
A reabertura das operações da Avibras Aeroco, em Jacareí (SP), serviu de palco para um dos discursos mais enfáticos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre defesa nacional desde o início de seu terceiro mandato. Diante de ministros, comandantes das Forças Armadas, empresários e trabalhadores, Lula sustentou que o fortalecimento da indústria brasileira de defesa é uma questão de soberania e não uma opção ideológica. As declarações foram feitas em meio ao clima de sugestões intervencionistas dos EUA a países sul-americanos, e após classificar o crime organizado no país como narcoterrorismo, passível de eventual interferência norte-americana.
“O Brasil gosta da paz. Nós gostamos de carnaval, de samba, de futebol. Mas não podemos esquecer que somos uma nação que precisa cuidar da defesa”, afirmou. Segundo ele, o país possui uma das maiores extensões territoriais do mundo, cerca de 16 mil quilômetros de fronteiras terrestres, extensa faixa marítima, grandes reservas de água doce, florestas estratégicas e riquezas minerais ainda pouco conhecidas. “Nós precisamos ter as Forças Armadas bem preparadas, bem treinadas e com conhecimento científico e tecnológico para andar de cabeça erguida, sem arrogância, mas preparados para não deixar ninguém meter o nariz no nosso país.”
Para ilustrar o argumento, Lula lembrou que guerras podem surgir inesperadamente e citou o conflito da Tríplice Aliança, ressaltando que, quando um país é atacado, não há tempo para improvisações. “Quando começa a confusão, ninguém pergunta se tem dinheiro. Ou você está preparado ou está ferrado”, resumiu.
Recuperação da Avibras simboliza reconstrução industrial
Lula classificou como “especial” o momento da recuperação da Avibras, empresa estratégica para a indústria de defesa que permaneceu anos em recuperação judicial. O presidente revelou que, logo no início do governo, reuniu ministros, comandantes militares, o BNDES e o MCTI para encontrar uma solução.
“Não tinha explicação política, econômica, social nem como nação soberana deixar uma empresa desse porte ser destruída”, afirmou. Em tom franco, reconheceu ter se irritado diversas vezes com a lentidão da máquina pública. “Muitas vezes fiquei muito puto da vida. Todo mundo queria resolver e a burocracia sempre encontrava uma maneira de atrasar.”
Para Lula, a retomada das atividades demonstra que a cooperação entre governo, instituições financeiras, Forças Armadas e iniciativa privada pode preservar capacidades tecnológicas consideradas estratégicas para o país.
Trabalhadores recebem o maior reconhecimento
A parte mais emotiva do discurso foi dedicada aos empregados da Avibras, que permaneceram cerca de três anos sem receber salários integrais durante a crise da empresa.
“Eu não conheço outro caso de trabalhadores que ficaram 36 meses sem salário e mantiveram a empresa preservada. Aqui não se quebrou uma máquina, não se roubou uma torneira”, afirmou.
Lula também elogiou o acordo firmado para parcelar os salários atrasados e garantiu que os futuros aportes públicos destinados à recuperação da companhia deverão priorizar o pagamento dessa dívida. “Cada dinheiro que entrar na Avibras terá de reservar uma parte para quitar o que é devido aos trabalhadores. Nós precisamos honrar aquilo que foi prometido.”
Defesa impulsiona inovação e exportações
Ao defender investimentos permanentes na indústria de defesa, Lula afirmou que esse segmento reúne pesquisa científica, inovação tecnológica e geração de empregos qualificados. Também destacou o crescimento das exportações brasileiras do setor, que passaram de cerca de US$ 600 milhões para US$ 3,7 bilhões anuais durante seu governo.
Segundo o presidente, a meta agora é ampliar tanto as encomendas internas das Forças Armadas quanto a presença internacional da indústria brasileira. “Essa arma é da paz. Não é para matar ninguém. É para mostrar que o Brasil está preparado e impedir que alguém queira mexer conosco.”
Autoridades destacam articulação institucional
Antes da fala presidencial, dirigentes da empresa, representantes dos trabalhadores e ministros enfatizaram que a recuperação da Avibras foi resultado de quase dois anos de negociações envolvendo governo federal, BNDES, Finep, Ministério da Defesa, Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, Exército, credores e investidores privados.
O presidente da empresa, Sami Aswani, afirmou que a recuperação preservou um patrimônio tecnológico considerado estratégico para a soberania nacional. O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos, Weller Gonçalves, destacou o sacrifício dos trabalhadores durante os anos de crise e pediu rapidez na liberação dos recursos previstos para quitar salários atrasados. Já os ministros Márcio Elias Rosa (Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, MDIC) e José Múcio (Defesa )ressaltaram que a indústria de defesa integra a política de reindustrialização do governo e representa um setor essencial para inovação, geração de empregos e fortalecimento da capacidade tecnológica do país.
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