
O governo federal deu início, nesta terça-feira (21), a uma rodada estratégica de reuniões com as principais associações do setor produtivo para desenhar a resposta brasileira à sobretaxa de 25% imposta pelo governo de Donald Trump sobre produtos nacionais. Coordenadas pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), com a presença do vice-presidente Geraldo Alckmin e de representantes da Fazenda, as conversas envolveram entidades como Anfavea, Sindipeças, Abmaq, Abit, Abicalçados, Abiplast, Abinee e Anip. O objetivo é mapear os danos reais e calibrar um pacote de socorro antes que a tarifa entre em vigor, nesta quarta-feira (22).
O MDIC pretende concluir o diagnóstico de impactos até o final da semana, realizando uma segunda rodada de reuniões nesta quarta-feira (22). Após consolidar os dados e as sugestões do setor produtivo, o ministro Márcio Elias Rosa apresentará o pacote final de medidas ao presidente Lula para decisão. Até lá, a orientação do governo é manter os canais diplomáticos abertos, evitar o confronto ideológico direto com a Casa Branca e focar na sobrevivência das cadeias produtivas nacionais.
Três eixos e o fim do “olho por olho”
Diante da pressão de parte do empresariado por uma reação imediata, o vice-presidente Geraldo Alckmin buscou acalmar os ânimos, afastando a ideia de uma guerra comercial aberta. “A reciprocidade não é retaliação. Dizem que ‘olho por olho’ pode deixar os dois cegos. A reciprocidade é: nós estamos sendo injustiçados e queremos corrigir isso”, afirmou Alckmin em coletiva.
O ministro do MDIC, Márcio Elias Rosa, detalhou que a resposta do governo está estruturada em três eixos principais: apoio financeiro às empresas, diversificação de mercados e diálogo permanente com os setores afetados. A medida americana atinge cerca de 18% das exportações brasileiras para os EUA, o equivalente a US$ 7,4 bilhões, impactando fortemente cadeias de eletroeletrônicos, máquinas, autopeças, calçados e plásticos.
Para mitigar o choque, o governo prepara uma recalibragem do Plano Brasil Soberano, com foco em linhas de crédito para capital de giro e investimentos. Estuda-se também a flexibilização temporária das regras de drawback e o ajuste nas exigências de manutenção de empregos para empresas que receberem apoio emergencial. Paralelamente, a ApexBrasil destinou R$ 130 milhões para intensificar a prospecção de novos mercados, com foco prioritário na União Europeia, Índia, Japão, México e países do Sudeste Asiático.
Pressão por ajustes e resistência à reciprocidade
Apesar do apoio oficial, as reuniões revelaram atritos e demandas específicas do setor produtivo. Representantes da indústria, como a Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos), sinalizaram resistência à aplicação imediata da Lei de Reciprocidade Econômica, aprovada pelo Congresso no ano passado. O argumento é que uma retaliação comercial poderia tirar o Brasil da mesa de negociações e piorar o cenário.
Em contrapartida, os empresários pressionam por mudanças no desenho do socorro governamental. As principais reivindicações incluem a supressão da cláusula que obriga as empresas a manterem o nível de emprego para acessar o crédito, a redução das taxas de juros, a ampliação dos segmentos elegíveis e a isenção do IOF nas operações do Plano Brasil Soberano. O governo, contudo, enfrenta o dilema da restrição fiscal, indicando que o novo pacote será mais enxuto que a edição anterior (de R$ 15 bilhões), priorizando instrumentos de menor custo, como garantias e crédito direcionado.
O fantasma dos 37,5% e a aposta política de 2026
O cenário tende a ficar mais complexo nos próximos dias. O governo brasileiro monitora com apreensão a expectativa de que Washington anuncie, já nesta sexta-feira (24), uma sobretaxa adicional de 12,5% sob a alegação de supostas falhas no combate ao trabalho forçado. Se confirmada, a tarifa acumulada sobre parte dos produtos brasileiros poderia chegar a 37,5%.
Nos bastidores do Planalto, a crise comercial é também enxergada como uma janela de oportunidade política às vésperas das eleições de 2026. Auxiliares de Lula avaliam que a postura de acolhimento ao setor produtivo pode atrair segmentos historicamente alinhados à direita, isolando a narrativa de que o governo seria o responsável pelas tensões com Washington. Essa estratégia ficou evidente quando o presidente pediu às centrais sindicais uma postura firme contra a Fiesp, após a entidade culpar o governo pelos “ruídos diplomáticos”, e ao rebater publicamente as articulações do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nos EUA.
O post Lula reúne setor produtivo para mitigar impacto do tarifaço dos EUA apareceu primeiro em Vermelho.