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Lula manda suspender “bet” da Caixa; projeto pode ser enterrado

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) determinou a suspensão do plano da Caixa Econômica Federal de lançar uma plataforma própria de apostas esportivas — e, segundo aliados, a tendência hoje é de cancelamento definitivo do projeto. A ordem presidencial foi revelada por O Globo e confirmada por outros veículos, após Lula demonstrar incômodo com a ideia e chamar o presidente da estatal, Carlos Vieira, para dar explicações.

A iniciativa vinha sendo preparada desde que a Caixa obteve autorização provisória do Ministério da Fazenda para operar apostas online, pagando R$ 30 milhões de outorga e registrando as marcas BetCaixa, MegaBet e Xbet Caixa. Em outubro, Carlos Vieira afirmara que a operação estrearia até o fim de novembro e poderia arrecadar de R$ 2 bilhões a R$ 2,5 bilhões já em 2026 — números que reforçaram a repercussão do caso dentro do governo.

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A suspensão ocorre enquanto a área econômica defende regras mais duras e maior tributação sobre o setor. Em 2025, o governo cogitou elevar de 12% para 18% a alíquota sobre a receita bruta das “bets”, mas a medida provisória naufragou na Câmara. A orientação do Planalto segue sendo apertar a regulação e a fiscalização, diante do impacto social do jogo.

Pressão social e contradição de missão pública

A ofensiva contra a “bet” da Caixa também veio de entidades da sociedade civil. Em 24 de outubro, o Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) divulgou nota pública classificando a ideia como incompatível com a missão de um banco social: “É uma contradição profunda: um banco público de fomento social convertendo-se em operador digital de jogos de azar.” Em outro trecho, o Idec afirma: “É inaceitável que a mesma plataforma que deveria estimular a poupança e o crédito responsável se transforme em isca para o endividamento e a ludopatia.” A íntegra da nota pode ser conferida aqui.

Efeito nas famílias: renda drenada e endividamento

Estudos citados pela Agência Brasil mostram que o avanço das apostas esportivas online já redistribui gastos das famílias — sobretudo nas classes D e E — e pressiona despesas essenciais. Entre 2018 e 2023, a fatia do orçamento dessas classes destinada a “bets” saltou de 0,27% para 1,98%, superando outros gastos como lazer e cultura. Para especialistas, o fenômeno aumenta o risco de endividamento e afeta a percepção de melhora econômica.

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Levantamentos também indicam efeitos no consumo: entre quem aposta, 64% dizem usar parte da renda principal para o jogo e 63% afirmam ter comprometido a renda com plataformas online — com cortes em compras de roupas, mercado, itens de higiene e até medicação. “Hoje a gente já tem uma realidade de suicídio, de destruição de lares, de endividamento (…) De doenças mentais extremamente graves por conta dessas dependências”, alertou a economista do Idec, Ione Amorim. “A pessoa está jogando contra uma máquina que foi programada. Então, ela vai ganhar eventualmente, mas vai perder muito mais do que vai ganhar.”

Saúde mental: risco de dependência e público jovem vulnerável

Profissionais que atuam no Hospital das Clínicas de São Paulo e em serviços especializados de impulsividade relatam aumento de casos ligados a apostas online, sobretudo entre homens jovens. “O jogo de aposta forma hábitos. Quanto mais a pessoa tem acesso a esse hábito, maior a chance dela ter uma dependência”, explicou a psicóloga Bruna Mayara Lopes, lembrando que TDAH e fácil acesso ampliam a vulnerabilidade. “É uma dependência comportamental que ativa o circuito de recompensa, semelhante às químicas”, resume a psiquiatra Raquel Takahashi à Agência Brasil.

Cenário regulatório e pressão política

A suspensão da “bet” da Caixa ocorre em meio à atuação do Senado e de órgãos de controle sobre o tema das apostas. Parlamentares questionaram a conveniência de uma estatal ingressar num mercado ainda sob depuração regulatória e com investigações sobre manipulação de resultados, publicidade agressiva e danos sociais. Houve, inclusive, representação ao TCU contra a iniciativa.

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Embora integrantes da Caixa defendam que a operação ampliaria a arrecadação e “formalizaria” parte do mercado, o Planalto avalia que o custo social e a contradição institucional superam potenciais ganhos — especialmente enquanto a regulação não estiver madura e mecanismos de prevenção a perdas, vício e endividamento não forem efetivos. Com a ordem de Lula, aliados dizem não haver clima para a proposta prosperar.

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com informações de agências

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