
Era para ser mais um ato de campanha. Mas quando Lula decidiu subir a Ladeira da Liberdade na tarde desta sexta-feira (28), ao lado do governador Jerônimo Rodrigues (PT) e dos candidatos ao Senado Rui Costa e Jaques Wagner, a caminhada virou outra coisa: uma afirmação simbólica de que a campanha petista na Bahia não se fará apenas dos palanques tradicionais do Centro Administrativo ou do Campo Grande, mas do chão preto de Salvador.
“É a primeira vez que um presidente da República, ao invés de fazer um ato no centro da cidade, vem fazer uma caminhada no Bairro da Liberdade”, disse Lula, com a voz rouca dos 36 dias de campanha que ainda viriam. “Aqui é o bairro do Ilê. Aqui é o bairro onde o Ricardinho nasceu.” A escolha do território não foi acidental. A Liberdade, o bairro mais negro fora da África, é o coração pulsante da cultura afro-baiana — e o lugar onde o PT precisa fincar bandeira para manter o eleitorado que historicamente o elege.
O balanço baiano: números contra a narrativa do caos
O primeiro movimento do discurso foi o de transformar a caminhada em prestação de contas. Lula chegou armado de dados, consciente de que a disputa na Bahia será decidida na comparação entre o que foi feito e o que se promete fazer. O presidente enumerou conquistas com a precisão de quem decorou a cartilha antes de subir no trio:
“Aqui nesse glorioso Estado da Bahia, de 24 campi universitários, nós em parceria fizemos 83% — ou seja, 20 campi aqui na Bahia. Pé-de-Meia aqui na Bahia tem 715 mil alunos recebendo. A Bahia tem 47 institutos federais. De 47, 38 foram feitos por mim e pela Dilma.”
A comparação mais cortante, porém, foi a aritmética do cuidado versus a aritmética do cárcere:
“Quando o menino vai para uma cadeia de segurança máxima, um prisioneiro custa R$ 40 mil por mês. Um estudante no instituto custa R$ 15 mil por ano. O Pé-de-Meia custa R$ 3 mil por ano, mais os R$ 2 mil que nós damos. Só para mostrar que é muito mais barato a gente investir na educação do que investir na bandidagem.”
A frase, dita com a cadência de quem já a testou em outros palanques, resume a tese central da campanha petista na Bahia: o governo que investe na base é o que economiza na ponta. Os números de saúde reforçaram o argumento: aumento de 28% nas cirurgias eletivas, 1,3 milhão de teleconsultas, 71,9 milhões de exames.
A virada para o futuro: o Brasil dos chips e das terras raras

Se a primeira metade do discurso foi balanço, a segunda foi programa de governo — e aí Lula revelou a aposta estratégica de seu eventual quinto mandato. O presidente não quer mais falar apenas de bolsa, casa e estrada. Quer falar de chip, de bateria, de inteligência artificial.
“O Brasil tem gente inteligente, o Brasil tem minerais críticos, terra rara, como pouco país do mundo tem. E a gente vai transformar esses minerais, que até então não explorava, para desenvolver esse país. Os chineses estão aqui produzindo carro. A gente vai querer produzir carro, vai querer produzir bateria, a gente vai querer fazer chip, a gente vai querer fazer celular.”
A fala não é retórica vazia. Lula anunciou que acertou com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, a votação do marco legal das terras raras (Redata), que traria, segundo ele, R$ 500 bilhões em investimentos. A tese é clara: o Brasil do século XXI não pode ser apenas o celeiro do mundo, precisa ser também a fábrica do futuro.
“A gente não vai mais exportar só soja, só milho, só minerais críticos. A gente vai exportar conhecimento, vai exportar inteligência.”
A menção à Petrobras foi a cereja do bolo tecnológico: “A Petrobras não pode ser apenas uma empresa de petróleo. A Petrobras vai ter que ser uma empresa de energia, para que a gente possa convocar o mundo que quiser investir em produção de data center a vir para o Brasil.”
A fila do INSS e o cuidado com os idosos
Entre uma aposta macro e outra, Lula guardou dois anúncios concretos que tocam a vida cotidiana do eleitor. O primeiro: o zeramento da fila do INSS. “Quando eu peguei, tinha 3 milhões na fila. A semana que vem eu vou anunciar: chegamos ao mínimo, 151 mil pessoas.” O segundo: uma política nacional para idosos.
“A sociedade brasileira tá ficando idosa, tem muita gente ficando idosa, tem muita gente abandonada. Então é obrigação do Estado criar um programa para garantir que o idoso, além de receber sua aposentadoria, tenha centros de referência onde possa dançar, estudar, nadar, ler, ver filme, conversar com amigos, jogar — e quem sabe, se tiver o idoso na minha performance, ele vai até namorar.”
O tom, aqui, era o do Lula que o eleitor conhece: o que mistura política pública com piada de botequim, o que fala de envelhecimento digno enquanto brinca com a própria idade. É um registro que funciona especialmente bem na Bahia, onde o carisma pessoal do presidente vale mais que qualquer programa de governo.
A Liberdade como mensagem
Mas o que tornou a caminhada memorável não foi apenas o conteúdo do discurso — foi o lugar onde ele foi dito. A Liberdade, com seus blocos afro, seu carnaval de resistência, sua história de luta contra o racismo estrutural, é o oposto do Brasil que a extrema direita quer vender. É o Brasil que dança, que resiste, que se organiza.
“Qual é o significado disso?”, perguntou Lula à multidão, retoricamente. “É que é o bairro onde o Ricardinho [das Neves, músico] nasceu. Aqui é o bairro do Ilê [Ayê].”
A escolha do território foi, ao mesmo tempo, homenagem e estratégia. Homenagem a um eleitorado que nunca abandonou o PT, mesmo nos momentos mais difíceis. Estratégia para lembrar que a campanha de Jerônimo não se vence apenas com números de gestão, mas com a força simbólica de quem representa um projeto de país.
O que a caminhada revela sobre a reta final
A ida de Lula à Liberdade sinaliza três coisas sobre a campanha na Bahia. Primeiro, que a nacionalização do debate será total: Lula não vem apenas pedir voto para Jerônimo, vem mostrar seu próprio legado e seu próprio futuro. Segundo, que a disputa com ACM Neto (União Brasil) será travada no terreno das realizações concretas, não das promessas abstratas. Terceiro, que a coligação progressista não abrirá mão do simbolismo negro e popular que o elegeu na Bahia desde 2006.
“A arma mais importante que nós temos são vocês”, disse Lula, no encerramento. “São 36 dias que nós vamos ter que fazer o esforço em comum para que a gente não deixe o povo ser vítima de mentira, para que a gente não deixe o povo ficar sendo enganado pela internet.”
A frase resume o desafio: em um estado onde o campo progressista governa há duas décadas, a campanha de reeleição precisa convencer o eleitor de que o passado ainda tem futuro. E que o futuro, como Lula insistiu na Liberdade, não será apenas mais do mesmo — será chip, será bateria, será terra rara transformada em soberania nacional.
O post Lula leva campanha à Bahia e projeta Brasil da tecnologia apareceu primeiro em Vermelho.