que saiu de 12 anos de prisão — muitos em cela solitária — “sem ódio e sem rancor”.

“Ele não queria sofrer com o passado e remoer por dentro de si o passado. Ele queria viver os tempos novos que ele queria ajudar a construir. E ele o fez como ninguém”, disse Lula.

A cerimônia encerrou-se com a exibição de vídeo de Mujica, no qual ele refletia: “A única coisa que não se pode comprar é a vida. A vida se gasta. E é miserável gastar a vida para perder a liberdade”.

Lucía Topolansky: “Ele tinha a Universidade da Vida”

Reitor da UFABC, Dácio Roberto Matheus e ex-senadora e ex-vice presidenta do Uruguai, Lucía Topolansky, viúva de Jose Pepe Mujica, durante a cerimônia de entrega de título de Doutor Honoris Causa (in memoriam) a Mujica, no Cenforpe. São Bernardo do Campo – SP. Foto: Ricardo Stuckert / PR

Em discurso emocionado, Lucía Topolansky agradeceu a homenagem e destacou a relação de Mujica com a educação popular. “A educação deve chegar e abrir suas portas universalmente a toda a população que trabalha”, afirmou. “Cada vez que em um bairro, em um povo, em um lugar, se instala um centro educativo, há um verdadeiro derrame de conhecimento”.

Ela lembrou que Mujica “não era um acadêmico tradicional”, mas “tinha a Universidade da Vida”. “Às vezes, a Universidade da Vida ensina muito”, disse, ao descrever o companheiro como “um homem simples do campo, amava a natureza, se definia como estoico, um campesino de lei”.

Lucía anunciou que doou à biblioteca da UFABC o livro Semilhas ao Vento, com entrevistas recentes de Mujica, para “colaborar com a universidade” e “dialogar com a gente e explicar-lhe a importância tremenda da educação”. Ela também ressaltou o apelo de Mujica à unidade latino-americana: “Para que o continente, como tal, tenha uma voz neste desconcerto mundial que vivemos”.

Reitor destaca trajetória de luta e coerência

Na abertura da sessão solene, o reitor da UFABC, Dácio Roberto Mateus, traçou um panorama da vida pública de Mujica: “Sua trajetória está profundamente vinculada às lutas sociais e políticas que marcaram a história contemporânea do Uruguai”. Mateus lembrou que Mujica foi preso político por mais de uma década durante o autoritarismo, participou ativamente da reconstrução institucional do país e, como presidente (2010-2015), tornou-se “referência global no debate sobre desenvolvimento, sustentabilidade e integração entre os povos”.

O reitor resgatou o momento em que Lula, em 2015, sugeriu que Mujica merecia o título pela UFABC. “Desde aquele dia, isso não nos saiu da cabeça”, afirmou. Ele destacou ainda os acordos de cooperação firmados entre Brasil e Uruguai durante visita de Mujica em 2023, que resultaram em editais conjuntos de pesquisa via Capes e CNPq — incluindo o programa Prosul Pepe Mujica, lançado em janeiro com a presença de Lucía.

“É uma vida inteira de coerência e consequências que continua beneficiando a todas e todos”, sintetizou Mateus, ao outorgar oficialmente o título. “Que a vida de Pepe Mujica seja uma inspiração para a nossa juventude, para as nossas universidades e para todas e todos nós na tarefa de construirmos um país cada vez mais justo, soberano e menos desigual”.

O reitor abordou o período de instabilidade política vivido pela universidade, durante o período de governo de Jair Bolsonaro: “Desde então, nós passamos nas universidades federais brasileiras por grande instabilidade política e orçamentária agravada em 2018, por ataques diretos à nossa autonomia e à nossa capacidade de ensino e pesquisa, razão última da nossa existência, pautados pela relação com a nossa sociedade.”

E complementou: “Sobrevivemos à pandemia e ao pandemônio, grandemente apoiados… pela nossa associação de reitoras e reitores das universidades federais no Brasil.”

A concessão do título Honoris Causa a Pepe Mujica pela UFABC não é apenas um reconhecimento acadêmico — é um ato político de reafirmação dos ideais de justiça social, educação pública, integração regional e soberania popular que marcaram sua trajetória. Como disse o reitor Dácio Mateus: “Pepe Mujica presente, viva sua memória”.

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